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Pandemia de ​Covid-19

Voluntariado missionário. “O que nos custa mais é estar longe das pessoas”

30 jun, 2020 - 18:57 • Ângela Roque

Leigos para o Desenvolvimento não sabem quando poderão retomar os projetos que interromperam em março, altura em que repatriaram 10 voluntários de Angola e São Tomé e Príncipe, por causa da pandemia. Esperam que os novos missionários possam partir no Outono.

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Que efeitos teve a pandemia nos projetos de voluntariado missionário? Foi o que tentámos saber junto dos Leigos para o Desenvolvimento. Há mais de 30 anos que esta ONGD católica, ligada aos jesuítas, forma voluntários para missões de longa duração em África, tendo em vista a capacitação e autonomização de pessoas e comunidades.

Em março a crise sanitária obrigou a suspender a maioria dos projetos que tinham em Angola e São Tomé e Príncipe, e a repatriar quem estava no terreno. Só a missão que têm em Portugal, na Caparica-Pragal, se manteve, embora com adaptações.

Em entrevista à Renascença, Carmo Fernandes, diretora executiva dos Leigos para o Desenvolvimento, fala das dificuldades que estão a enfrentar, e que vão obrigar a rever as estratégias de atuação para o futuro. Ainda não sabe quando poderão retomar os projetos no exterior, mas tem a expetativa de que em setembro/outubro os novos voluntários já possam partir.

A pandemia alterou muito o trabalho dos Leigos para o Desenvolvimento, em termos de missões no terreno? Tiveram de adiar ou suspender muita coisa?

Temos duas realidades: a realidade da missão que temos em Portugal e a das missões que temos em África, nomeadamente em Angola e em São Tomé e Príncipe. Nessas fizemos uma interrupção em março, porque tivemos de fazer o repatriamento dos voluntários para Portugal, e temos estado com as missões na maioria dos projetos paradas. Há um ou outro projeto que tem conseguido manter alguma atividade, mas de uma forma muito reduzida.

Quantos missionários é que tiveram de regressar?

10 ao todo, três de Angola e sete de São Tomé, sendo que em São Tomé temos duas missões, portanto são três missões que estão neste momento nessa situação.

Em Portugal mantêm a missão no Pragal?

Exatamente, a apanhar as freguesias do Monte de Caparica e do Pragal. Neste caso a missão nunca parou. Em março, nas primeiras semanas, ficámos em regime de teletrabalho, mas logo a seguir à Páscoa começámos a fazer trabalho com a comunidade e as instituições locais, não mantendo o trabalho que tínhamos, mas mais de emergência, atendendo às novas necessidades que a pandemia foi provocando. Começámos a perceber que havia respostas com dificuldade em manter-se, como a distribuição alimentar, que ficou comprometida porque quem a fazia eram fundamentalmente voluntários locais já com alguma idade.

Tentámos compensar alguns destes vazios, em articulação com as instituições. O Grupo Comunitário, por exemplo, manteve as reuniões digitais, online, para perceber que necessidades iam surgindo na comunidade da Caparica - Pragal, de forma a que nós fôssemos ajustando a nossa capacidade de resposta à realidade nova que a pandemia trouxe. Portanto, foi muito diferente a realidade vivida cá em Portugal da realidade de África.

Como os voluntários que voltaram interromperam a missão, mas continuavam com disponibilidade e na expectativa de regressar, tivemos a ver com eles como tornar este tempo útil e ao serviço, estando em Portugal e com necessidades identificadas, e foram colaborar com outras instituições. Uns estão no Algarve, outros no Alentejo, e outros na Idanha, próximo de Belas, a ajudar instituições de idosos e pessoas com deficiência.

E qual é a prespetiva neste momento para a continuidade das missões?

Estamos a gerir duas etapas diferentes: uma é ainda o regresso dos que interromperam a missão, temos a expectativa dos voluntários poderem regressar, e estamos neste momento a ver se será possível que isso aconteça em agosto. Temos estado a acompanhar a maneira como a pandemia é vivida em Angola e São Tomé, durante o mês de julho vão começar a existir voos, ainda não sabemos exatamente os moldes em que as pessoas poderão viajar, que acordos se vão estabelecer entre Portugal e Angola, e Portugal e São Tomé. Mas, se as condições forem favoráveis eles ainda irão regressar, não todos, mas a maioria, e poderão ficar até dezembro. Fizemos aqui um ajuste, o calendário normal da missão seria terminar em setembro, mas com este hiato que aconteceu, poderão ficar até dezembro.

Paralelamente estamos a preparar as partidas dos novos voluntários. Estão estimadas para setembro, outubro, se a pandemia permitir…

Em termos de funcionamento da própria instituição ‘Leigos para o Desenvolvimento’, também houve dificuldades?

Sim. Em relação às pessoas que trabalham aqui na retaguarda, a diferença principal foi passarmos a trabalhar em casa, em teletrabalho. Organizámo-nos de maneira diferente, mas mantivemos todos a nossa atividade e surgiu muito trabalho extra: tivemos de gerir os processos de repatriamento e de integração dos voluntários cá em Portugal, para não ficarem aqui um tempo demasiado prolongado à espera, sem nada.

Tivemos de ir construindo os cenários todos para, daqui em diante, gerir todos os processos de financiamento em curso, porque há projetos que têm financiamento e, sendo interrompidos, isso obriga a fazer todos estes processos de reprogramação.

As nossas atividades de angariação de fundos também sofreram impacto, algumas não tiveram condições para ser realizadas, porque tinham uma dimensão presencial, tiveram de ser canceladas. Estamo-nos a adaptar para fazer mais atividades no contexto virtual. A própria formação dos voluntários também sofreu alterações, deixou de ser presencial e mantivemos durante um período sessões online. As próprias atividades de angariação de fundos, organizadas pelos formandos, também foram convertidas. Portanto, tem sido um tempo intenso para ir encontrando alternativas, mas o que eu diria que é o mais exigente é não termos nas nossas mãos o controlo de quando podemos efetivamente recomeçar.

Relativamente aos que foram formados para partir em setembro, outubro, quantos são?

São muito poucos. Houve alguma redução no número de voluntários, que ainda não terminaram a formação, ainda estão em processo, e só temos seis pessoas neste momento disponíveis para partir.

É um dos problemas que estamos a ver se a pandemia também o provocou, de alguma forma, mas não só, porque já estávamos numa fase em que não tínhamos muitos voluntários. Estamos a contactar os nossos ex-voluntários, para perceber se conseguimos reforçar o grupo de pessoas para partir, porque temos aqueles que vão regressar, alguns que vão renovar e os que estão em caminhada nova, mas todos juntos não seriam suficientes para o que gostaríamos de poder manter.

Habitualmente as vossas missões de longa duração são por um ano, ou mais.

Sim, tempo mínimo de um ano. Quem parte em setembro fica normalmente até setembro do ano seguinte.

Vai sendo cada vez mais difícil ter pessoas que se consigam disponibilizar para um compromisso que ainda é expressivo, porque têm o tempo de formação antes e depois o tempo do terreno de um ano, é exigente. Com a pandemia e a incerteza que ela cria é possível que também possam existir algumas pessoas que ficam mais receosas em assumir esse compromisso.

Para quem usufrui do vosso trabalho no terreno esta é uma situação muito ingrata. Há projetos que estão parados?

Sim, e isso é o que nos custa mais, estar ao longe. São realidades em que a comunicação não é fácil, os impactos sociais que se estão a viver nesses países também vão sendo expressivos. Temos noção de que quando chegarmos não vamos encontrar a mesma realidade que deixámos, quando regressarmos vamos ter um tempo para perceber o que é que é de retomar exatamente no ponto em que deixámos, e aquilo que é de reprogramar, ou atender a outras necessidades que possam estar a surgir por causa da pandemia. Neste momento essa é uma das coisas que nos está a custar bastante, é estarmos longe, não estarmos a conseguir acompanhar as pessoas nem estar com elas a enfrentar esta crise.

Isto condiciona a vossa estratégia para o futuro?

Este é um tempo muito difícil porque tanto nos obriga a pensar no imediato e a tomar medidas de emergência, como nos obriga a olhar estrategicamente para o futuro. É pensar: o que é que a pandemia nos está a ensinar? O que é que estamos a aprender com esta realidade?

Já trazíamos algumas reflexões de trás, antes da pandemia, mas agora sentimos que esta situação nos faz pensar em perspetivas novas: o que é que podemos fazer de maneira diferente para preparar para situações destas, a questão dos voluntários. Estamos a pensar em que medida a formação também pode ter alguma complementaridade com a dimensão digital, e isso até amplia a possibilidade de chegar a pessoas que de outra maneira não têm forma de fazer formação connosco, porque só temos núcleos no Porto, em Lisboa e em Coimbra.

Há muitas coisas que a pandemia nos faz pensar, porque somos obrigados a isso, mas se calhar também podemos olhar para o futuro com perspetivas novas, fruto desta realidade atual. O que estamos a imaginar é que o próximo ano, além de continuarmos a viver a incerteza que a pandemia nos oferece, vamos também estar em processo de reflexão estratégica para futuro.

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