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Artur Jorge. "Despromoção do V. Setúbal foi uma bomba para o plantel"

09 set, 2020 - 18:00 • Eduardo Soares da Silva

O defesa-central de 26 anos assinou pelo APOEL, do Chipre, depois de dois anos de destaque no Bonfim. Artur Jorge recorda um final de época atribulado, em que o clube garantiu a manutenção no relvado, mas caiu ao Campeonato de Portugal por decisão da Liga de Clubes.

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Artur Jorge, defesa-central de 25 anos, deixou o Vitória de Setúbal este verão e lamenta a descida da equipa sadina ao Campeonato de Portugal, um clube que recorda com carinho e onde diz ter recebido o melhor tratamento em toda a carreira. Em entrevista a Bola Branca, o defesa recorda a temporada difícil no Bonfim, com um final agridoce.

Os primeiros rumores de uma possível despromoção administrativa surgiram imediatamente após o Vitória de Setúbal ter garantido a permanência desportivamente, com uma vitória na última jornada por 2-0, contra o Belenenses, a 26 de junho. A notícia chocou o grupo de trabalho e Artur Jorge diz que não tinha a menor ideia que a despromoção pudesse acontecer.

"Apanhou-nos completamente de surpresa. Para o plantel foi um golpe duríssimo. Se tivéssemos essa perceção, não teríamos celebrado como celebrámos na noite anterior. Nem faria sentido. Fizemos o nosso trabalho, vencemos e festejámos. Foi uma bomba total, um choque. Ninguém fazia a menor ideia. Não sei se a direção sabia, ou não, até porque festejou connosco, mas no dia seguinte caiu tudo sobre a cidade e o clube", começa por dizer, em entrevista à Renascença.

O Vitória de Setúbal apresentou uma providência cautelar para suspender a decisão de despromoção, que o Tribunal Arbitral do Desporto recusou, confirmando a presença dos sadinos no Campeonato de Portugal no dia 27 de agosto. O recurso apresentado pelo clube continua por decidir. Nesta data, a equipa principal já tinha arrancado a pré-temporada, sem equipa técnica e sem reforços.

"Foi um clima de muita instabilidade e desconfiança, é mais uma experiência para o nosso crescimento. Foi uma aprendizagem. Foi muito estranho, não tínhamos equipa técnica, apenas um treinador interino, sem reforços do costume como se vê nas pré-épocas e sem a certeza se iríamos competir num escalão, ou outro. Eramos bombardeados todos os dias com notícias. Foi uma apresentação muito complicada e horrível para funcionários que trabalham lá há tantos anos e dependem daquilo", recorda.

Paulo Gomes, presidente do Vitória de Setúbal, prometeu, em conferência de imprensa, que iria falar com os jogadores para decidir o futuro do plantel. Artur Jorge revela que a direção continuava com alguma esperança de poder disputar a I Liga.

"É um assunto delicado. Não abriu totalmente [a porta à saída dos jogadores], porque o Vitória ainda tinha alguma esperança em termos de sorteio, de alguma mudança até ao início do campeonato. Falou connosco e tentamos chegar a um acordo que agradasse a todos: uns de uma forma, outros de outra. Cada situação foi tratada de forma específica", aponta.

Época sofrida e com objetivo aparentemente alcançado

O Vitória de Setúbal garantiu a manutenção apenas na última jornada do campeonato, depois de ter chegado a cair para os lugares de despromoção. Artur Jorge acredita que foi mais "uma época à imagem das últimas" no clube, mas recorda que a pandemia da Covid-19 e a paragem do campeonato prejudicou os sadinos.

"Foi uma temporada como têm sido todas do Vitória, à imagem dessas. Foi sofrido até à última jornada e devíamos ter feito melhor. Até estavamos bem encaminhados antes da pandemia, mas sofremos muito até à última jornada. Foi uma época de imensas dificuldades, mas ao mesmo tempo de sucesso, porque o objetivo tinha sido alcançado. O que aconteceu depois já não diz respeito ao grupo de trabalho", atira.

A temporada 2019/20 do Vitória de Setúbal foi também instável no banco de suplentes. Sandro Mendes foi o treinador que arrancou a época, mas foi substituído pelo espanhol Julio Velázquez, demitido perto do fim do campeonato. Lito Vidigal terminou a época e garantiu a manutenção. Pelo meio, Albert Meyong chegou a orientar a equipa de forma interina.

Lito Vidigal tinha orientado o Vitória de Setúbal na temporada anterior e regressou ao clube para as últimas quatro jornadas, tendo empatado em Alvalade contra o Sporting e batido o Belenenses na última jornada.

"Ele teve um papel importante porque já conhecia grande parte do plantel. Com tão poucas jornadas por jogar, quando se decide mudar, teria de ser alguém que já conehcesse o plantel. Havia esse conhecimento múto. Mudou o 'chip' ao grupo e teve o seu mérito, mesmo só estando connosco uns 25 dias", diz.

Artur Jorge não esconde que o despedimento de Velázquez surpreendeu, até porque "a saída era menos provável a cada jornada que passava", mas compreende a mudança: "A nossa manutenção estava em risco. Era uma série muito negativa, 12 jogos seguidos sem ganhar. Era um momento quase insustentável. O clube arriscou e é preciso dar o mérito a quem decidiu, porque correu bem", diz.

Com tão pouco tempo para trabalhar a equipa, Artur Jorge diz que Lito Vidigal trabalhou mais o aspeto mental do plantel.

"Apelou mais ao lado psicológico do que a grandes questões táticas e técnicas. A época levava mais de um ano civil, em 20 dias não conseguiria mudar grande coisa. Mudou uma situação ou outra, mas trabalhou muito na questão mental. E teve efeito, porque vimos uma equipa muito mais agressiva, a disputar os duelos com mais intensidade. E isso era fundamental, porque cada jogo tinha uma importância extrema", acredita.

A retoma do campeonato, depois da paragem de três meses devido à Covid-19, prolongou a série negativa de resultados. O Vitória regressou ao ativo com empates contra o Marítimo e Santa Clara, e derrotas consecutivas contra Boavista, Rio Ave, Vitória de Guimarães, Paços de Ferreira, Aves e Famalicão.

"Acho que para todos os jogadores foi uma experiência horrível, é muito difícil manter a forma física e os índices de concentração. Foi um início mais difícil do que o regresso no verão, depois das férias. Notou-se em algumas equipas que a paragem foi negativa, e nós fomos claramente uma delas", diz.

A maré de resultados negativos fez com que o Vitória caísse para os lugares de descida. Na penúltima jornada, a equipa sadina empata em Alvalade, sem golos, um resultado que coloca o Vitória de Setúbal a depender só de si para a última ronda do campeonato.

"Recordo-me perfeitamente desse jogo, tudo o que o antecedeu. No estágio no dia anterior, o Tondela ganha ao Braga à hora de jantar e ficou um clima pesado. Tínhamos consciência da importância do resultado contra o Sporting, depois de um adversário direto ganhar ao Braga. O mérito foi do Lito nessa noite, no papel que teve antes e depois do jogo. Era vital, pelo menos, empatar em Alvalade. Antes do jogo havia um ambiente de muita esperança e correu tudo bem", recorda.

A manutenção ficou fechada com o triunfo, no Bonfim, contra o Belenenses: "Foi um alívio, uma festa. Recordo-me a receção que tivemos a entrar na cidade e a chegar ao Bonfim, porque tínhamos estagiado em Lisboa. Foi uma loucura, muito mais num tempo com jogos à porta fechada. E a seguir, depois do jogo, a cidade festejou muito. Ninguém merecia aquele desfecho".

APOEL é "clube grande" com a seleção na mira

Aos 26 anos, Artur Jorge volta a experimentar jogar no estrangeiro, depois de ter representado o Steaua de Bucareste, em 2017/18, por empréstimo do Braga. O central assinou um contrato de duas épocas com o emblema cipriota. Sair no final da época era já um objetivo definido.

"Tinha essa ambição de sair, pela época que fiz e pela possibilidade do Vitória de Setúbal fazer um encaixe significativo. Era esse o acordo entre as duas partes. Nas férias, falou-se da possibilidade de ficar se não surgisse nada que agradasse totalmente as duas partes. Não descartei 100% a continuidade, porque me senti muito valorizado aqui, com um papel muito importante no clube e na cidade. Foi o sítio onde fui melhor tratado na carreira", atira.

Com um golo marcado em 34 jogos disputados e um estatuto quase de indiscutível durante toda a época, Artur Jorge não esconde que foi a melhor época da carreira, depois de passagens pelo Freamunde, Vilaverdense, Braga e Steaua de Bucareste.

"Foi a minha época mais consistente e a que teve mais exibições brilhantes, digamos assim. Tive um número alto de exibições muito boas ao longo do campeonato e foi a melhor época até agora, sem dúvida", diz.

Depois de tomada a decisão de saída, o defesa-central reconhece que teve vários convites de clubes. No APOEL encontrou uma opção que combinasse o aspeto desportivo e financeiro.

"De janeiro para cá houve uma grande mudança, que foi a pandemia, e tudo o que isso trouxe para a indústria. Tive algumas propostas, de Portugal e no estrangeiro, umas mais interessantes a nível desportivo, outras a nível financeiro, e com esta opção acho que encontrei o equilíbrio entre as duas partes. É um contrato dentro do que esperava e queria, e é desportivamente excelente, porque vamos lutar por títulos e jogar nas competições europeias", explica.

Questionado sobre a possibilidade de chegar a um clube grande da Europa, Artur Jorge não hesita em interromper: "Sinto que já cheguei a um grande", antes de explicar.

"Muito honestamente, pelas condições que me deparo, os troféus que vejo na montra, em Portugal nada disto estaria ao meu alcance. As condições contratuais que nos oferecem e os objetivos que lutamos, acho que cheguei a um grande. Quero agarrar a oportunidade e corresponder às altas expetativas", diz.

Estrear-se pela seleção nacional é um objetivo há muito tempo reconhecido publicamente por Artur Jorge. Jogar no APOEL significa jogar competições europeias e lutar por títulos, mas alinhar num campeonato com menos mediatismo.

"A seleção sempre foi e será um objetivo. Não sei se fico mais perto, ou mais longe com esta decisão. Estou num clube que joga competições europeias e não chegaria a esse patamar no Vitória. Mas também sei que é um campeonato com menos visibilidade em Portugal e um pouco fora dos holofotes da Europa central, mas ninguém sabe o dia de amanhã, ainda tenho muitos anos pela frente. A seleção é um objetivo e gostaria muito de o concretizar", reforça.

Pai em destaque no clube do coração

O pai de Artur Jorge, do mesmo nome, foi uma das figuras do clube minhoto enquanto jogador e integra a estrutura. Arrancou a época como treinador da equipa sub-19, mas terminou-a como líder da equipa principal, depois da saída de Custódio.

O Braga conseguiu alcançar o pódio, no terceiro lugar, na última jornada, um resultado que orgulhou o filho: "Senti muito orgulho. Todos sabem a minha ligação ao Braga, como adepto ou alguém que é da cidade. Ver o meu pai no patamar mais alto do clube e chegar ao terceiro lugar é um motivo de orgulho. Fiquei muito feliz por ele".

O calendário ditou que Vitória de Setúbal e Sporting de Braga se defrontassem nas jornadas 5 e 22, muito antes de Artur Jorge assumir o comando técnico dos minhotos: "Falámos sobre isso os dois, e até os meus colegas comentaram sobre isso, mas ainda bem que não nos encontramos, preferi assim".

No futuro, Artur Jorge não esconde que poderia ser bom ser treinado pelo próprio pai, desde que isso represente que as duas partes chegaram a um bom nível na profissão.

"Se fosse num bom sítio, por que não? Não sei, ele agora voltou aos sub-23, mas sei que tem as suas ambições e acredito que tenha competência para voos mais altos. Espero manter-me também num bom nível e quem sabe. Seria um bom sinal", termina.

O APOEL, novo clube de Artur Jorge, já arrancou a temporada no campeonato cipriota, e também nas pré-eliminatórias, onde o defesa-central português se poderá estrear nas competições europeias já na segunda ronda, fora de portas, contra o Kaysar.

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