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Covid-19

Os mais velhos "não são para deitar fora"

27 jul, 2020 - 15:18 • Ângela Roque

Comissão Nacional Justiça e Paz diz que a pandemia agravou a solidão dos mais idosos, sobretudo os que, estando doentes ou em lares, se encontram privados de visitas. E considera urgente refletir sobre "O que é ser velho" hoje.

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Na Nota "A Pandemia e os Mais Velhos", divulgada esta segunda-feira, a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) assume que não pode, no atual contexto, “deixar de chamar a atenção” para a forma como a “sociedade utilitarista” em que vivemos está a tratar as pessoas idosas, ao promover a “cultura do descarte”, a que o Papa Francisco tantas vezes se tem referido.

Lembrando que os mais velhos são “as principais vítimas da Covid-19”, a CNJP diz que a pandemia agravou a situação dos que estão “confinados em lares, impedidos, face aos riscos de contaminação, de receber visitas dos seus familiares”, e que agora estão “ainda mais sós”. Mas também alterou a vida de todos os outros que “subitamente, quase que em sobressalto, passaram a fazer parte desta enorme categoria sanitária/sociológica de grupo de risco”, e que ficaram “subitamente bloqueados, pelo dever de proteção, neste gigantesco bloco catalogado de quase intocáveis”.

“Estes tempos alertam-nos para o facto de termos de refletir seriamente sobre as condições de vida e de participação dos mais velhos. Sobre o que é ser mais velho”, lê-se na Nota, que sublinha que os idosos “não são para deitar fora, porque já não são úteis na denominada vida ativa”.

“Os mandamentos alertam-nos que devemos ‘honrar pai e mãe’, temos o dever de proteção. Será que os honramos, remetendo-os a depósitos onde não há convivência entre gerações, onde deixam de poder ser ativos, meros ‘utentes’ de instituições? Será que os honramos colocando-os num grupo artificialmente homogéneo dos que ‘chegaram ao fim da vida’, e já não têm forma de participar e contribuir para o bem estar da sociedade a que pertencem?”, pergunta a CNJP.

O que é ser velho?

A Comissão Nacional Justiça e Paz recorre à mais recente classificação etária da Organização Mundial da Saúde (OMS), que apresenta uma nova abordagem à chamada Terceira Idade.

“Considera a fase dos 66 - 79 como ‘meia idade’, que os idosos são aqueles que se situam entre 80 e os 99, e os ‘idosos de longa vida’ são os que ultrapassam a meta dos 100 anos”, o que significa que a chamada “meia idade” é, afinal, “uma idade bem ativa”, mas que “tem sido ignorada”.

A CNJP lembra que “muitas pessoas desta idade continuam ativas”, por exemplo em atividades de voluntariado, muitas fazem “trabalho invisível”, através dos “cuidados que prestam a familiares”, mas a muitas outras “é negada a possibilidade de continuar a participar ativamente na sociedade”. Só que “ninguém pode ser desperdiçado”.

“Todos são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva”, refere a Nota, que considera “urgente” pensar e encontrar alternativas. “Já há conhecimento de experiências bem interessantes” e de “soluções mais humanizadas de combate ao isolamento”, numa perspetiva inter-geracional, como as que têm permitido “que jovens estudantes, a troco de alojamento, acompanhem os mais velhos, que assim permanecem na sua casa”, ou a “construção de unidades residenciais autónomas”.

“Os mais velhos são muito diversos e as políticas públicas têm que o contemplar”, desde a garantia de “um número suficiente de unidades de cuidados continuados e paliativos”, que garantam um final de vida digno, “a reformas/pensões suficientes e justas que permitam autonomia de vida”, ou ainda “a modelos concretos organizativos que possibilitem a sua participação ativa”, defende ainda a Comissão Nacional Justiça e Paz, concluindo que “é preciso pensar noutros termos, de forma a não excluir os mais velhos”, porque “são cidadãos de parte inteira como nós. Têm o direito a ter voz e a dizer-nos como querem viver os últimos anos da sua vida”, e “a eles devemos quem somos hoje”.

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