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Acidentes rodoviários são a principal causa de morte de bombeiros no ataque aos fogos

29 jul, 2020 - 09:01 • João Carlos Malta (texto), Joana Gonçalves (infografias)

É o que apontam dados fornecidos pela Liga de Bombeiros Portugueses, referentes aos últimos 40 anos. Nesse período morreram 231 bombeiros, sendo que 94 mortes, 41% do total, ocorreram no momento em que as vítimas se deslocavam nas viaturas de combate aos incêndios.

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Diogo tinha 21 anos e era bombeiro nos Voluntários de Proença-a-Nova. Durante uma manobra, no fim de semana passado, no grande incêndio de Oleiros, o pior aconteceu. O pneu rebentou, perdeu o controlo do carro, e capotou. O jovem tornava-se no 94.º bombeiro a perder a vida num acidente rodoviário enquanto se deslocava para o combate às chamas. Esta é, aliás, a principal causa de morte dos bombeiros em serviço nos últimos 40 anos.

O ano de 2020 ainda não acabou, mas já é o que mais vítimas mortais contabiliza nos últimos sete anos. Até ao início desta semana foram quatro homens a morrer no ataque ao fogo. É preciso voltar a 2013, ano em que faleceram nove bombeiros, para ter um valor de vítimas mortais tão elevado.

Os números constam de um conjunto de dados compilado pela Liga de Bombeiros Portugueses e enviado à Renascença. A recolha começa em 1980, e além de contabilizar as mortes por ano, identifica, por exemplo, os distritos e as causas e circunstâncias em que morreram os bombeiros que estavam no desempenho de funções. No total, nas últimas quatro décadas, morreram 231 voluntários e sapadores.

O ano de 1985, em que se registou o grande incêndio de Armamar, foi o mais mortal para os bombeiros. No total, contabilizaram-se 18 vítimas. O ano seguinte, 1986, e 2005 foram os outros dois anos a registar mais mortes nas últimas quatro décadas. Foram 16 em cada ano.

O presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, enquadra a preponderância dos acidentes rodoviários com a necessidade que há de ser rápido na atuação. Não considera que o número seja desproporcionado em relação ao tipo de funções desempenhadas por estes homens e mulheres, “para quem o risco é uma atividade quase diária”.

“Muitas vezes são falhas mecânicas, são situações que não se explicam pela falta de cuidado da condução ou da irresponsabilidade da condução. São situações que acontecem dentro do que é o risco de andar na estrada e em estradas como são as portuguesas”, avança Marta Soares.

O presidente da Liga de Bombeiros fala ainda da falta de cultura de responsabilidade nas estradas nacionais, que se manifesta em muitas ocasiões, e que também atinge os bombeiros. E rejeita a ideia de falta de formação em condução de risco, que pode levar a que a proporção de acidentes rodoviários como causa de morte de bombeiros seja tão elevada.

“Os bombeiros fazem exercício e formação dentro e fora de estrada, em estrada, em tudo. Os bombeiros portugueses têm formação que o cidadão comum gostaria de ter quando lhes dão a carta de condução”, defende.

"Demos passos importantes"

Xavier Viegas, perito em incêndios florestais que coordena o Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, concorda que a condução de emergência é um fator com peso no número de vítimas mortais entre os bombeiros e à Renascença começa por apontar as características das estradas como causa.

“Conduzem com alguma pressa por estradas que são estreitas e sinuosas, em terreno acidentado, o que pode levar à perda de controlo da viatura”, relata. E, em muitas ocasiões, os veículos circulam carregados. "A água nos tanques balouça e pode facilitar a perda de equilíbrio, para não falar das falhas mecânicas", refere Viegas.

A isto acresce a questão do equipamento, que "não é mantido nas melhores condições", destaca o especialista forense, que refere "rodas que saltam", o que contribui para os despistes.

Por fim, fala do “cansaço” que pode ocorrer no regresso de um incêndio que “pode demorar mais do que um dia”. “A perda de atenção pode levar a um acidente”, conclui.

Ainda assim, Xavier Viegas argumenta que têm sido dados passos importantes para responder a estes problemas.

“As autoridades têm agora muito mais cuidado. Os bombeiros não se deslocam nos autotanques, fazem com que possa haver transporte noutros meios, e que haja um reforço das equipas e uma rotação com períodos mais curtos que permita o descanso e a alimentação do pessoal”, elucida.

O mesmo sublinha que Portugal planeia agora melhor, por exemplo no que à logística diz respeito. “As coisas estão francamente melhores, demos passos bastante importantes”, afiança.

Imprevisibilidade e alta pressão

José Domingues, comandante de Castanheira de Pera que, em 2017, perdeu um homem num acidente com um carro de bombeiros nos grandes fogos que assolaram a região de Pedrógão Grande, recorda esse dia.

“O nosso carro vinha a circular normalmente, e veio uma viatura desgovernada em sentido contrário e fora da direita. Bateu quase de frente com o carro dos bombeiros”, relembra Domingues. Do acidente resultaria a morte de Gonçalo Conceição. A causa do óbito seria depois oficializada como resultado de “queimaduras graves”.

“Isto é imprevisível. Não há nenhum condutor de primeira intervenção ou de segunda intervenção que não tenha noção do veículo e do tipo de veículo que vai a conduzir. A grande maioria ou a totalidade tem condução fora de estrada independentemente da prática que cada um possa ter. As noções básicas e elementares, e a formação e instrução que têm, dão mais do que condições para utilizarem esse tipo de veículos”, remata o chefe Domingues.

Nos dados da Liga de Bombeiros Portugueses há um grande conjunto de casos, 58 no total, cuja causa de morte é desconhecida, mas ainda assim é possível perceber que a morte súbita (21), e acidentes no combate direto ao fogo, como queimaduras graves (24), explicam mais de 20% das mortes entre os bombeiros em serviço.

Apesar de haver um considerável número de casos em que não há registo da idade, a média de idades dos bombeiros que morreram a trabalhar é de 36 anos. O mais novo tinha 14 anos e o mais velho 62 anos.

Em Portugal Continental, no período de análise, Aveiro e Lisboa são os distritos com mais fatalidades, e Viana do Castelo, Portalegre e Évora os que registam menos desfechos mortais.

Em relação ao aumento de casos de morte súbita nos últimos anos, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, diz que isso demonstra que o bombeiro “não é nenhuma máquina”.

“Se vemos futebolistas e atletas com atividades físicas e vigiadas a morrerem... Um bombeiro que está sujeito a uma pressão maior, apesar de fazer o seu exame médico, e de haver vigilância médica se o bombeiro quer subir na carreira, também está sujeito”, explica.

Marta Soares diz ainda que o trabalho destes homens e mulheres é de “alta pressão”. “O bombeiro sofre, num desencarceramento vê uma pessoa estropiada. Muitas vezes o coração vai-se abaixo.”

O responsável refere ainda fatalidades que nada nem ninguém pode prever, como aconteceu este ano, em Leiria, a Filipe Pedrosa, de 34 anos, que durante uma atividade de vigilância “caiu para o lado” e morreu.

Em 40 anos, apenas no ano passado não houve registo de vítimas mortais de bombeiros no ataque aos fogos em Portugal.

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