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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Portugal e o comboio

13 jul, 2020 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A crise social, económica e financeira provocada pela pandemia colocará dificuldades à modernização do caminho de ferro português. Mas esta também pode e deve ser um instrumento para enfrentarmos a crise.

Na semana passada, o Conselho Superior de Obras Públicas atribuiu prioridade máxima à construção de variantes à linha ferroviária do Norte, de modo a reduzir o tempo da viagem entre Lisboa e o Porto para cerca de duas horas. No sábado foi conhecida a versão preliminar do documento “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030”, elaborado pelo Prof. António Costa Silva, onde se propõe um comboio de alta velocidade entre as duas principais cidades portuguesas.

Parece consensual um tal comboio rápido, embora não um TGV, entre Lisboa e Porto. Já em 1988, no “Projeto Ferroviário Português de Alta Velocidade” (cancelado em 2012), se previa um comboio desse tipo. E várias outras previsões no mesmo sentido vieram a público. Só que, como infelizmente não é raro entre nós, nada se concretizou.

Ou melhor, fizeram-se obras caríssimas na via férrea da linha do Norte, para depois se descobrir que a excessiva proximidade entre carris não permitia atingir, em vários troços, a velocidade desejada. Uma perda enorme de dinheiro para nada. Mas sobre este escândalo muito pouco se falou.

Portugal foi tardio na introdução do caminho de ferro. No Reino Unido os comboios a vapor começaram a circular nos primeiros anos do séc. XIX, pois foi ali que nasceu a revolução industrial, com as máquinas a vapor. E boa parte dos países europeus seguiram os britânicos. Em Portugal a primeira linha ferroviária só abriu em 1865, de Lisboa ao Carregado. E logo na viagem inaugural ocorreu uma avaria no comboio especial que transportava até ao Carregado os mais ilustres convidados...

A expansão da rede ferroviária nacional continuou a ser lenta, devido sobretudo à dificuldade em encontrar financiamento a juro razoável. Nos anos recentes, a rede encurtou, com a supressão de várias linhas, alegadamente por falta de passageiros.

Com J. Sócrates como primeiro-ministro surgiu a hipótese de um TGV Lisboa-Madrid; mas cedo se tornou claro que a ideia não era financeiramente suportável. Sócrates virou-se então para as autoestradas, cuja construção o Partido Socialista criticava antes.

Assim, Portugal foi o único país da Europa onde, nas últimas décadas, a ferrovia perdeu passageiros. Embora o PS, quando Guterres era primeiro-ministro, falasse muito em dar prioridade ao caminho de ferro, o que se viu, sobretudo no segundo governo de Sócrates, foi um excesso de autoestradas, muitas delas vazias de trânsito, e a degradação do caminho de ferro, de passageiros e de carga.

Será que as coisas irão mudar? O primeiro governo de A. Costa pouco ou nada fez nesse sentido. Multiplicaram-se as declarações governamentais garantindo que quase tudo estava bem e o que não estava muito em breve seria remediado. Só que nada acontecia, o que indignava os passageiros que ficavam em terra ou tinham que esperar horas pelo comboio, sem lhes ser fornecida qualquer informação.

Com Pedro Nuno Santos na pasta das Infraestruturas as declarações sobre os problemas nos comboios tornaram-se mais sérias e credíveis. E a UE veio dar uma ajuda, ao atribuir 50 milhões de euros à modernização da linha Lisboa-Cascais, que se encontra em estado calamitoso.

Naturalmente que a crise social, económica e financeira provocada pela pandemia colocará dificuldades à modernização do caminho de ferro português. Mas essa modernização também pode e deve ser um instrumento para enfrentarmos a crise.

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  • Cidadao
    13 jul, 2020 Lisboa 10:15
    Há um plano, elaborado pelo paraministo Costa. Pode-se não concordar com algumas coisas, mas pelo menos há um plano, e um plano onde o setor ferroviário é abordado. Desde claro, que o plano não seja para desaparecer no fundo de uma gaveta e o País continuar a suspirar apenas e só, pelo regresso dos turistas a níveis pré-Covid...