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Bastonário aos médicos. “Primeiro-ministro não transmitiu fielmente” o que se passou na reunião

26 ago, 2020 - 13:43 • Eunice Lourenço

As tréguas entre António Costa e Miguel Guimarães não duraram 24 horas. Bastonário enviou carta aos médicos a acusar o primeiro-ministro de deslealdade e a mostrar divergências no que diz respeito ao apoio sanitário a lares.

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Poucas horas depois das declarações conjuntas nos jardins de São Bento, que aparentaram umas tréguas entre a Ordem dos Médicos e o primeiro-ministro, o bastonário Miguel Guimarães enviou uma carta aos clínicos a queixar-se da conduta da António Costa.

O representante da classe médica acusa o chefe do Governo de não ter sido fiel ao que se passou na reunião de terça-feira, que durou quase três horas, e reafirmar que o apoio sanitário aos lares deve ser contratado de forma privada.

“Em vários momentos da reunião, foi reconhecido pelo primeiro-ministro que os médicos cumpriram a sua missão no lar de Reguengos de Monsaraz e em todo o país e que as declarações à margem de uma entrevista ao ‘Expresso’, vindas a público no fim-de-semana, não correspondem ao que pensa sobre os médicos”, escreve.

“O próprio primeiro-ministro reconheceu que as palavras proferidas na entrevista eram contraditórias com o seu pensamento sobre os médicos”, adianta Miguel Guimarães na carta que enviou aos médicos e a que a Renascença teve acesso.

“No entanto, após a reunião, na conferência de imprensa conjunta, quando o primeiro-ministro manifestou publicamente o seu apreço e consideração pelos médicos portugueses, não relevou a mensagem de retratamento da mesma forma enfática que aconteceu na reunião”, queixa-se o bastonário.

Recorde-se que, depois das declarações feitas em São bento, onde não houve ocasião para perguntas por parte dos jornalistas, o Sindicato Independente dos Médicos manifestou desilusão com o que se tinha passado na reunião entre a ordem e o primeiro-ministro.

Agora, Miguel Guimarães diz que o que se passou na reunião não ficou refletido nas declarações de António Costa e queixa-se de ter falado em primeiro lugar e, por isso, não ter tido ocasião de corrigir o que considera serem declarações pouco corretas por parte de chefe do Governo.

“Uma vez que falámos aos jornalistas antes do primeiro-ministro, que fechou a conferência de imprensa, não nos foi possível deixar mais claro que o apoio continuado aos lares não pode ser atribuído aos médicos de família, da forma cega que o primeiro-ministro a expressou. Assim, o primeiro-ministro não transmitiu integralmente e fielmente aquilo que minutos antes tinha reconhecido à Ordem dos Médicos”, escreve Miguel Guimarães.

A principal questão de divergência parece, assim, continuar a ser o apoio sanitário aos lares. Em abril, a ministra da Saúde decretou, no âmbito da pandemia, que esse apoio cabe aos centros de saúde, mas os médicos entendem que esse apoio deve ser contratado de forma privada, como reafirma Miguel Guimarães nesta carta.

“A Ordem dos Médicos enfatizou que o apoio por parte dos médicos de família ao lar de Reguengos foi cumprido, mas que, como regra, os lares do setor social e privado devem ter apoio médico contratado para garantir que os seus utentes são acompanhados de forma regular e que, neste nível de cuidados, é disponibilizada internamente toda a atividade clínica adequada.”, escreve Miguel Guimarães, admitindo “isto não retira que os médicos de família acompanhem os utentes das suas listas nos vários ciclos de vida, nomeadamente quando estão numa Estrutura Residencial para Idosos, quando o apoio configure uma situação de domicílio”.

Nas declarações feitas em São Bento, Miguel Guimarães reconheceu que era obrigação de todos terem mais preocupação com os lares e manifestou apreço pelas instituições sociais.

Ainda assim, apesar destas queixas, o bastonário reconhece que “a reunião foi exigente de parte a parte, mas foi um começo para esclarecer alguns pontos relacionados com as competências estatutárias da Ordem dos Médicos e os resultados da auditoria que fizemos ao Lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, que tinham estado na origem de algumas das infelizes declarações”.

E promete que “a Ordem dos Médicos não deixará, nesta perspetiva, de continuar a defender a honra e a dignidade dos médicos e dos doentes, e a verificar por vários mecanismos, nomeadamente inquéritos e auditorias, aquilo que são os cuidados de saúde prestados e as boas práticas médicas”.

Comentários
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  • Cidadao
    26 ago, 2020 Lisboa 23:41
    Era preferível deixarem-se deste pingue-pongue e acordarem num plano credível para enfrentar a 2.ª vaga de Covid em conjunto com a Gripe... É isso que preocupa as pessoas. Agora se quisermos novelas, há muitas na Tv. E se essas não bastarem, podemos sempre falar no Cavani...
  • José J C Cruz Pinto
    26 ago, 2020 Ílhavo 17:22
    Ai é OM que impõe a lares privados ou aos que em muito ou tudo dependem da Segurança Social (e do Governo) a quem incumbe ou são contratados os cuidados médicos? E o Governo e a Segurança Social, depois de a ouvirem (sim, senhor, é uma prerrogativa sua) só têm que concordar e obedecer não é? Boa! - contratação específica a privados, sempre, não é verdade? Sem prejuízo da possível bondade dos argumentos médicos da OM, não poderá ter sido um gesto de cortesia e boa vontade o Primeiro-Ministro não vincar o desacordo do Governo em relação ao que a OM (sempre) preconiza, tanto mais que ela própria o omitiu na sua declaração final? Não se entende por que razão calou o que tanto defende (legitimamente), a menos que nos possa agora garantir que o Primeiro-Ministro, além de manifestar o seu apreço e respeito pelos médicos, também concordou com o que a OM propõe. Mas, se foi isso (... alguém acredita? ...) do que se queixa? E diz agora: "a Ordem dos Médicos não deixará, nesta perspectiva, de continuar a defender ..., e a verificar por vários mecanismos, nomeadamente inquéritos e AUDITORIAS, ..." - a instituições (por convite) e a médicos (por sua iniciativa)? Em que ficamos?
  • João Lopes
    26 ago, 2020 14:16
    Os marxistas podem hoje dizer uma coisa e amanhã o seu contrário. Para eles não existe a verdade. António Costa terá em mente “mexicanizar” o regime: tendo o poder, nunca mais o largar. Se for preciso não olhando a meios para atingir os fins!