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Entrevista

Adam Higginbotham. "Os verdadeiros custos de Chernobyl vão continuar escondidos"

01 ago, 2020 - 13:30 • Sandra Afonso

Higginbotham é o autor do livro “Meia-Noite em Chernobyl”, que inclui dezenas de novos testemunhos sobre o acidente nuclear, tido como inspiração para a série da HBO sobre o tema.

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O maior desastre nuclear de sempre continua a esconder respostas. Mas em “Meia-Noite em Chernobyl”, Adam Higginbotham resume anos de investigação, incontáveis horas de entrevistas e documentos inéditos sobre os acontecimentos da fatídica madrugada de 26 de abril de 1986.

Em entrevista à Renascença, o jornalista e escritor britânico fala das consequências do acidente nuclear, descrito ao pormenor nas mais de 500 páginas do livro, editado pela Desassossego. Dezenas de testemunhas foram ouvidas pela primeira vez. São elas e arquivos agora disponibilizados que permitem reconstituir parte da história, não só da Ucrânia, mas da União Soviética e do mundo.

Adam Higginbothan fala ainda de Pripyat hoje, uma cidade onde o tempo congelou e a natureza se instalou, até ser invadida pelos turistas.

Sobre a indústria nuclear, defende que acidentes como Chernobyl são irrepetíveis, mas que há lições que podem ter ficado pelo caminho.

“Meia-Noite em Chernobyl” é tido como a inspiração da série da HBO sobre este acidente nuclear, mas no arranque da conversa o autor garante que é “pura coincidência”. Até porque o conteúdo que passou na televisão fica muito aquém desta investigação.


Já sabemos tudo sobre o acidente de Chernobyl?

Penso que não. Muito material foi declarado confidencial na época. Logo após o acidente, as autoridades soviéticas realizaram uma investigação muito extensa, entrevistaram dezenas de pessoas e reuniram caixas e caixas com registos e informações.

Segundo o investigador do Ministério Público de Kiev envolvido na investigação, com quem falei, reuniram no total 57 volumes de materiais de investigação. No final, estes volumes foram enviados para Moscovo e classificados como confidenciais. Já passados alguns anos do colapso da União Soviética, ele tentou aceder a esse material mas nunca conseguiu e foi ele que me disse que havia coisas sobre o acidente que nunca seriam conhecidas.

Todo esse material permanece secreto. E há também os efeitos médicos e psicológicos do acidente, que foram igualmente ofuscados pelas autoridades soviéticas assim que se deu o acidente. Os verdadeiros custos do desastre, nestas áreas, acho que também vão continuar escondidos. Provavelmente para sempre.


Nunca saberemos, então, toda a verdade?

Não. Eu tentei investigar o máximo possível mas há determinados aspetos que nunca conheceremos, porque já passaram 35 anos.

"Há muitos aspetos na resposta soviética em que as autoridades fizeram o melhor que conseguiram, dadas as circunstâncias"

Encontrou muitos testemunhos contraditórios. Pensa que terá sido devido ao tempo que já passou ou haverá outros motivos?

Em qualquer grande evento como este, que afeta tantas pessoas durante um período tão longo, vamos sempre enfrentar o problema da memória das pessoas e relatos que entram em conflito. Simplesmente, porque as pessoas percebem os eventos de formas diferentes. Encontrei o mesmo problema noutras situações, mais recentes, faz parte da experiência humana.

Como repórter e historiador, o melhor que posso fazer é tentar chegar ao que Bob Woodward, o investigador do encobrimento do escândalo de Watergate, descreve como "a melhor versão disponível da verdade".


Como classifica a resposta das autoridades e, em particular, do regime ao acidente?

É uma pergunta muito complicada. No geral, exibiram muita imprudência numa fase inicial, em relação à segurança dos cidadãos e ao atraso na evacuação da cidade de Pripyat, que fica a apenas três quilómetros, no ponto mais próximo, do complexo radioativo. É indesculpável e foi adiado, em grande parte, por motivos políticos. Mas há muitos outros aspetos na resposta soviética em que as autoridades fizeram o melhor que conseguiram, dadas as circunstâncias.

A compulsão pelo sigilo, que dominava o estado soviético, complicou tudo, dificultou os trabalhos e comprometeu a eficácia. Se tivessem recebido ajuda internacional na limpeza e na própria resposta ao desastre, teriam demonstrado mais transparência e as coisas poderiam ter sido muito diferentes.


Podemos apontar este acidente como a razão da queda da União Soviética?

Na União Soviética tem dois efeitos principais. Um é a forma como afetou a atitude de Mikhail Gorbachev em relação às reformas que ele próprio tinha anunciado antes do acidente, mas que eram ainda slogans, glasnost e perestroika, maior abertura do Governo e reestruturação da economia.

Ele ainda não tinha feito realmente nada, mas descobre quão corrupto se tornou o sistema que tinha herdado e, em particular, começa a perceber que a indústria nuclear, a jóia do sistema soviético, era profundamente corrupta e inclinada para o sigilo e para a conveniência. Percebe, então, que tem de agir muito mais depressa do que tinha previsto e antecipar as reformas económicas, que acabam por contribuir para o colapso da União Soviética.

Por outro lado, permitiu a abertura dos relatórios após o acidente de Chernobyl, em linha com a glasnot, o que levou o povo soviético a perceber até que ponto tinham sido enganados pelos seus líderes e a extensão das mentiras sobre a natureza do Estado e como foi administrado. Este também foi um forte contributo para a ruína da URSS.


Chernobyl também acabou por mexer com a política nuclear a nível internacional?

Certamente. A escala do desastre de Chernobyl teve um impacto quase imediato sobre o desenvolvimento da energia nuclear em todo o mundo. Em muitos países parou os programas de desenvolvimento de energia nuclear, face aos receios levantados por este acidente.

Como descreve Pripyat hoje?

A última vez que estive em Pripyat foi em 2017. É um lugar fascinante para se visitar. Por um lado, permanece uma espécie de cápsula do tempo, dos últimos dias da União Soviética, porque ficou praticamente tudo como foi deixado no dia da evacuação, no final de abril de 1986. Mas também porque é uma cidade inteira que foi deixada para ser repovoada pela natureza.

Agora andamos pelas ruas, sobretudo no final da primavera e no pico do verão, e há árvores a crescer nos átrios dos prédios, há alces e lobos a vaguearem pela Praça Central da cidade, é uma experiência única.


O que é que mais o impressionou?

Diria que um dos momentos mais memoráveis que vivi em Pripyat foi quando estava a andar por um daqueles grandes pátios, no centro de um dos prédios de apartamentos, com o meu tradutor e o guia que nos levava pela cidade, contornei a esquina e subitamente eles desapareceram e fiquei sozinho. Fui invadido por uma sensação incrível, não só era a única pessoa neste pátio coberto por árvores, plantas e arbustos e invadido por animais selvagens, mas era também a única pessoa na cidade e a única pessoa na terra.

Tive uma espécie de visão, em flashes, do que seria ser a última pessoa no mundo.


Agora já deverá ser possível repetir essa experiência, mas só porque a Covid-19 praticamente suspendeu o turismo internacional. A cidade tornou-se um destino turístico.

Agora dezenas de milhares de turistas vão lá por ano, à cidade e à zona de exclusão. Acho que está a começar a afetar a fábrica e o ambiente em Pripyat.

Li recentemente que os turistas são tantos que as autoridades ucranianas têm de fazer uma segunda limpeza dentro da zona de exclusão. Depois da limpeza radioativa, têm de enviar equipas para limpar o lixo, deixado pelos turistas.


Ucrânia quer dar uma “nova vida” a Chernobyl – a 108 metros de altitude
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A cidade pode voltar a ser habitada?

É interessante... Nos arquivos existe um documento de 1991, penso, onde dois especialistas em radiologia do Instituto de Ciências da Ucrânia sugerem que, até nessa altura, a combinação da descontaminação com a deterioração radioativa indicava que os níveis de radiação da cidade tornaram possível o repovoamento. Mas este é o único relatório que vi a sugerir o regresso da população.

Quando vamos visitar a cidade, os guias gostam muito de nos dizer que o nível de radiação é de tal forma baixo que, provavelmente, estamos mais expostos durante o voo que atravessa o Atlântico do que nas horas que passamos em Pripyat. Mas penso que ainda resta poeira radioativa nas superfícies e no solo, em torno da cidade, em quantidade suficiente para afastar a possibilidade de ser um lugar seguro para habitar.

Atualmente temos muitas centrais nucleares que já ultrapassaram a sua vida útil, ou estão perto disso. A de Almaraz está perto de Portugal, na fronteira espanhola. Um acidente como Chernobyl é possível hoje em dia?

Como Chernobyl não, penso que hoje não é possível termos um acidente igual com os reatores nucleares do Ocidente.

Muito do que aconteceu em Chernobyl foi resultado de defeitos de conceção/desenho desse tipo específico de reator, o RBMK, usado na União Soviética. Estes reatores nunca foram construídos fora do país e, mais importante, não incluíam uma cúpula de contenção, que é uma estrutura de cimento construída sobre o reator para conter qualquer fuga radioativa que possa resultar de um acidente.

Estes dois fatores contribuíram para a escala do desastre de Chernobyl, que eu acredito que é irrepetível. Temos o exemplo de Fukushima, em que a escala de radioatividade libertada é muito inferior a Chernobyl, que continua a ultrapassar largamente outros acidentes do género.

Mas continuam a registar-se acidentes nucleares.

Se falar hoje com os técnicos e cientistas que trabalharam em Chernobyl eles dizem-lhe que a indústria nuclear não aprendeu a lição.

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  • Pedro Caeiro
    01 ago, 2020 14:50
    um trabalho muito bom!! parabéns