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Bispo de Portalegre-Castelo Branco. “Quem é que vai limpar as terras, se não há gente?”

27 jul, 2020 - 13:50 • Ângela Roque

O bispo de Portalegre-Castelo Branco alerta para o despovoamento do interior, que os fogos florestais continuam a agravar. À Renascença D. Antonino Dias diz que se fala muito, mas faz-se pouco para inverter a “inevitabilidade” dos incêndios. E acha que a justiça devia ser mais dura para com os incendiários.

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O bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Antonino Dias, acompanha com preocupação a situação dos incêndios florestais que voltaram a atingir vários concelhos da diocese, nomeadamente Oleiros e Proença a Nova. Em declarações à Renascença D. Antonino não esconde alguma desilusão pela falta de medidas concretas que evitem tragédias como as de 2017.

“Alguma coisa se fez, mas não o bastante. Sobretudo para que as coisas não aconteçam de outra forma”, lamenta o responsável da Igreja, que fala na angústia de quem ainda vive no interior, cada vez mais despovoado.

“As pessoas vivem aflitas e preocupadas. Há pouca gente, e os que estão são idosos. E se já somos poucos no interior, com estas coisas as pessoas desaparecem. Os jovens fogem, como qualquer um de nós fugiria. Isto provoca um empobrecimento e a fuga das pessoas”, refere.

Parao prelado, as câmaras municipais e as autarquias têm feito “o que podem”, mas D. Antonino considera urgente rever as estratégias de prevenção dos fogos, porque, por exemplo, exigir a quem não pode que limpe as matas, não é solução.

“Isso é muito bonito dizer, e é verdade que se devia limpar as terras, mas quem é que as vai limpar se não há gente, e se os que estão não podem, e são idosos? Às vezes nem as empresas são capazes de o fazer! Isto em teoria é muito bonito, é preciso obrigar, pôr multas… mas, multas a quem? Porque depois a limpeza é temporária, daqui a um mês está na mesma, e tem custos”, lamenta, insistindo que é preciso olhar para a realidade de quem vive nestas regiões. “Isto devia merecer um estudo aprofundado, para que as pessoas não tivessem a tentação de fugir para as cidades e para outros lados, e abandonarem estes terremos, porque é um prejuízo para o próprio país."

“Esta situação parece irreversível, mas às vezes também parece que não há reflexão suficiente sobre isso. E, mais do que reflexão, atitudes de compromisso: o que se pode fazer? Concretamente o que é que vamos fazer? Agora, o blá, blá, pode encher o ego de quem diz ‘ vamos fazer’, ou ‘temos de fazer’, mas depois se não se sai daí, de que adianta? Não estou a dizer que é fácil, mas merecia uma atenção maior”, sublinha.

Para além da mudança na estratégia de prevenção, D. Antonino Dias considera que a moldura penal para os incendiários também devia ser mais dura. “Em muitos incêndios dizem que há mão criminosa, isso então é que é o cúmulo da tragédia e da desgraça! Pessoas que não têm consciência, e quando os descobrem as leis são bastante benignas em relação a isso. Até nestes tempos de incêndios, se já há pessoas sinalizadas, que se sabe que fazem isso - ou podem fazer, porque já o fizeram antes - e se deixam em liberdade, acho que não são bons princípios”, refere.

“Nos meios pequenos tudo o que acontece a um, é como se fosse à família”

Este domingo o bispo de Portalegre e Castelo Branco enviou uma mensagem de condolências à família do bombeiro Diogo Dias, que morreu num acidente.

“Era um jovem na primavera da vida, os sonhos foram pelo ar. Era muito estimado, e ainda há pouco tempo tinha estado como voluntário na Guiné, em colaboração com os Padres do Preciosíssimo Sangue, que têm casa ali em Proença a Nova”, conta à Renascença, lamentando esta perda que atingiu toda a comunidade.

“É um sofrimento para as famílias, para a corporação de bombeiros e para toda a comunidade. Como são meios pequenos, tudo o que acontece a um, é como se fosse à família. Todos sofrem com as circunstâncias e com estas consequências”, afirma D. Antonino, indicando que acompanha estas comunidades com a proximidade possível: “Estou em contacto com párocos, vou telefonando, e apresentei condolências às famílias enlutadas. São sempre situações de angustia interior, perante as quais nos sentimos impotentes, mas não podemos deixar cair os braços. Temos de andar para a frente e lutar."

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