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Teorias da conspiração e Covid-19: uma ligação pandémica

06 ago, 2020 - 07:16 • João Carlos Malta

Existem inúmeras teorias da conspiração. Muitas serão relativamente inócuas, mas quando em causa está uma pandemia as consequências podem ser devastadoras. O investigador e professor norte-americano Joseph Uscinsky concluiu, através de um estudo feito em março, que quem acredita nestas teorias tem mais tendência a adotar comportamentos de risco para a propagação do coronavírus. “Podemos concluir que estas crenças estão difundidas em larga escala”, diz o especialista à Renascença. E afinal, porque é que acreditamos nelas? O especialista responde.

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A Covid-19 criou as condições ideais para dar um palco maior aos que fazem das teorias da conspiração modo de pensar e de ver a vida. Uma pandemia global, a queda da economia, o isolamento social e as políticas que por todo o mundo retiram direitos aos cidadãos geraram um ambiente em que a ansiedade, o stress e a sensação de desamparo contribuíram para que o pensamento conspirativo galgasse para fora dos grupos restritos em que normalmente habita, e entrasse no pensamento “mainstream”, quer seja político, quer seja mediático.

Segundo o professor de ciência política na Universidade de Miami, nos Estados Unidos, Joseph Uscinski, o vírus deu aos defensores das teorias da conspiração um foco porque “todos estavam a prestar atenção a este assunto”, e como estava a tocar a vida de todos, de tantas maneiras, e ainda está, “as pessoas que têm tendência para acreditar em teorias da conspiração necessitavam delas”.

À Renascença, Uscinski, que tem dedicado grande parte da carreira a estudar o fenómeno das teorias da conspiração e que já escreveu livros sobre o tema como “Teorias da Conspiração Americanas” e “Teorias da Conspiração e as pessoas que acreditam nelas”, defende que se criaram dois grandes tipos de teoria conspirativa em relação à Covid-19.

Há os que ligam o vírus a uma arma química, que radica na ideia de que o vírus foi criado ou espalhado de forma propositada por um laboratório na China ou pela Rússia. Há ainda quem ponha os milionários George Soros e Bill Gates na equação.

A ligação da propagação do coronavírus à tecnologia 5G também é famosa na internet.

“Há pessoas que acreditam em teorias da conspiração sobre o 5G. E como perceberam que o vírus estava na ordem do dia, decidiram alterar as teorias da conspiração sobre o 5G para o ligar à disseminação do vírus, apesar de não haver evidências disso”, explica o académico norte-americano.

O outro grande grupo de teorias da conspiração sobre este assunto defende que as consequências do vírus estão a ser sobredimensionadas estritamente devido a motivações políticas. “No meu país [Estados Unidos da América] está ligado à ideia de que o vírus estava a ser usado para ferir o Presidente Trump nas eleições”, afirma Joseph Uscinski.

Nos Estados Unidos são frequentes os debates nos meios de comunicação mais conservadores em que os números oficiais de mortes no país são postos em causa. Chega-se ao ponto de defender que os hospitais não estão a tratar doentes com coronavírus, e a desafiar os cidadãos a deslocarem-se a essas unidades de saúde para filmarem o número de doentes que entram e saem e assim provar a sua teoria.


Nove em cada dez acreditam numa teoria da conspiração

Para perceber a tração destas duas variantes centrais das teorias da conspiração relacionadas com o coronavírus no início da pandemia, Uscinski e outros especialistas conduziram um estudo, realizado entre 17 e 19 de março, com uma amostra representativa de 2.023 norte-americanos.

A investigação, aponta o docente de ciência política, permitiu perceber que nos EUA “há muitas pessoas que acreditam nas teorias da conspiração relacionadas com o coronavírus”.

Os números mostram que cerca de 30% acreditam que as consequências do SARS-CoV-2 estão a ser exageradas por motivos políticos. E outros 30% acreditam que é uma arma química.

“Podemos concluir que estas crenças estão difundidas em larga escala”, destaca Uscinski.

O grande problema, defende, é que ao contrário de outras teorias da conspiração que podem ser relativamente inócuas, estas crenças podem ter “consequências negativas no comportamento de cada um”. Isto porque, quem acredita, “pode provocar grandes problemas”.

“Por exemplo, os que acham que tudo o que se diz é exagerado, o que percebemos é que depois, no seu dia-a-dia, não cumprem a distância social, nem estão a usar máscaras. E por causa disso, estão a permitir que o vírus se espalhe ainda mais.

O grupo envolvido no estudo respondeu a questões sobre 22 teorias da conspiração. Face às respostas, Joseph Uscinsky declara que, tendencialmente, “quase todos acreditam numa teoria da conspiração ou têm um sentimento conspirativo”.

“Quanto mais perguntávamos sobre teorias da conspiração, menos eram as pessoas que diziam que não acreditavam em pelo menos numa”, afirma. O resultado final mostra que 90% dos norte-americanos validam pelo menos uma teoria conspirativa.


“Atraídos pelas teorias que coincidem com as suas visões”

Para o académico, isto é a prova de que “as teorias da conspiração são muito populares e a sua penetração na sociedade é grande”, havendo umas que atraem mais do que outras. Por exemplo, se muitos acreditam piamente que existe um Estado secreto que governa os EUA, a ideia de que o Homem não pisou a lua já só é tida como verdadeira por 5% dos inquiridos.


Evolução da pandemia de Covid-19


O que leva a que as pessoas adiram a estas teorias obedece a um mecanismo que se repete, explica Uscinsky. “As pessoas são atraídas para estas teorias que coincidem com as suas visões do mundo. Gostamos de conspirar e de acreditar em teorias da conspiração e acusar pessoas de quem já não gostávamos antes”, identifica.

Por outro lado, “raramente acreditamos em teorias da conspiração que acusem o nosso lado de conspirar”.

O professor da Universidade de Miami identifica no estudo pessoas que reiteradamente não acreditam na informação dada pelas autoridades. Porquê?

“Há pessoas que sempre negaram as vacinas, negaram as alterações climáticas, cada vez que temos um surto epidémico, seja o HIV, ou coronavírus, há um grupo de pessoas que vem dizer que foi disseminado de forma propositada, e que não acredita no que os cientistas dizem”, explica.

Por isso, diz que por aí “não há nada de novo”.

“Há pessoas que têm uma relação antagónica com informação que seja fornecida por instituições. Não interessa o que se lhes diga, elas não vão acreditar. Porque é que são assim? Não estou certo, mas é claro que muitas pessoas pensam dessa forma. E não vão aceitar informação verdadeira, baseada em factos, que venha de cientistas, médicos ou responsáveis de saúde pública”, argumenta.


Internet e redes sociais são o motor?

Há uma forte crença de que a internet e as redes sociais têm galvanizado a disseminação das teorias da conspiração. Mas para o professor da Universidade de Miami, isso pode não ser bem assim, até porque estas existem desde tempos imemoriais, quando ainda nem se contemplava a existência da internet.

“É apenas parte da condição humana. Elas existem muito antes da internet e das redes sociais, e havia quem acreditasse mais nelas antes da internet e das redes sociais”, responde.

Para o investigador, não é nada claro que a internet e as redes sociais estejam a levar as pessoas a acreditar mais em teorias da conspiração do que anteriormente acontecia.

Dá como exemplo o assassínio do presidente Kennedy em 1963. Uscinsky diz que, em poucos meses, 50% dos norte-americanos acreditavam que havia uma conspiração e, a meio da década de 1970, o número tinha subido para 80%. “É a mais vasta teoria da conspiração a que já assistimos, e não havia internet nessa altura”, reforça.

Ainda sobre este acontecimento da história norte-americana, soma Uscinsky, desde que há internet “essas crenças caíram 35 pontos”.

“Não é claro que as teorias da conspiração encontrem um ambiente propício na internet. Não vivemos num mundo em que as pessoas sejam mais conspirativas do que eram no passado”, sublinha.

Para Joseph Uscinsky o problema maior para a disseminação destas teorias não se chama internet. “São as elites políticas, como o Presidente Trump, e as pessoas nos meios de comunicação tradicional que estão a dar gás a estas teorias”, adianta.


O efeito Trump

O papel de Trump neste assunto não é secundário. Em 2016, este criou uma coligação de votantes, apelando a pessoas que não gostam do "establishment" político, e cativou-as “a acreditarem num conjunto de teorias da conspiração”.

“[Trump] conseguiu pôr toda esta gente junta através de muitas teorias da conspiração. Agora para conseguir mantê-los juntos, continua a trazê-las a público. Ele diz que o coronavírus é um novo embuste dos democratas, e ele e a coligação que criou com uma certa elite dos media dizem coisas como o dr. Fauci poder não ser realmente um médico real”, resume, referindo-se ao médico epidemiologista que está a coordenar a resposta federal à Covid-19 nos EUA.

E porque é que o seu interesse, o de Uscinsky, um professor de ciência política, em teorias da conspiração? Porque são uma forma de as pessoas "expressarem desacordo com as estruturas de poder", responde o investigador.

“É uma forma de as pessoas criticarem o que se passa e de as pessoas tentarem entender o que se passa”, concretiza.

O docente diz que não consegue imaginar um mundo sem teorias da conspiração e acrescenta que também não tem a certeza “de que quisesse viver nesse mundo”.

“Imagine que não podemos conjeturar sobre o que o Trump conspirou com a Rússia? E se não pudéssemos discutir sobre quem matou o Presidente Kennedy em 1963? E se não pudéssemos falar sem qualquer tipo de subterfúgio na política? E se não pudéssemos acusar os líderes de estarem ligados a ações negativas? Por vezes há mesmo conspirações, e nós temos de estar cientes delas e alerta."

Mas ao mesmo tempo, refere, essas teorias podem ser “muito perigosas”, porque quando as pessoas as usam para justificar ações “podem causar consequências muito negativas”.

Podemos então definir se as teorias da conspiração são eminentemente positivas ou eminentemente negativas?

O professor Joseph Uscinsky solta uma longa gargalhada antes de responder: “Não sei. Algumas vezes podem ser muito negativas, quando as pessoas agem com base nelas, sobretudo quando se refere a uma pandemia. Pode ser muito perigoso. Mas se o Governo banisse todas as teorias da conspiração poderia ser também muito perigoso.”

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  • Joaquim Santos
    08 set, 2020 12:25
    A duvida está nas vossas mentiras. A manifestação em fins de Agosto, ocorrida em Berlim, teve segundo os optimistas 5 milhões de participantes. Mas que não sejam 5 milhões, que tenha sido só um milhão. A vossa mentira de 20 mil é mais gravosas, é desproporcional. Os senhores são pagos para informarem correto. Será que a vossa informação foi correta? Se o fui justifiquem-na com comentário identificando o seu autor, sem uso de pseudónimo.