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IPO de Coimbra mais próximo de doentes com cancro através de "app" pioneira

23 jul, 2020 - 18:00 • Liliana Carona

E se uma aplicação para telemóvel permitisse acompanhar os doentes com cancro 24h? Chama-se ICOnnecta e não é um robot que fala do outro lado.

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Reportagem no IPO de Coimbra - Liliana Carona
Reportagem no IPO de Coimbra - Liliana Carona
Ouça aqui a reportagem da jornalista Liliana Carona

O IPO - Instituto Português de Oncologia de Coimbra quer acabar com o distanciamento físico dos doentes com cancro e já há uma aplicação para isso. Do lado de lá, não é uma máquina que responde. Através de uma aplicação móvel, "ICOnnecta", os doentes com cancro da mama, no primeiro ano de tratamento oncológico ativo, têm acesso a profissionais de saúde que vão acompanhar as suas necessidades, podendo realizar videoconferências com as equipas de Enfermagem e Psico-oncologia, assim como participar de forma anónima e segura numa comunidade virtual de doentes com cancro da mama.

O "Programa de Acompanhamento Online: suporte psicológico e educação para a saúde em doentes com cancro da mama" tem o apoio técnico no desenvolvimento da aplicação, do Instituto Pedro Nunes (IPN) e financiamento comunitário do EIT Health: Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia. Um programa inovador que visa dar resposta célere às necessidades psicossociais e promover a educação para a saúde.

O doente só precisa de ter telemóvel com acesso à internet e conta de email. “Vi que colocou os sintomas esta semana, como se sente, depois da nossa orientação?” questiona Helena Domingues, 40 anos, enfermeira da área da oncologia a trabalhar no Hospital de Dia, do IPO de Coimbra. A pergunta é direcionada para uma das mais de 50 utilizadoras da aplicação. Ana Oliveira, 45 anos, de Oliveira de Azeméis, educadora de infância, “com dois filhos, com 5 e 15 anos, um marido e uma cadela”, sorri. Vai na quarta sessão de tratamento a um carcinoma da mama triplo negativo. A aplicação surgiu em boa hora.

“A enfermeira Helena perguntou-me se estaria disponível e eu aceitei na hora, aliás devia ser disponibilizado a todos os doentes”, refere, enquanto se apressa a tirar o telemóvel da carteira para mostrar o funcionamento da aplicação. “Por um lado, podemos aceder à parte das mensagens onde contactamos a equipa que nos acompanha, que é composta por médicos, enfermeiros, psicólogos e depois temos uma segunda parte, a dos sintomas, onde fazem o controlo dos efeitos secundários que vamos sentindo, é bastante intuitivo, tem imagens”.

A título de exemplo refere: “dor na boca ou garganta que é um sintoma que tenho muito, carrego aqui nesta imagem e aparece uma parte explicativa, depois seguimos um questionário. Quando submeto, surgem os conselhos e além disso a equipa analisa e contactam-me, ligam-me para saber como estou e já me tem sido recomendada medicação à distância”, enaltece a doente do IPO de Coimbra.

O bem-estar psicológico também é assegurado, através da aplicação "ICOnnecta". “Recebemos também questionários da psicologia para avaliar o nosso bem-estar. Ninguém é preparado para ter esta doença e para gerir os efeitos secundários e é uma forma de não nos sentirmos tão sozinhos. Acho fantástico. Se fosse meramente a parte eletrónica, apesar de ser uma mais valia, não tinha a riqueza que tem de os profissionais nos ligarem. É uma mais valia e como o nome diz, acaba por nos conectar, é uma ferramenta muito importante para reduzir a ansiedade”, defende Ana Oliveira, em tratamento oncológico ativo, com telemóvel, acesso à internet e um endereço de email, condições para aderir ao projeto numa fase inicial.

A aplicação "permite diminuir distâncias"

Em termos psicológicos, Piedade Leão, 42 anos, psicóloga clínica do IPO de Coimbra fala em inovação e proximidade. “Do ponto de vista da psicologia, se eu tenho alguém de Castelo Branco, esta aplicação permite diminuir distâncias, através da vídeochamada na aplicação”, realça sem deixar de acrescentar como surgiu a oportunidade do projeto. “É um projeto que teve o seu pontapé de saída em Espanha, através do ICO - Instituto Catalão de Oncologia, que se candidatou a financiamento europeu e que reuniu parceiros em Portugal, com o Instituto Pedro Nunes ( que adaptou a aplicação e a tornou capaz de a usar em Portugal) e o IPO de Coimbra, além da Polónia, com um instituto de investigação”, conclui.

A videochamada é permitida na aplicação "ICOnnecta" às doentes com cancro da mama, das mais novas às mais velhas, garante Isabel Pazos, 56 anos, oncologista médica do Instituto Português de Oncologia de Coimbra, há 21 anos. “As doentes aderiram muitíssimo bem, até as pessoas idosas. Por mais estranho que pareça a doente mais ativa e a primeira a ser adicionada na aplicação foi uma doente com 74 anos. Estamos numa era digital. É uma forma de nós termos uma perceção real e a tempo e horas dos problemas e dúvidas e não apenas em consulta. Quando há algum sintoma que nos alerta, a nossa plataforma dá-nos um semáforo que passa para vermelho ou amarelo, consoante a gravidade e temos sempre alguém ligado na plataforma quer médicos, quer enfermeiros, e isso tranquiliza as doentes, evitando mais efeitos secundários. Pense que temos doentes a mais de 300 quilómetros, vir cá só para tirar dúvidas por exemplo de um sintoma, quando o podemos orientar à distância, sem ter necessidade de vir cá. Até ao fim do ano queremos chegar aos 100 doentes”, assume.

Atenta a uma espécie de semáforo na plataforma que deriva da aplicação, está a enfermeira do Hospital de Dia, do IPO de Coimbra, Helena Domingues, mas desabafa que “gostava de ter mais tempo para lidar com a aplicação, porque há muito trabalho, fazer estudos para perceber o impacto na qualidade de vida destes doentes, e sobretudo para dar resposta em tempo real”, sublinhando que os doentes podem inclusivamente anexar fotografias de medicação ou de um efeito secundário recorrente e à distância.

“Há uma grande discrepância no nosso país, a nível de apoios e de acessos a instituições de saúde. Temos doentes a três horas daqui e sentem-se abandonadas, e esta aplicação traz conforto, sabe que há uma resposta real em tempo real”.

Fátima Marques, técnica superior do gabinete de investigação e formação do IPO de Coimbra refere que tem havido uma grande aposta nesta área por parte do IPO de Coimbra, e “quando surgiu esta oportunidade de agarrar este projeto, achámos uma mais valia no sentido de prestar mais apoio aos nosso utentes e em termos de futuro, temos já a previsão da continuidade do projeto com mais doentes, onde os dados são estudados sempre em parceria com Espanha”, descreve.

A enfermeira da cirurgia Cristina Costeira, 36 anos, também envolvida no projeto, diz que a aplicação é uma ferramenta muito útil, principalmente em tempos de Covid-19. “As doentes terem de estar obrigadas a ficar em casa, com pouco contacto com outras pessoas e verificamos que a questão psicológica e social é o mais importante nesta aplicação, uma vez que me colocam muitas questões do quotidiano: ‘se posso comer isto, se posso fazer aquilo?’”, justifica.

A equipa envolvida na aplicação "ICOnnecta", do IPO de Coimbra, é composta por duas enfermeiras (Helena Domingues e Cristina Costeira); duas médicas (Isabel Pazos e Conceição Silva), uma psicóloga (Piedade Leão) e uma técnica superior na área da investigação (Fátima Marques).

Juntas procuram estar próximas das doentes com cancro da mama e a proximidade aumenta a cada clique. “Nem que seja para dizer ‘olá’ não hesite”, despede-se a enfermeira Helena Domingues, de Ana Oliveira, que termina mais uma sessão de quimioterapia, sem deixar de responder: “não é só um ‘olá’, é a forma como vocês dizem ‘olá’, aliás já vos disse isso na aplicação, vocês são excecionais”…

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