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"As infraestruturas tecnológicas públicas estão caquéticas. O país está todo roto"

30 jul, 2020 - 11:35 • José Pedro Frazão

Presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores avisa na Renascença para a "enorme probabibilidade" de colapsos na estrutura informática do Estado e apela a um plano de transformação digital da Administração Pública.

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Muito crítico do atual estado da infraestrutura informática do Estado, o presidente do INESC denuncia o desprezo da classe política pelo estado de degradação a que diz ter chegado essa estrutura. Numa reflexão sobre a situação atual, José Tribolet pede mesmo uma avaliação de risco que seja tornada pública.

"A camada política dirigente do país não percebe a emergência em que estamos, pelo estado depauparado e caquético das infraestruturas de tecnologias de informação da Administração Pública. Lá dentro está tudo roto. Está tudo roto! A probabilidade da eficácia do que se está a fazer ser adequada é pequena. A probabilidade de haverem colapsos é enorme. Mas não há ninguém que tenha a coragem de mandar fazer um estudo de risco na infraestrutura da administração pública. Queria ver esse estudo publicado", afirma Tribolet no programa Da Capa à Contracapa, uma parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, num debate que contou ainda com João Mota Lopes, especialista em transformação digital e quadro superior da ORACLE em Portugal.

Tribolet diz que a sua experiência no sector público aponta para uma prática de "pára-arranca" em que as iniciativas começam, mas são travadas por falta de autorizações de despesa. "Há coisas fundamentais, prontas a funcionar e que traziam poupanças brutais ao país e que estão três ou quatro anos paradas. E a razão não é falta de dinheiro. É preciso uma autorização, o Ministério das Finanças corta, depois muda a administração e vemos depois o prejuízo para o país", acrescenta o presidente do INESC.

O catedrático jubilado do Técnico dá o exemplo do portal de compras públicas BASE que, assegura na Renascença, precisa de uma atualização urgente que não é executada há dois anos.

"Sou o arquiteto principal do portal. Ele precisa de uma atualização que está pronta e não avança já há dois anos. Vamos receber agora uma pipa de massa. Aquele portal está à espera de uma atualização arquitetónica que está pronta. Pois a gente não consegue andar para a frente! Estamos à espera há dois ou três anos fiscais. Pode dizer-se que a responsabilidade é do Ministério das Finanças? Também não. Um tipo está lá em cima aflito a controlar o fluxo de dinheiro e tem que ser cego, surdo e mudo", sustenta o convidado do "Da Capa à Contracapa" que debateu os desafios da digitalização da sociedade no contexto da pandemia.

Um plano digital para a Administração Pública

José Tribolet e António Costa Silva lecionaram na mesma Universidade e o primeiro enviou ao segundo um conjunto de comentários para a "visão estratégica" construída a pedido do Governo. O catedrático jubilado não obteve resposta mas em público sugere acrescentar apenas a construção de um " plano de modernização da Administração Pública tirando partido do digital" com o objetivo de dar mais qualidade e fluidez aos serviços.

"O digital permite fazer isto hoje, alavancado pela mudança mental que isto da pandemia deu. É tirar oportunidade do que sucedeu. Quando tantos trabalhadores foram para o teletrabalho, agora é muito mais fácil fazer coisas do que antes", analisa Tribolet que apela mesmo a uma exigência por Bruxelas dirigida a Lisboa para a transformação digital na Administração Pública portuguesa.

O especialista em sistemas de informação admite que esse processo pode prolongar-se até 2027. "Com a minha idade já sei que é preciso dar tempo ao tempo", complementa Tribolet, de 70 anos, 40 dos quais à frente do INESC. Para este perito, é essencial que a Comissão Europeia exija um plano "bem formulado, com orçamento, estrutura de governação, comando e auditoria" proposto por Portugal. "Da leitura que fiz do trabalho do professor Costa Silva, é a grande medida que falta", remata.

No plano privado, o perito em engenharia informática defende mais abertura para cooperação sem que se espere sempre pelo dinheiro do Estado. José Tribolet considera que as maiores empresas portuguesa, que tratam de infraestruturas críticas para o país, estão mal preparadas, sobretudo pela falta de pessoal qualificado.

"Não temos suficiente relevância no panorama geoestratégico mundial para sermos atacados. Costumo dizer que a nossa grande proteção é que nem sabemos onde está a informação. Muito menos sabe o inimigo", graceja o presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores.

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