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Reguengos de Monsaraz. Falhas no lar explicam dimensão do surto, aponta relatório da autoridade de saúde

22 ago, 2020 - 21:30 • Eunice Lourenço , Susana Madureira Martins

Relatório da autoridade de saúde publica do agrupamento de centros de saúde do Alentejo central descreve dificuldades de vária ordem no controlo do surto do lar de Reguengos de Monsaraz. E classifica o surto como “evento de super disseminação”.

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Dificuldade na mobilização de médicos, falhas nos procedimentos de controlo da infeção por parte da instituição, subvalorização inicial do surto e falta de prevenção e imprevisibilidade de meios são algumas das falhas apontadas no relatório preliminar feito pela autoridade de saúde publica do agrupamento de centros de saúde do Alentejo central sobre surto de Covid-19 no lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva (FMIVP).

Neste surto morreram 18 pessoas: 16 utentes do lar, uma funcionária do lar e um motorista da câmara. Mas 96 por cento dos utentes do lar chegaram a estar infetados, o que a autoridade de saúde atribui às falhas da instituição no controlo da infeção. Essas falhas estão relacionadas com a própria estrutura do edifício, que dificultou a separação entre infetados e não infetados, e com os procedimentos adotados.

Este relatório, divulgado inicialmente pelo Público, e a que a Renascença teve acesso, foi feito pela autoridade de saúde pública com tutela sobre a região e confirma a dificuldade em separar infetados e não infetados, já denunciada no relatório feito pela Ordem dos Médicos, mas aponta a dificuldade em mobilizar médicos, o colapso da força de trabalho do lar e a controlo de infeção menos adequadas por parte dos voluntários como fatores de agravamento da situação.

O agrupamento de centros de saúde foi avisado a 17 de junho de um caso de uma funcionária do lar que tinha tido contacto com um caso Covid-19 positivo dez dias antes. A médica que acompanhou essa funcionária recomendou que todo o núcleo familiar ficasse de quarentena. No dia seguinte, 18 de junho, chegou à unidade de saúde publica a informação do primeiro resultado positivo de uma utente do lar, já internada no Hospital do Espírito Santo, em Évora.

“Nesse mesmo dia, e de acordo com as normas em vigor, iniciámos a preparação para testar todos os residentes e profissionais (colheitas realizadas a 18 e 19 de junho), e foram informadas todas as instituições relevantes por e-mail ou contato telefónico (Presidente da Câmara, Segurança Social, Proteção Civil, Autoridade de Saúde Regional, Direção do ACES Alentejo Central). No dia 18 e 19 de junho de 2020, as equipas médicas de saúde pública iniciaram o contato de todos os profissionais do Lar da FMIVPS para estratificação do risco de exposição a SARS-CoV-2 e todos os sintomáticos foram colocados em quarentena”, descreve o relatório com data de 29 de julho.

“Colapso da força de trabalho”

Logo depois desses primeiros testes, contudo, ficou claro que o lar não tinha um plano de contingência que assegurasse o seu funcionamento. “Devido ao risco de colapso da força de trabalho com consequências graves para o cuidado dos residentes ERPI os profissionais assintomáticos e com baixo risco clínico foram colocados em “quarentena”, mas com possibilidade de ir trabalhar. Não existia de imediato a possibilidade de substituir a força de trabalho com alto risco de exposição”, aponta a autoridade de saúde.

Entretanto, vários utentes do lar com teste negativo pediram para fazer a quarentena no domicílio e, depois de verificadas as condições de isolamento social, foram autorizados, sendo feito também um plano de testes para esses utentes e para os seus coabitantes.

“Imediatamente depois de recebermos os primeiros resultados de testes a dia 19 de junho foram comunicadas à direção técnica do Lar FMIVPS, as medidas a implementar para controlo de infeção, proteção dos profissionais e residente”, prossegue o relatório. Mas logo no dia seguinte, uma avaliação aos utentes feita por dois médicos, “referia uma deficiente implementação das medidas propostas para controlo da infeção”, pelo que foi pedida uma avaliação das condições.

A 22 de junho (o relatório da Ordem dos Médicos diz que foi a 23), a enfermeira Isabel Marques, a pedido do delegado de saúde local, “fez uma visita onde identificou a implementação deficiente de algumas medidas propostas”. Ou seja, quatro dias depois de conhecido o primeiro caso de utente infetada, já havia um alerta para problemas graves no controlo da infeção.

“Os reportes de deficiente implementação do controlo de infeção foram discutidos em reunião de coordenação com as diversas entidades, sendo comunicados os relatos à Direção Técnica do Lar para implementação de melhorias. Decorrente dos relatórios de que tivemos conhecimento, considerámos que existiria um risco de exposição continuada a SARS-CoV-2”, prossegue o relatório do agrupamento.

Tendo em conta as falhas detetadas e o facto de um primeiro teste não dar garantias de não infeção se o resultado for negativo, pois o indivíduo poder estar nos primeiros dias de infeção, foi decidida uma estratégia de testagem para utente e funcionários com testes sucessivos a cada 7 dias. Ainda foi colocada a hipótese de deslocar utentes com resultado negativo para outros lares, mas foi considerado que o risco de serem veículos de transmissão era muito elevado.

Mobilização das Forças Armadas

Os testes realizados uma semana depois, a 29 e 30 de junho, mostraram o crescimento da infeção entre os utentes, que chegou a atingir os 96 por cento, a 6 de julho. Já entre os funcionários, o crescimento foi menor. Nos primeiros testes , 28 por cento deram positivo, nos segundos a taxa subiu para 35 por cento e nos terceiros só aumento um ponto percentual.

“O aumento da taxa de ataque (infetados\ população em risco) pode ser explicado por no primeiro teste a 18 e 19 de junho os indivíduos já estarem infetados, mas ainda com carga viral indetetável. Ou foram infetados depois da data do teste RT-PCR. É difícil individualizar a contribuição de cada um destes dois fatores”, explica o relatório.

No dia 23 de junho, a situação foi comunicada à direção do agrupamento de centros de saúde e à autoridade regional de saúde do Alentejo. “Fruto das dificuldades sentidas na mobilização de médicos e de enfermeiros sugerimos a intervenção das Forças Armadas que poderia colaborar no apoio médico”, aponta o relatório, que também explica a opção por deslocar os utentes negativos para um edifício da Santa Casa da Misericórdia de Reguengos de Monsaraz.

Já os positivos foram delocados, depois de uma reunião de coordenação com diversas entidades, para uma Zona de Concentração e Apoio à População no âmbito do COVID-19. (ZCAP) Essa decisão foi tomada a pedido da Comissão Municipal de Proteção Civil, com parecer positivo da Autoridade de Saúde.

Mas continuaram as falhas nos procedimentos de controlo da infeção. “Sobre a força de trabalho recrutada pelo ERPI foi-nos assegurado que tinham experiência em prestação de cuidados a idosos. Mesmo assim, e considerando o risco, os peritos em controlo de infeção do ACES AC realizaram formação em uso de EPI para prestação de cuidados a doentes COVID-19 previamente à entrada em funções. A Saúde Pública foi recebendo relatos de práticas de controlo de infeção menos adequadas por parte dos voluntários”, acusa a autoridade de saúde.

“Evento de super disseminação”

Na sua segunda parte, o relatório descreve os acontecimentos na comunidade para a qual o surto se estendeu, tendo sido diagnosticadas 59 pessoas, a maioria em agregados familiares de profissionais do lar.

Durantes as duas primeiras semanas do surto foram realizados, em média, 300 testes diários, em várias localizações. “Foi essencial ter prestadores que conseguissem dar resultados em menos de 24 depois da colheita”, considera a autoridade de saúde, que também aponta a falta de recursos humanos para as colheitas e a falta de condições do local escolhido para instalar o centro de recolhas.

“Este surto é caracterizado como um “evento de super disseminação”, uma introdução de um caso positivo de 8 a 10 Junho no Lar FMIVPS rapidamente deu origem a vários casos positivos entre utentes, e depois em funcionários que infetaram os seus coabitantes e a comunidade”, classifica o relatório, que aponta a elevada mortalidade com a concentração de casos positivos na faixa etária acima dos 80 anos

“As duas mortes na faixa etária 40-60 anos não eram esperadas, em doentes da comunidade, mas, de facto, o risco de morte nestas idades não é nulo. Desse modo, a letalidade nessas faixas etárias, maior que a nacional está relacionada com a raridade do evento”, lê-se no relatório que faz também uma série de recomendações.

Quanto ao que se passou no epicentro do surto – o lar da fundação – a autoridade de saúde concluiu que “a taxa de ataque entre residentes foi bastante alta, quase todos os residentes foram infetados, o que reflete a natureza do próprio vírus, e o fraco controlo da infeção por parte da instituição”.

Comentários
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  • Filipe
    23 ago, 2020 évora 19:19
    Após a Inquisição , António Costa supera o estatuto de genocida .
  • José J C Cruz Pinto
    23 ago, 2020 Ílhavo 09:24
    E "bai daí ós pois", na óptica de muitos dos saloios da nossa praça política (e não só), a culpa do que sucedeu neste lar privado só pode ser do Governo - quem poderia estar mais à mão para culpar?! E, também, a culpa pelo caos e exploração miseráveis em tantos lares privados, ilegais e impróprios, é claro que só pode ser de quem não consegue ter fiscais e polícias suficientes para fiscalizar e mandar fechar os ditos cujos! [É como aquele outro que acha que o Governo é que em a maior culpa pelos acidentes de viação - como está bem de ver (não está?) por quem conduz todos os dias.]
  • Ramiro Silva
    23 ago, 2020 09:18
    Tudo aponta para grande negligencia e o primeiro ministro continua a apoiar e a desculpar os responsáveis.

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