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Ascensão e queda de Juan Carlos. De "melhor embaixador de Espanha" a Rei no exílio

04 ago, 2020 - 12:53 • João Carlos Malta , Pedro Filipe Silva

Subiu a chefe de Estado com Franco e por saber "ler o vento da história" tornou-se figura de proa na transição de Espanha para a democracia. Amado durante décadas, Juan Carlos I cai agora em desgraça devido a vários escândalos que mancham a imagem da Casa Real espanhola. O último episódio da crise foi o exílio, mas ainda há capítulos por escrever nesta história.

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Porque é que é uma figura com lugar incontornável na história de Espanha?

Após o colapso da ditadura dos coronéis gregos e da Revolução dos Cravos em Portugal, apenas a Espanha de Franco resistia como um Estado fascista encalhado no passado. O ditador já estava doente, e aproximava-se do fim da vida.

A grande maioria da sociedade espanhola queria viver num país democrático, incluindo muitos franquistas transformados em reformistas. Este era o panorama político que o Rei Juan Carlos encontrou quando, após a morte de Franco em 20 de novembro de 1975, se tornou seu herdeiro.

Uma das características que apontaram a Juan Carlos era a de metaforicamente ter a capacidade de "saber ler o vento da história”. Pelo menos até há uns anos.

"Todos eles eram importantes, Torcuato Fernández-Miranda (ex-primeiro ministro), Adolfo Suárez (ex-primeiro ministro), Santiago Carrillo (ex-líder do Partido Comunista), Felipe González (ex-primeiro ministro) ...", explica o historiador Enrique Moradiellos ao "El País", mas o Rei Juan Carlos foi especialmente importante porque tinha acesso às fontes de onde emanava o poder.

Juan Carlos poderia ter retardado ou dificultado a transição, mas a verdade é que preferiu ser o seu impulsionador.

Como foi crescendo a aura de líder?

Sobretudo durante o período em coabitou com o primeiro-ministro socialista, Filipe Gonzalez, permitiu que La Zarzuela (residência da realeza) e La Moncloa (residência do líder eleito do Governo) funcionassem numa distribuição harmoniosa de papéis.

Foram tempos em que Juan Carlos I prestou "serviços inestimáveis à Espanha", segundo Gonzalez.

O Rei colocou os seus conhecimentos em vários cantos do mundo ao serviço da política externa do país, mas também da economia. Isso foi imperioso para desbloquear imbróglios diplomáticos, dissipando mal-entendidos, mas também serviu para abrir a porta a negócios, nomeadamente relacionados com o petróleo.

Muitos retratavam-no como o "melhor embaixador" da Espanha.

Quais os primeiros indícios de que Juan Carlos I atuaria acima da lei?

O mesmo “El País” diz que, já naquela época, aqueles que com ele conviveram de perto descrevem que a imunidade do Rei passou de legal para moral.

Não foi apenas o facto de ninguém poder processá-lo em tribunal, já que a Constituição o impede, mas nenhum dos que o rodeia se atrevia a atrair atenções opondo-se ao monarca. Pouco a pouco, separou-se daqueles que, por idade ou carreira, podiam ter autoridade sobre ele.

Ao mesmo periódico, um amigo de Juan Carlos I conta que, em 2010, o então Rei da Espanha lhe confessou a preocupação quase obsessiva: que o que mais o atormentava ao abdicar era a de não ter dinheiro suficiente depois de dar o passo.

O amigo respondeu com uma pergunta a que o Rei não respondeu: "Mas porque quer dinheiro, se sempre que viajar os seus amigos sauditas lhe vão emprestar sítio para ficar?"

Ao mesmo amigo, Juan Carlos disse, há menos de três semanas, aos 82 anos: “Os que têm menos de 40 anos vão lembrar-se de mim apenas pela Corinna (a amante), o elefante (que abateu numa viagem ao Botswana) e a maleta (dinheiro saudita)".

Quando é que a perceção sobre Juan Carlos muda?

Há um antes e um depois do safari no Botswana para matar elefantes. Espanha vivia uma dura crise, depois de ser intervencionada pela troika. O desemprego escalou e a pobreza cresceu.

É no meio deste cenário que Juan Carlos é fotografado junto a um elefante morto. Nesta viagem há ainda uma queda; o Rei é operado de urgência depois de partir a bacia.

Além da caça de animais selvagens, uma atividade hoje menos aceite pela sociedade, fazer a viagem de luxo quando Espanha estava em plena crise fez explodir as críticas.

Os espanhóis descobriram naquele mês que o Rei gozava umas férias milionárias, junto com a amante, Corinna Larsen, então com 51 anos, e alguns amigos sauditas. Na altura, depois de receber alta, reuniu-se com uma "task-force" de crise e leu um pedido de desculpas aos espanhóis.

Sinto muito. Equivoquei-me. Não vai voltar a acontecer”, disse. No entanto, voltou mesmo a acontecer. A sua popularidade caiu irremediavelmente a pique e Juan Carlos não voltaria a recuperar.

Como foram recebidos os casos de infidelidade?

Os casos amorosos foram uma constante na vida de Juan Carlos I quase desde o início do seu reinado. Corinna Larsen foi apenas a última de uma longa série de amizades femininas que os seus assistentes estavam encarregados de encobrir.

Em mais do que uma ocasião, os serviços de inteligência do Estado espanhol foram usados para evitar um escândalo. Aqueles que conviveram com o Rei durante esses anos alegam que a sociedade espanhola era permissiva com as infidelidades sexuais dos governantes.

Não era algo exclusivo da Espanha: ao funeral de François Mitterrand, em 1996, comparaceram a sua esposa e a sua amante por 32 anos, com quem o antigo Presidente francês teve uma filha.

Quando é que Juan Carlos resigna?

Em 2014, depois do escândalo do Botswana. A decisão é ainda precedida por um episódio a 6 de janeiro de 2014, numa cerimónia militar, quando o Rei se perdeu na leitura do discurso.

A Casa Real desculpou-o, alegando que uma luz o havia encadeado. Mais tarde seria revelado que Juan Carlos mal dormiu na noite anterior, em que esteve em Londres, comemorando o 76.º aniversário.

Juan Carlos I falhava no cumprimento da sua função como chefe de Estado. Menos de seis meses depois, em 18 de junho de 2014, abdicou do trono.

Felipe VI, atual Rei de Espanha, não foi a primeira pessoa a quem Juan Carlos I confessou estar a pensar em abdicar, mas foi o filho o primeiro a saber quando a decisão foi tomada.

Deixou de ser Rei, mas os casos não despareceram. O que aconteceu a seguir?

O que se seguiu é talvez o maior escândalo em que o Rei emérito se viu envolvido. Há poucos meses foi aberta uma investigação sobre os negócios de Juan Carlos no estrangeiro. O Supremo Tribunal espanhol e as autoridades suíças estão a investigar suspeitas de corrupção.

Juan Carlos estará envolvido em vários negócios, entre eles um contrato ganho por um consórcio espanhol para construir a ligação de comboio de alta velocidade entre Meca e Medina.

Pela participação no negócio terá recebido, em 2008, uma doação de 65 milhões de euros do Rei da Arábia Saudita, um montante que entregou a uma antiga amante. O Rei terá também ido contas em paraísos fiscais que nunca declarou às Finanças espanholas.

Um rol de situações que colocam em causa não só o Rei emérito, mas acabam por manchar o prestígio da própria Casa Real espanhola.

O exílio: como e porquê?

Na semana passada, Juan Carlos I escreveu uma carta ao filho Filipe VI, a comunicar a saída de Espanha, sublinhando a repercussão pública dos mais recentes escândalos que o envolvem.

Na missiva, Juan Carlos assegura que "o mesmo desejo de serviço à Espanha que inspirou" o seu reinado e "antes da repercussão pública que certos eventos passados estão a gerar", tomou a "decisão ponderada" de se mudar para "fora de Espanha”.

O Rei Felipe VI, segundo o "El Mundo" o verdadeiro motor do exílio, respondeu num comunicado em que sublinhou a importância dos 39 anos de reinado do pai, o seu legado e obra política e institucional de serviço a Espanha e à democracia.

Mas a verdade é que a relação entre pai e filho já não era famosa há algum tempo. As suspeitas de irregularidades financeiras que recaem sobre o Rei emérito levaram mesmo Felipe VI a renunciar em março à sua herança. Há quatro meses, o rei também já tinha retirado a Juan Carlos a pensão de quase 200 mil euros anuais que recebia, paga com fundos públicos.

Para onde vai viver o Rei emérito?

Ainda é uma incógnita, apesar de haver bastante especulação em torno do assunto. A Casa Real espanhola não quer revelar o destino para proteger o Rei emérito.

O jornal "ABC" garante nesta terça-feira que o Rei emérito já está na República Dominicana, onde teria chegado de avião oriundo do Porto, depois de passar a noite em Sanxenxo (Pontevedra) no domingo.

Juan Carlos I seria convidado de Pepe Fanjul, um magnata do açúcar, dono de um complexo de hotéis de luxo na ilha do Caribe, com quem mantém uma estreita amizade.

A Casa Real não confirma nem desmente essas informações, e fontes próximas dao pai de Felipe VI apontam que o país onde ele passará as próximas semanas não será necessariamente a sua residência permanente.

Já de acordo com a TVI, o antigo Rei espanhol deixou o Palácio da Zarzuela, onde viveu nos últimos 58 anos, para se exilar em cascais, mais concretamente no Estoril.

Contactado pela Renascença, o autarca de Cascais, Carlos Carreiras, diz não ter qualquer informação até ao momento.

Acaba por ser um regresso ao passado, isto porque Juan Carlos veio precisamente para Cascais com o pai aos oito anos, acabando por passar ali grande parte da sua juventude.

Certo é que viverá sem a Rainha Sofia, que permanecerá em Espanha.

Além da pensão de 200 mil euros, perde para já mais alguma coisa?

Apesar de ter deixado Espanha, Juan Carlos I não só permanece Rei emérito, mas também continua a fazer parte da família real (agora reduzida, por Felipe VI, aos seus pais e filhas, após ter excluído as irmãs).

Como tal, Juan Carlos está sujeito aos regulamentos emitidos em 2014 pelo sucessor, que proíbe os seus membros de receberem presentes de terceiros incompatíveis com a sua posição.

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