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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Sérias suspeitas de envenenamento

25 ago, 2020 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A hipótese de A. Navalni ter sido vítima de um envenenamento é negada pelas autoridades russas, mas é vista como provável por muitas pessoas e entidades,incluindo o hospital alemão onde se encontra internado. Veja-se a história pessoal de Putin e a história do comunismo soviético.

O líder da oposição a Putin, Alexei Navalni, continua entre a vida e a morte num hospital em Berlim. A possibilidade de ele ter sido vítima de um envenenamento, desmentida pelas autoridades russas, é encarada como provável por muita gente, incluindo o hospital alemão onde se encontra internado. O governo alemão anunciou ontem que Navalni, em coma no hospital universitário Charité, em Berlim, necessita de proteção policial devido aos elevados indícios de que possa ter sido envenenado na Rússia.

Navalni tem uma longa história de perseguição pela polícia russa. Foi várias vezes preso e constantemente seguido nas horas e dias que antecederam o seu colapso a bordo de um avião que sobrevoava a Sibéria. Se o avião não aterrasse de emergência na cidade de Omsk, Navalni teria morrido.

Mas os médicos do hospital de Omsk, que viriam a desmentir a hipótese de envenenamento, tiveram posições estranhas. Primeiro, proibiram que Navalni fosse visto por um grupo de médicos alemães, que voaram para Omsk num avião-ambulância para transportarem Navalni para a Alemanha. Depois, os médicos russos negaram que tal viagem fosse possível, por causa do estado de saúde do doente. Finalmente, permitiram esse transporte. Ordens de Putin?

O líder russo foi agente do KGB. Depois do fim do comunismo soviético, Putin entrou na política e apostou em atacar os seus opositores internos e externos, sem se preocupar se essa luta incluía o assassinato. Ou seja, manteve-se fiel á sua tradição pessoal, bem como à tradição soviética.

Para concretizar os seus propósitos Putin criou grupos informais, fora do Estado, mas pessoalmente ligados a ele e por ele comandados. Grupos para difundirem notícias falsas na internet, interferindo em eleições nos EUA e na Europa, por exemplo, ou para intervirem militarmente em várias zonas do mundo – como é o caso do grupo de mercenários “Wagner”, que passou pelo Norte de Moçambique, aliás sem grandes resultados na luta contra os jiahdistas. Parece estar ativa na Europa uma célula secreta russa especializada em extorsão, sabotagem e assassínios.

Em 2006 Alexandre Litvinenko, que abandonara os serviços secretos russos e passara a colaborar com o MI6 britânico, acabou por morrer em Londres, devido a envenenamento por polónio-210, uma substância radioativa. O inquérito britânico responsabilizou a secreta russa.

Também terá partido desta célula o ataque com gás nervoso tóxico para tentar matar o ex-espião russo em Inglaterra, Sergei Skripal e a sua filha Yulia, dez anos depois. Ambos sobreviveram, após semanas em estado muito grave. As autoridades britânicas descobriram os suspeitos do crime, que viajaram de Moscovo para Londres com nomes falsos. No ano anterior, membros desta célula, tentaram matar o traficante de armas búlgaro Emilian Gebrev.

As tentativas de assassinato também visam adversários internos de Putin, incluindo jornalistas, como Anna Politkovskaya, morta no elevador do prédio de Moscovo onde morava. Altos quadros da diplomacia russa morreram em situação inexplicável ou vítimas de violência, no espaço de 60 dias em 2017. O mesmo vem sucedendo a opositores políticos, como aconteceu em 2015 a Boris Nemtsov, baleado na rua, em frente ao Kremlin. E por aí fora.

Será que os serviços secretos ocidentais não cometem crimes? Infelizmente, claro que cometem – basta ler os romances de John Le Carré. Mas porventura de forma menos sistemática e em menor grau.

Putin atrai os autoritários não russos de extrema-direita, como Marine Le Pen ou D. Trump, que vivem - por enquanto, pelo menos – em sociedades democráticas. Talvez não seja tão paradoxal como parece.

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