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Postal de Quarentena – Peć

No Kosovo o isolamento é a dobrar e continua-se à espera de um milagre

11 ago, 2020 - 06:35 • Živojin Rakočević*

O Kosovo já registou mais de 10 mil casos de Covid-19, incluindo o primeiro-ministro, e contou mais de 400 mortos. Este postal foi publicado num jornal de língua sérvia na Páscoa, quando o confinamento estava no início. A Páscoa passou, mas o isolamento étnico entre albaneses e sérvios mantém-se tal como antes. Nem sempre foi assim.

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Por causa do coronavírus o mundo cristão, e todo o planeta, celebrou a Páscoa mais solitária da história, mas para os sérvios no Kosovo a solidão foi a dobrar.

Depois da guerra de 1999 estes homens e mulheres vivem como se fosse em ilhas. O isolamento étnico, o medo do outro e a formação de guetos tornaram-se o modo de vida e o modelo de sobrevivência para os sérvios kosovares durante os últimos 20 anos. Mas como é que era no passado, quando existiam pragas deste género?

Os mundos divididos e antagónicos de turcos, sérvios e albaneses estavam praticamente em conflito em 1911. Estava tudo a postos para a primeira guerra dos Balcãs, mas foi então que, antes das armas, entrou em cena a cólera e foi preciso esperar que esta tivesse a última palavra.

As autoridades turcas fizeram quase tudo o que as autoridades de hoje: restringiram os movimentos, puseram pessoas de quarentena, proibiram o consumo de frutas e legumes crus… Os desinfetantes, álcool e cloro de então eram a lima, o carbono e o Lysol.

Parece que o pior foi mesmo em Peć. O autor contemporâneo Petar D. Petrović diz que: “Os turcos aguentaram tudo com coragem. Mas quando viram os sérvios a beber aguardente, também começaram a beber, mesmo os que nunca tinham bebidos antes, provocando uma escassez”. Toda a gente que tinha casas no campo fugiu para lá. Foi então que o governador da cidade, o paxá de Peć, se lembrou do ícone milagroso da Santa Mãe de Deus de Peć, localizado no Patriarcado de Peć, sede da Igreja Sérvia, e pediu ajuda. Os sérvios acederam e no domingo, depois da liturgia, o padre Spasa fez uma procissão pela vila de Peć, levando o ícone, acompanhado de fiéis. O milagre que se seguiu não olhou a etnias: turcos, sérvios e albaneses. A praga desapareceu.

Este ano, passados 110 anos, a abadessa Haritina levou o mesmo ícone e, com a suas irmãs, fez uma procissão à volta do mosteiro sérvio do Patriarcado de Peć. A Santa Mãe de Deus pôde ver o muro e o arame farpado. Não havia ninguém para a convidar a visitar a cidade de Peć. Tanto os sérvios como os seus médicos foram expulsos. O sistema de saúde albanês, instalado depois dos bombardeamentos da sérvia em 1999, é demasiado fraco. Toda a gente está à espera para ver o que acontece do outro lado do muro étnico. As pessoas encolheram-se e esconderam-se. Só um ícone, que se acredita ter sido pintado por Lucas, o evangelista, passa entre sérvios e albaneses.

A sete quilómetros, na aldeia de Petric, a caminho de Peć, mesmo junto à estrada, vive a avó Kata Petanic. Foi a única que regressou depois da guerra e agora vive aqui sozinha, com vista para a igreja que foi destruída por extremistas albaneses. Sai de casa para um pequeno jardim bem mantido, cheio de galinhas e jovens árvores de fruto. Usa máscara. “Agora estragaram a minha floresta. Ouvi duas motosserras e chamei a polícia e os meus vizinhos católicos para lá irem”, diz a velha Kata, apontando para os grandes carvalhos que se veem atrás da Igreja. Regressa à entrada da sua casa e mostra as dobradiças partidas de uma porta que não tranca. À noite mete um machado para a bloquear. Junto à porta está uma placa com o símbolo da União Europeia. Cumprimento-a e desejo-lhe uma Santa Páscoa, que este ano aqueceu a sua casa mesmo depois de o machado ter sido retirado.

"O mundo está entorpecido, a espada da morte está suspensa por cima da cabeça de todos”. Petar D. Petrović escreveu esta frase profética naquela velha descrição da cólera. Hoje o mundo está entorpecido novamente, e espera um milagre.


*Živojin Rakočević é jornalista e poeta. Nascido em Montenegro, foi trabalhar para a capital do Kosovo depois de se licenciar. Vive agora em Gracanica, no centro de um Kosovo que se tornou independente mas continua a ser reclamado como parte da Sérvia. Este texto foi publicado originalmente no “Politika”, o mais antigo jornal dos Balcãs.

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