Tempo
|
A+ / A-

Adelina vivia numa ruína, até que os voluntários da “Just a Change” lhe entraram pela casa dentro

20 ago, 2020 - 18:34 • Teresa Paula Costa

​Voluntários reabilitam casas de famílias carenciadas. Projeto da associação de jovens “Just a Change” já reconstruiu mais de 200 habitações e instituições particulares de solidariedade social.

A+ / A-

Adelina vivia com o marido numa casa em ruínas, até que um grupo de voluntários meteu mãos à obra. Fazem parte do projeto “Just a Change”, fundado em 2010, quando um estudo do INE revelava que 4,7% da população vivia em condições severas de privação habitacional.

Isto significa “viver num alojamento sobrelotado, onde se podem encontrar vários problemas: inexistência de casa-de-banho ou de retretes com autoclismo, tetos sem isolamento suficiente, janelas e chão em estado de apodrecimento, presença de humidade nas paredes e luz natural insuficiente”, escreve a associação no seu relatório de impacto de 2019. Segundo o mesmo documento, “este estudo determinava também que a insuficiência habitacional estava ligada ao risco de pobreza”.

Perante a situação, vários jovens decidiram, literalmente, deitar as mãos à obra. Conscientes da dimensão e expansão geográfica do problema, assumiram como missão “reconstruir as casas destas pessoas de maneira a ajudá-las a relançar as suas vidas”.

Assim, com base no voluntariado, e com o apoio de empresas e instituições doadoras, começaram a reabilitar casas sem telhados, janelas e portas, casas onde não há água quente, nem eletricidade e onde se passa frio. Reabilitam casas porque “acreditamos que as condições de vida têm um impacto direto na redução da pobreza e criminalidade da população”, afirma o relatório.

Um trabalho que o diretor-executivo da “Just a Change” acredita que “faz a diferença”. Em declarações públicas em Minde, António Bello explicou que “o que nós queremos é reabilitar a vida das pessoas e olhamos a casa como uma plataforma chave para o fazer”.

“É lá que o nosso dia começa, é lá que o nosso dia acaba e quando este sítio não está digno, nós próprios sentimos que a nossa vida não o é”, acrescentou.

Combater o problema habitacional que, em Portugal, atinge 500 mil pessoas é, assim, o objetivo da associação. Uma “pobreza escondida, que não se vê tanto como nós gostaríamos, por estar entre quatro paredes”, salienta o dirigente associativo.

Desde que nasceu, o projeto já permitiu a reabilitação de 203 casas, além de creches, lares e orfanatos. Segundo António Bello, “todos os anos reabilitamos cerca de 20 instituições pelo país fora”.

Ao longo do ano, as obras acontecem nos grandes polos urbanos, de Lisboa e Porto, e no verão atuam um pouco por todo o país.

A associação atua com base na sinalização dos casos feita pela Segurança Social e pelas autarquias. Depois, faz uma avaliação dos custos da obra, mobiliza os recursos, concretiza a obra e ainda acompanha posteriormente os beneficiários, pois “muitas vezes a casa não é suficiente para quebrar, por exemplo, um ciclo de depressão”.

Dois anos a viver numa ruína

A casa de Adelina Gonçalves, no Vale Alto, Minde, é uma das obras em curso. Depois de mais de 50 anos a viver na Venezuela onde, com o marido, tinha um restaurante, a septuagenária regressou há dois anos a Portugal.

Devido à situação que se vivia no país sul-americano, voltou de mãos vazias. Quando se deparou com a casa da família, ficou devastada. A casa estava literalmente em ruínas.

Em entrevista à Renascença, Adelina Gonçalves, conta que “não tinha água e tinha de ir todos os dias buscá-la a um sítio ainda bastante distante da casa”.

“Quando chovia”, relata, “tínhamos de pôr um trapo ou um chapéu em cima da cabeça para ir à casa de banho, pois chovia lá como na rua”. Já para tomar banho, “tínhamos de aquecer água numa cafeteira e pôr a água num balde”, uma situação que acabou por lhe provocar uma queimadura no braço.

Para lavar a roupa, tinha de ser “à mão.” E de noite, “o frio era terrível porque quando chovia eu tinha de andar toda a noite a apanhar a água”.

Apesar das condições, a casa foi o abrigo do casal durante dois anos, até que, há cerca de uma semana, passou a residir temporariamente com os filhos, pois os jovens voluntários da “Just a Change” começaram as obras de reconstrução.

A equipa é composta por nove jovens, cinco rapazes e quatro raparigas, vindos de vários pontos do país, ajudados por um mestre de obras já com experiência em reconstrução de habitações.

A Maria Sarmento é um dos voluntários num tipo de trabalho que, embora seja mais conotado com o sexo masculino, não a assusta. A estudante universitária de Gestão e Direito revela que faz de tudo, “desde lixar paredes, pintar paredes mais lá para o fim, trabalhar com massa e com tubos de canalização”. Vêm todos, diz a jovem, “com um espírito de serviço, que é o que interessa, e com o foco de acabar a obra para beneficiar o casal”.

Mas o voluntário é também “um mensageiro de esperança e de alegria”, aponta o diretor executivo da “Just Change”. “É alguém que quer conhecer a pessoa que vamos apoiar, que quer ouvi-la, e isso faz a diferença quando nós queremos reabilitar não apenas a casa, mas a vida das pessoas,” rematou António Bello numa cerimónia de apresentação do projeto à ministra do Trabalho, que decorreu em Minde.

Um trabalho de voluntariado que Ana Mendes Godinho disse ser o exemplo da atitude a tomar no presente. “Enfrentamos neste momento, problemas muitíssimos complicados”, disse a governante, que acrescentou que a estratégia a seguir deve ser “não ter medo dos problemas, enfrentá-los, resolvê-los, mas, no terreno, com capacidade de intervenção e é isso que estão a fazer”, o que “deve ser fonte de inspiração para todos nós”.

Um trabalho de voluntariado que mostra que, no meio de muitas tragédias há também muita solidariedade.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.