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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Como assim o Senna morreu?

03 jul, 2020 • Opinião de Henrique Raposo


Ayrton não era inconsciente, era corajoso. Ele sentia medo como todos os outros, só que tinha um compromisso visceral e, sim, quase religioso com a ética do desporto em causa e, por isso, esticava o limite mais do que os outros.

Num zapping para entreter o cansaço da prisão domiciliária ainda em curso, encontrei um documentário sobre a vida de Ayrton Senna, “Senna”. Comovi-me. Voltei à meninice num segundo. Nesta coisa das viagens no tempo, poucas coisas são mais poderosas do que Senna e a F1, religião mecânica que deixei de seguir no dia em que ele morreu, 1 de Maio de 1994, embora ainda sinta pele de galinha quando, por acaso, oiço o trovão dos motores numa transmissão de tv apanhada por acaso num café. Como assim o Senna morreu?

Comovi-me, porque apanhei o filme precisamente no momento da sua morte, a curva Tamburello de Imola. Como assim o Senna está morto? E voltei a comover-me ao longo do filme, que puxei para o início na box. Não me lembrava da fé dele. Não admira: a minha meninice foi pagã, aquela fé era para mim um exotismo brasileiro. Agora, aos 41 e convertido, comovi-me com a sinceridade religiosa de um dos meus heróis, um dos meus reis. Eu tento escrever como o Senna guiava, pai, 'tá a ver ou não?

Senna tinha liberdade religiosa do americano; ao contrário do europeu, o americano, seja ele dos EUA ou do Brasil, não se sente ridículo quando expressa em público a sua fé. E reparem que a religiosidade não era apenas uma questão discursiva. A fé tinha uma aplicação prática. Parte da sua grandeza enquanto herói das pistas, algo aparentemente pagão, nascia na sua fé cristã. Se não podemos desligar a beleza dos livros de Flannery O'Connor ou Graham Greene da sua fé religiosa, o mesmo pode ser dito sobre a beleza das trajectórias de Senna. Como assim 'tá morto?

Às tantas, no filme, o seu primeiro arqui-rival, Alain Prost, começa a justificar a sua inferioridade com o alegado fanatismo religioso do brasileiro. O problema de Ayrton, diz Prost, é que ele não tem medo de morrer, julga-se imortal, acredita em Deus e nessas coisas! O cinismo de Prost não podia ser mais francês e moderninho. Ora, Ayrton não era inconsciente, era corajoso. Ele sentia medo como todos os outros, só que tinha um compromisso visceral e, sim, quase religioso com a ética do desporto em causa e, por isso, esticava o limite mais do que os outros. Ele tinha um compromisso com a verdade deste jogo, com a verdade de cada pista, isto é, a melhor trajectória geométrica traçada nos limites da física. A sua fé não se vê na alegada ausência de medo da morte, mas sim nesta constante busca da perfeição, na luta contra o relógio, na procura da geometria, na procura de um estado de consciência tão perfeito que se torna inconsciente, uma segunda natureza, um conhecimento intuitivo da física. Ayrton tornava belas as leis de Newton.

Ayrton era melhor do que Prost, porque o francês era um homem exclusivamente terreno, um homem político que fazia o que era preciso para vencer os homens que o rodeavam. Não olhava para cima, só para o lado. Ayrton não queria saber dos homens que o rodeavam, ele corria literalmente sozinho, contra o tempo, contra o relógio, contra o clima, contra a chuva. O seu adversário era Éolo, não os outros pilotos. Olhava para cima, não para o lado. Com ou sem Prost, com ou sem Lauda, Mansel ou Schumacher, ela procurava a verdade da pista. A energia que emanava de Ayrton, um pulsão que eu sentia em casa numa tv cheia de grão e desfocada, era ele e Deus. Mas como assim ele morreu?

Comentários
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  • Liberal de Bancada
    09 jul, 2020 12:12
    Pois é. E o mais engraçado é que o tocado pela graça de Deus divorciou-se da mulher para se concentrar na carreira, enquanto o moderninho era casado e pai de filhos. Até parece que Deus escreve direito por linhas tortas.
  • João Lopes
    04 jul, 2020 15:11
    Boa reportagem, sobre o percurso de um, ou mesmo o melhor piloto de todos os tempos.
  • João Lopes
    04 jul, 2020 10:44
    Artigo interessante!
  • Vera Costa
    03 jul, 2020 21:32
    Olá, eu também gosto de Fórmula 1; mas também perdi o entusiasmo destas corridas, desde que o Ayrton se foi e que Schumacher deixou de ser quem era! tenho muita pena dele!! são pessoas de que nos habituamos e sem eles o desporto perde o entusiasmo! Quanto a Prost, quando pessoas como ele, ignoram Deus, os outros todos que acreditam, têm defeitos! Em qualquer desporto há perigo! até o outro que de momento não me lembro do nome, morreu na bicicleta! o ciclismo também perdeu o brilho que tinha! Gosto de ver competições de cavalos! vê-los saltar as barras, são elegantíssimos, mas também pode ser perigoso! Gosto de ginástica, nem sempre o triplo salto sai bem, podemos voar mais alto do que desejávamos e nunca se saltou na ginástica de capacete, que eu saiba! O Schumacher podia ter levado o capacete para as montanhas, mas como "quem adivinha vai para a casinha", aconteceu... Outros morrem no palco de guitarra na mão, como o Elvis Presley! dizem que foi de cansaço, o coração falhou! Como diz o DR. António Lobo Antunes: "Às vezes o coração tropeça em si próprio"! O perigo está sempre à espreita. Não falei no surf, nem voar em Asa Delta, também sou para lá virada, mas o único desporto que serviu para mim, foi a ginástica! Deus não quis que eu fosse mais longe. Bom fim de semana, Henrique Raposo.
  • Joao Barbosa
    03 jul, 2020 21:31
    Senna corajoso? Sem noção do perigo, isso si, pois se fosse alguém consciente, não conduziria perto do limite, numa máquina que nunca se empenhou para conhecer e evoluir. Piquet.. sim, Nelson Piquet o melhor piloto, claríssimo, e digo porquê: 1) onde se vê quem era mesmo piloto era na época de Piquet.. e digo isso, porque nesses tempos não havia electrónica, etc. 2) o Piquet foi campeão em equipas que não tinha o melhor carro, ao contrário do Senna, que sempre precisou de estar nas equipas com o melhor carro. 3) em 1994, Senna decidiu ir para a Williams porque em 1993 era a melhor equipa, mas teve o azar na alteração dos automatismos do carro, e o Senna não tinha capacidade de evoluir o carro 4) em campeonatos com carros identicos(o Senna até tinha poles nessas corridas), o Piquet sempre levou a melhor. 5) o Piquet nunca precisou de atirar os rivais para fora da pista para ser campeão Isto são factos, e não propaganda barata. https://youtu.be/3u8zzgw4d8c Depois foi a box, na 1a tentativa, senna empurra para a parte suja da pista, mas na segunda, ultrapassa por fora, apesar de Senna tentar empurrar para que piquet saia com o pneu fora de pista, piquet ultrapassa fazendo rally na curva.  https://youtu.be/ycKHCz-dkrQ No Btazil: https://youtu.be/m6hNvjxfSgs Outra: https://youtu.be/DBS-XD5kklY Mas veja este vídeo onde ele diz umas verdades sobre o senna, e aonde ele mostra o que ele tinha e mais nenhum outro piloto teve: https://youtu.be/8dWYs9HK29g
  • Rocha Neto
    03 jul, 2020 Londres 13:19
    Peça brilhante, parabéns Henrique Raposo!