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Reportagem

São ciganos? São tortosendenses!

10 ago, 2020 - 09:38 • Liliana Carona

Foi ali, no Tortosendo, que nasceu um manual escolar, validado pela Direção Geral da Educação, que aborda a cultura cigana. A Renascença foi conhecer Tiago, Mário, António, Rosa e outros ciganos. Celeste não é cigana, mas casou com um elemento desta comunidade.

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Em Tortosendo, vila do concelho da Covilhã com 5.600 habitantes, há uma comunidade cigana composta por cerca de 200 pessoas (50 famílias). A ligação próxima com o presidente da Junta, aliada ao culto da fé e aos cursos de formação constantes, tem contribuído para uma verdadeira e recíproca integração da comunidade que ali nasceu e vive, fruto de uma geração com mais de um século de vida.

A Renascença foi conhecer esta comunidade (uma reportagem que também pode ouvir no áudio aqui disponibilizado).

O culto da fé numa improvisada garagem tem sido o motivo de mudança para muitos dos jovens da comunidade cigana do Tortosendo.

“Ele era um vadio, um ‘estroina’, só noitadas, não parava. Entrou no culto, vai ser pastor, está como candidato no período de 5 anos em que tem de demonstrar um comportamento adequado”, conta o pastor evangélico, Mário Fernandes, de 48 anos, representante da comunidade cigana do Tortosendo.

Falava de Tiago Gonçalves, 29 anos, casado e três filhos. Agora, está a tirar um curso (frequentado por 30 pessoas da comunidade cigana) na Casa da Vila do Tortosendo, na área da agricultura. Trata-se de um curso de operador agrícola, de 300 horas, do Programa Operacional do Emprego e Inclusão social (POISE).

O valor que recebe varia de mês para mês. A bolsa de formação mais o subsídio de alimentação varia entre 150 a 200 euros.

“Temos amigos por todo o lado. Somos pessoas de Deus”

“Estamos a tentar formar-nos para arranjar emprego para a ciganada toda. Sou cigano com muito orgulho”, começa por sublinhar Tiago, que nega receber o Rendimento Social de Inserção (RSI), admitindo apenas ter o apoio do abono das crianças.

“Nem todos os ciganos são subsídio-dependentes, trabalhei toda a vida. Recebi o RSI um ano ou dois, vivo no meio da vila. Pago 235 euros de renda e recebo o abono dos miúdos”, conta Tiago à Renascença.

“Muita gente pensa que os ciganos não trabalham. Passei pelas feiras – ser feirante é uma profissão como as outras – e sempre descontámos. Atualmente, estou desempregado, mas já trabalhei no Continente e numa unidade hoteleira”, realça ainda, sem deixar de admitir que arranjar emprego é difícil.

“Uma vez conheci um empregador que, quando percebeu que era cigano, desistiu de me dar emprego”, lamenta Tiago, que considera que o trabalho do cigano pode e deve passar pela agricultura.

“Acho que o cigano está bem no trabalho do campo. Já há muitos anos que ando a trabalhar na agricultura, na apanha da cereja, do pêssego, a fazer trabalhos de campo. Estamos agora a aprofundar os conhecimentos na agricultura, a aprender muito e estou a gostar de estar inserido na sociedade”, defende.

“Há muita gente que nos discrimina por não querer trabalhar ou não nos querermos formar, mas graças ao presidente da Junta estamo-nos a inserir e a formar”, enaltece Tiago Gonçalves, reforçando que gosta de viver no Tortosendo.

“Temos amigos por todo o lado. Não criamos desacatos e tentamos manter a paz, somos pessoas de Deus”, conclui.

“No tempo dos meus bisavós era complicado”

Tiago Gonçalves faz parte do grupo de 30 pessoas da comunidade cigana que frequentam o curso de formação em agricultura na Casa da Vila do Tortosendo. Graciosa Vicente, 53 anos, e Talita Vicente, de 28, completaram o 4º ano de escolaridade.

“Gostamos de trabalhar nestes cursos. Já não trabalhamos nas feiras e é melhor assim. Somos muito respeitados e a gente também os respeita. Já não há tantas tradições, os casais já se juntam já se casam com quem querem”, afirma Graciosa.

“No tempo dos meus bisavós é que era complicado. Hoje já está tudo nas escolas, tudo sabe escrever e eu no meu tempo já fui à escola, mas sendo cigana, a tradição era só até à 4.ª classe”, acrescenta.

Talita Vicente completou o 4.º ano de escolaridade, é casada e tem um filho. “Estou a gostar muito de frequentar esta formação em agricultura, assim como todas as outras que ultimamente temos feito”, embora, saliente, que o objetivo maior é criar o filho e que tenha um bom futuro.

Todos os anos, as pessoas da comunidade cigana do Tortosendo frequentam um ou mais cursos de formação, na tentativa de serem integrados no mercado de trabalho, em áreas que passam pela informática, tecnologias da informação/comunicação e costura/vestuário.

Neste processo, tem sido fulcral o papel do presidente da Junta do Tortosendo, que é valorizado por Mário Fernandes, o representante da comunidade cigana do Tortosendo e não só – já chegou ao Fundão, onde procura trilhar o caminho da paz, através da fé.

“O presidente da Junta é uma pessoa excecional, imparcial; não fala dos ciganos, mas dos tortosendenses e defende os tortosendenses”, afirma à Renascença.

Manual Escolar aborda a cultura cigana

E é a pensar no futuro das crianças e jovens que há cerca de 10 anos, uma organização não-governamental, a CooLabora, procura evitar o absentismo escolar e contribuir para um maior conhecimento da comunidade cigana.

Rosa Carreira, de 56 anos, representante da CooLabora, participou da criação de um manual escolar, lançado há cerca de um ano e disponível aqui.

“Fizemos um manual para ser utilizado nas turmas dos 5.º e 6.º anos em que se aborda as culturas e a história ciganas dentro das matérias previstas para os anos letivos. As crianças passam o primeiro ciclo sem nunca se abordar a cultura cigana. Os ciganos são portugueses? E a maioria respondia que não”, desabafa Rosa.

“Reflexo – Ferramenta Pedagógica para uma nova relação entre a escola e as comunidades ciganas” é o nome do manual, que foi validado pela Direção Geral da Educação e financiado pelo Alto Comissariado para as Migrações, através de um programa especial de integração das comunidades ciganas.

Para Rosa Carreira, o manual escolar antecipou-se a uma diretiva europeia em que deviam ser incluídos nos conteúdos das escolas, as questões da cultura e histórias ciganas.

O manual foi feito em parceria “com a Junta e com a UBI – Universidade da Beira Interior”, desvenda ainda, salientando que recebe pedidos de docentes de todo o país para terem acesso ao manual.

E, em tempos de Covid-19, a equipa da CooLabora, em parceria com a GNR, foi a casa das 60 crianças entregar os trabalhos da escola. “Tem sido um trabalho muito intenso junto da comunidade cigana nas escolas”, refere Rosa.

Também Celeste Salgueiro, de 46 anos e “não cigana” – assim se identifica – casou com o representante da comunidade cigana do Tortosendo, Mário Fernandes, e faz mentoria na comunidade que conhece há 26 anos.

“Moro no Tortosendo há 26 anos, nunca tive problemas nenhuns e ajudei a integrar os ciganos. Ajudo mais é as meninas, por exemplo. As mães não as deixavam ir à piscina, ou aos cafés; agora íamos tentar ir ao cinema, mas a pandemia estragou tudo. Fazemos dança, teatro”, exemplifica sobre o trabalho desenvolvido junto da comunidade cigana do Tortosendo.

“Não há ciganos”. São “todos tortosendenses”

É no Bairro do Cabeço, onde vive a maioria das pessoas da comunidade cigana do Tortosendo, que funciona a Loja Social, num espaço cedido pelo município da Covilhã.

À porta está Antónia Silvestre, coordenadora do projeto “Quero ser mais”, um projeto que pretende apoiar e trabalhar a inclusão social de crianças e jovens de meios mais vulneráveis. Está a atenta a tudo e ao ver chegar o presidente da Junta do Tortosendo, lança mais um desafio.

“Que tal uma ação de limpeza conjunta, do espaço exterior e o arranjo dos jardins? Podíamos até fazer uma candidatura para uma ciclovia e termos aqui bicicletas?", questiona.

"Caminhamos lentamente há 10 anos, mas vemos mudanças. A integração não se faz num casulo, trabalhamos na escola, no bairro e na comunidade”, defende Antónia, que integra a ONG CooLabora.

As propostas de Antónia são dirigidas ao presidente da Junta de Freguesia do Tortosendo, o independente David Silva, 45 anos (mais de 20 dos quais ligados à gestão da vila). A proximidade com a comunidade cigana é construída dia após dia.

“Desde sempre cresceram e viveram aqui. Sempre tive colegas ciganos desde o tempo de escola e quando vou ao culto cigano digo-lhes que ‘para mim, não há ciganos no Tortosendo. Eu olho para todos como tortosendenses’”.

“É uma forma de os integrar e de os abrir à comunidade. Eu sou católico, eles têm as tradições e os rituais deles”, acrescenta, afirmando que o mais importante é que as crianças não abandonem as escolas.

“Eu gostava que uma criança de etnia cigana fosse formada na UBI – Universidade da Beira Interior. Esse é o meu sonho”, confessa.

Centro Interpretativo da Comunidade Cigana na calha

"Depois da pandemia e sem feiras, os pais querem ver os filhos nas universidades”, observa David Silva, reforçando que “temos de trabalhar de mãos dadas para que esta comunidade não seja olhada como “os ciganos do Tortosendo”.

“Os ciganos nunca me fizeram mal. Era preciso dizer que eram ciganos para sabermos que eram ciganos. Nós não escolhemos os nossos amigos, eles fazem-se nossos amigos e estou disposto a ajudar os ciganos, como todos os tortosendenses. Aqueles que fazem o bem merecem o nosso apoio”, defende.

“Já participei num casamento cigano, com três dias de festa. Já vi partir amigos da comunidade cigana. Já fui convidado para almoçar e jantar em casa deles. Tomara muita gente ter a casa de um cigano e são casas de tortosendenses, casas limpas, onde há respeito”, revela ainda o autarca, que na passagem por outro bairro onde vivem pessoas da comunidade cigana ouve desejos e sonhos perdidos.

José Carlos Vicente Gonçalves, 31 anos, vive no Largo da Feira com a mulher, a mãe e o irmão. “Preciso urgentemente de uma casa, o Dr. David tem nos ajudado, ele é da família, ele já tentou várias vezes, mas…”

O presidente da Junta do Tortosendo desloca-se aos bairros onde moram as pessoas da comunidade cigana e admite que não consegue solucionar todos os problemas que lhe aparecem, mas há uma obra que um dia gostava de ver sair do papel.

“Tenho o desejo de construir na freguesia um Centro Interpretativo da Comunidade Cigana. Era uma forma de mostrar aos portugueses que Portugal também nasceu e cresceu com o apoio dos ciganos”, expõe.

E é nas suas tradições e rituais que a comunidade cigana vai nascendo, crescendo, vivendo e aprendendo no Tortosendo, como outra comunidade qualquer.

Joaquim Cardoso, 35 anos, estudou até ao 9º ano, é casado e tem um filho com dois anos.

“Aqui no Tortosendo não sinto racismo nenhum. Conheço doutores, conheço toda a gente”, sorri.

António Cardoso, 56 anos, tem o 9º ano feito e quer recuperar os estudos. "Fui treinador na Escola de Karaté no Inatel da Covilhã há uns anos. Cheguei a treinar GNR, crianças, fiz muito desporto. Sinto que ainda vou a tempo”, confidencia à Renascença.

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