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A (nova) vida num centro de apoio a deficientes. “O pior é não poder dar abracinhos"

07 jul, 2020 - 15:06 • Ana Rodrigues

A pandemia de Covid-19 obrigou Centros de Atividades Ocupacionais, como o da Ajuda, em Lisboa, a encerrar portas. Reabrem agora, mas há muito por fazer por estes jovens adultos com incapacidades. “Provocou um retrocesso das competências. Alguns dos jovens chegaram muito mais parados, mais fechados no seu mundo, mais gordos.”

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“Foi difícil. Houve conflitos na minha família, porque sou muito nervosa e discutíamos. Não conseguia ficar parada e fechada em casa o dia todo.”

O desabafo é de Inês Lopes, uma das utentes do Centro de Atividades Ocupacionais, a funcionar na Ajuda. Um centro que faz parte da APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) e que, tal como tantas outras instituições ligadas à deficiência, teve de encerrar devido à Covid-19.

Agora, depois de dois meses e meio de confinamento, as instituições que trabalham com crianças e jovens adultos com incapacidades voltaram a abrir portas.

Com regras apertadas de prevenção da Covid-19, utentes e funcionários tentam recuperar algumas capacidades perdidas destas pessoas. Umas com deficiências mais profundas que outras.

E se para a generalidade dos os portugueses o confinamento não foi fácil, para estas pessoas com diferentes incapacidades, o isolamento, segundo a técnica Natália Breia, “foi difícil porque provocou um retrocesso das competências”. “Alguns dos jovens chegaram muito mais parados, mais fechados no seu mundo, mais gordos.”

Para esta técnica, há agora “todo um trabalho a ser feito” para recuperar essas competências. “Mas para alguns dos utentes não vai ser fácil, já que a ausência da instituição e do contacto próximo com colegas e funcionários deixou marcas que estão agora a ser tratadas”, explica.

As marcas do confinamento nestes jovens adultos, com incapacidades intelectuais diferentes, requer, agora, segundo diz Natália Breia, “um trabalho mais individualizado, mais próximo, mas que é dificultado pelo uso obrigatório da máscara, tanto a utentes como a técnicos”. “A máscara funciona como uma barreira de comunicação, porque com estas pessoas as emoções, os sorrisos, são essenciais no trabalho que é feito”, admite esta técnica.

Neste centro ocupacional onde todos os dias costumavam estar 86 utentes, só cerca de metade regressou. Mas não falta a cor, risos e muita alegria no empenho das tarefas diárias, por todos os que ansiavam o regresso.

“O pior é não podermos dar abracinhos", confessa com tristeza Inês Lopes. Ela que adora abraçar e dar beijinhos, agora, devido às regras de prevenção de contágio, não o pode fazer. Nem ela nem tantos outros com deficiências profundas tão habituados ao contacto físico e às rotinas.

Faz-se o que se pode, com as limitações impostas pelas autoridades de saúde. Mas “muito se fez” também desde o dia 16 de março, dia em que o CAO da Ajuda teve de “encerrar as portas”, refere a diretora técnica deste Centro de Atividades Ocupacionais – um dos sete que pertencem à APPACDM e que engloba ainda cinco residências (que nunca fecharam), um centro de formação profissional e uma creche, além dos sete Centros de Atividades Ocupacionais.

Filomena Abraços refere que “durante o tempo em que a instituição esteve fechada, mesmo à distância os jovens não ficaram sem apoio – nem os utentes, nem as famílias”. “Começámos por telefonemas, depois passámos para o apoio psicológico através da internet, e as atividades académicas nunca pararam graças às tecnologias”, acrescenta.

Segundo esta responsável, o confinamento dos jovens com deficiências, uns mais profundas que outras, “não foi igual para todos”. “Umas famílias estavam melhor preparadas que outras para enfrentar a situação. E até mesmo as condições físicas dos diferentes lares contribuiu para certas consequências.”

Consequências que aos poucos, e com dedicação, técnicas e auxiliares, estão a tentar desde o início de junho resolver, para dotar estas pessoas com incapacidades intelectuais de ferramentas que as tornem cada vez mais autónomas.

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