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Entrevista Covid-19

Filipe Froes: “É impossível um cerco sanitário a Lisboa”

23 jun, 2020 - 16:31 • João Carlos Malta

Em entrevista à Renascença, o pneumologista analisa as novas medidas para a Área Metropolitana de Lisboa e defende que deveriam ter uma maior abrangência geográfica. Está contra a hipótese de "fechar" a capital e a zona envolvente, e critica a falta de coerência no discurso público, facto que gera insegurança.

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O pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos, que ainda acumula ainda os cargos de consultor da Direção-Geral de Saúde e da Liga de Clubes, Filipe Froes, diz que as medidas anunciadas na segunda-feira pelo Governo são o reconhecimento de um problema que existe. E isso é importante.

Filipe Froes não acha que sejam suficientes em termos geográficos, mas não defende um cerco sanitário na região de Lisboa. “Não se justifica porque isso é voltar tudo para trás, até março”, resume. O especialista defende a ideia com o argumento de que fechar Lisboa levaria a que todo o país fosse arrastado, devido à dependência que tem da capital.

O médico explica a ênfase dada à questão da ingestão das bebidas alcoólicas e critica os que dão uma sensação de “falsa segurança da situação em Portugal”, ao dizerem que a situação está melhor do que em outros países porque por aqui se testa mais. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa, usaram esse argumento.

A ideia de um novo confinamento geral é, para este especialista, a última das ideias, porque seria sinónimo de um falhanço nacional.

Qual a opinião que tem a cerca das medidas dadas a conhecer pelo Governo no início desta semana?

Provam e documentam que há um problema, e a consciencialização de que há um problema é fundamental para nós termos a noção de existe, a obrigatoriedade de caracterizar melhor essa situação e tomar as medidas adequadas.

São as suficientes para fazer face à crise em Lisboa?

Aplicar medidas em algumas freguesias, mesmo que sejam freguesias grandes, numa área tão grande e extensa como Lisboa pode permitir que as pessoas não o façam nessas zonas e o vão fazer noutras freguesias onde não há essas medidas. Vivemos num mundo de grande mobilidade e temos de ter a noção que proibir um determinado conjunto de ruas e de bairros não impede que as pessoas se desloquem e façam o que tinha a fazer noutras zonas.

Daí a meu ver a importância do conhecimento e de explicar às pessoas, que o mais importante é fazê-las perceber que não é só a saúde delas que está em risco − embora elas achem que podem não estar em risco − mas é o impacto nelas e sobretudo em todos nós dessas medidas. Mesmo tendo formas ligeiras da doença, só sabemos quem vai ter formas graves no fim.

Refere-se aos jovens…

Sabemos neste momento que há pessoas jovens que têm formas graves de doença. Estas pessoas podem ser veículos de transmissão a grupos populacionais de maior risco e com maior impacto. A perpetuação e transmissão a grupos etários de maior risco e maior impacto continua a pôr em grande tensão o Serviço Nacional de Saúde, impedindo o tratamento de pessoas com doenças não Covid e impedindo do ponto de vista económico uma retoma mais ampla.

"Numa área tão grande e extensa como Lisboa pode permitir que as pessoas não o façam nessas zonas e o vão fazer noutras freguesias onde não há essas medidas"

Falou da mobilidade e da possibilidade que as pessoas têm de fazer, em outras zonas, o que não é permitido na sua área de residência. Mas então defende que estas medidas não deviam ser aplicadas ou que a lógica de abrangência teria de ser mais alargada?

Provavelmente mais alargada. A meu ver passariam por uma maior capacidade de clarificar, explicar ou envolver as pessoas. Não podemos pôr tudo parado. A melhor maneira de se cumprirem medidas que podem interferir na vida das pessoas e dos outros, é explicar as consequências das suas ações, é perder tempo a fazer aquilo que os profissionais de saúde e os médicos fazem nas suas consultas. É ensinar ao doente e explicar porque é que há determinados comportamentos de risco que podem ser maus quer para os próprios, quer para os outros. E motivá-los e envolvê-los na gestão do seu risco. Se tivermos uma atitude punitiva com os limites geográficos, eles continuarão a fazer o que querem fazer noutras zonas. E nós não podemos progressivamente ir fechando zona a zona.

Justificar-se-ia um cerco sanitário à região de Lisboa?

É impossível um cerco sanitário a Lisboa. É um terço da população de Portugal. Não é possível, não é exequível um cerco sanitário. Tinha que se voltar a ter um confinamento quase a nível nacional, não se justifica nem é possível. Não se justifica porque isso é voltar tudo para trás, até março. Não há neste momento capacidade de resistência económica para um regresso tão grande ao confinamento.

Então o que se deve fazer?

A solução a meu ver passa por várias medidas em que tem de haver um grande envolvimento, uma grande explicação às pessoas para que elas percebam que aquilo que fazem não é só para elas, é para todos.

Tem de haver uma melhor caracterização dos indicadores dos marcadores epidemiológicos locais, regionais e nacionais. Tem que haver uma aceleração do processo de suspeição e diagnóstico e notificação, um alargamento da capacidade de rastreio de contatos. Isso significa que as equipas de saúde pública têm de estar muito melhor equipadas para fazer isso em termos de recursos técnicos e humano.

Temos de ter uma capacidade de resposta laboratorial muito mais célere. Temos de ter com a identificação de respostas especificas, identificar medidas de apoio social para proteger os que são mais desfavorecidos, e que precisam de ter mobilidade, precisam de ir trabalhar, porque não têm condições de sobrevivência e nós temos por uma questão de inteligência e de altruísmo ajudá-los para que eles nos ajudem.

E em algumas zonas críticas, temos de desenvolver as estruturas comunitárias locais que melhor conhecem o terreno.

Porque se dá uma tão grande ênfase às bebidas alcoólicas nas medidas agora anunciadas?

As pessoas ao beberem bebidas alcoólicas fazem-no muitas vezes em espaço público, não respeitam as regras do ajuntamento das pessoas, e além de não as respeitarem, para beberem as bebidas alcoólicas tiram a máscara. Vão violar princípios como locais com muita gente e locais onde há uso de não máscara. E muitas vezes de partilha de copos. O beber bebidas alcoólicas nestes grupos é: tirar a máscara, estar com os amigos, partilhar copos.

É um facto enorme de transição da doença por diferentes vias, não só pela respiração, mas muitas vezes pela partilha de líquidos orgânicos pelos copos e gargalos. E o beber muito provoca um maior relaxe, é uma combinação extremamente propiciadora de risco de transmissão.

" O beber bebidas alcoólicas nestes grupos é: tirar a máscara, estar com os amigos, partilhar copos (...)E o beber muito provoca um maior relaxe, é uma combinação extremamente propiciadora de risco de transmissão. "

Pelo que percebi é contra a punição com multas dos comportamentos agora proibidos...

Percebo que possa fazer parte do pacote de medidas em que o esclarecimento, a formação e a informação são essenciais. Não podem ser a medida mais importante. Temos de explicar às pessoas o que precisam de fazer...

Mas quando temos festas, espalhadas pelo país, com 200, 300 e 1000 pessoas, elas não sabem ou não há informação de que o que estão a fazer é incorreto?

Não tenho bem essa noção. Acho que a falta de coerência entre algumas medidas, motiva a menor adesão a determinadas regras. Quando nós, por exemplo, damos uma falsa segurança da situação em Portugal, dizendo que a nossa situação está bem e que se há mais casos é porque testamos mais, criamos a ideia de que nos outros países a situação é temível, mas eles é que testam menos.

Neste momento sabemos, e isso está documentado, que há pelo menos seis países da União Europeia que testam mais do que nós e detetam menos do que nós. E quando insistimos neste discurso de que está tudo bem, nós é que testamos mais, estamos a dar uma falsa sensação de segurança de que afinal a situação que se vive em Portugal é tão boa, igual ou melhor do que lá fora, e que as medidas já não são precisas de implementar.

Há que haver coerência entre tudo o que se diz e tudo o que faz. Tem de se jogar com antecipação. Se é previsível que haja ajuntamentos e agrupamentos devemos insistir de forma consistente neste discurso de que de vocês também estão em risco, e vocês podem propagar o risco a outras pessoas.

Eu acredito que a maior parte das pessoas − eu lido com centena de jovens na minha consulta e se eu lhes explicar − muitas vezes reparo de que eles desde que percebam, desde que haja coerência, cumprem. É evidente que poderá haver um ou outro caso em que de uma forma reiterada isso não é cumprido. A responsabilização baseia-se na lei existente, agora aplicar a punição sem esclarecer, sem dar o exemplo e sem ser coerente parece-me desadequado. É pôr a penalização antes da clarificação.

Não se estão a dar sinais contraditórios socialmente quando se festeja com pompa e circunstância a vinda da Liga do Campeões para Lisboa e depois se colocam estas restrições à vida das pessoas. Não corremos o risco de as pessoas não valorizarem a mensagem?

Todas as mensagens que nós damos têm de ser coerentes entre elas. Coerentes entre as medidas que se pretendem aplicar, coerentes entre elas em termos de aplicabilidade dos princípios de saúde pública e muitas vezes o discurso não tem essa coerência. Essa falta de coerência é um fator muito importante para a falta de clareza e de desmotivação e de falta de envolvimento das pessoas que têm de interpretar e interagir com essas medidas. Há um conjunto vasto de medidas que muitas vezes são contraditórias, temos de procurar ter um discurso claro, transparente e totalmente coerente.

Mas é ou não incoerente?
Nós temos a retoma da liga profissional em Portugal, e esse é um exemplo de segurança, responsabilidade e comprimento de regras. A vinda da Liga dos Campeões se enquadrada no respeito estrito dos regulamentos da Direção-Geral da Saúde, pode ser mais um exemplo de que é possível organizar eventos desta dimensão, respeitando as normas de saúde pública necessárias, e respeitando a saúde dos intervenientes. E não contribuindo para a transmissão da doença na comunidade.

"Há um conjunto vasto de medidas que muitas vezes são contraditórias, temos de procurar ter um discurso claro, transparente e totalmente coerente"

A retoma da Liga tem sido a meu ver um exemplo de segurança, responsabilidade e cidadania. Criou-se uma bolha de segurança para todos os intervenientes que são regularmente testados. Há um código de conduta e um código de comportamento que respeita em absoluto tudo o que é necessário para que não haja risco de infeção. Estes jogadores e estas pessoas ao serem testados 24 horas percebe-se que não há casos positivos. A retoma fez perceber que se pode fazer tudo, adaptado às normas e aos regulamentos e isso pode servir de exemplo para nós.

Mas se queremos fazer aquilo que fazíamos antigamente é um mau exemplo.

Acha que há risco que com as comparações internacionais se façam menos testes em Portugal para que não apresentemos tantos casos?

Seria uma estratégia pouco eficaz porque se num dia não detetarmos os casos com os testes, eles irão aparecer à mesma, e, muitas vezes, na sua expressão de maior gravidade em termos de internamento e de unidade de cuidados intensivos.

Ao não fazermos mais testes estaremos a fazer um mau serviço á população, e ao controlo e combate da pandemia. Fazemos mais testes porque temos necessidade de fazer rastreiros de contatos, temos muitos casos suspeitos e pretendemos controlar a situação. Os outros países que fazem mais testes, e encontram menos casos, é porque têm a situação mais controlada. E o que pretendemos é o controlo da situação.

O controlo da situação necessita de mais testes. Não o fazer, pode-nos resolver o problema nos minutos iniciais, mas em termos práticos tem consequências muito mais nefastas, muito mais negativas a curto e médio prazo do que continuarmos o controlo da situação pela via adequada, que é o conhecimento e pela atuação fundamentada do que é preciso fazer.

O que é que justifica que a pandemia esteja quase controlada no resto do país e Lisboa e Vale do tejo estejam na atual situação?

Em Lisboa temos uma muito maior densidade populacional, temos zonas onde a origem da população e as desigualdades sociais são mais evidentes e notórias, provavelmente do que no resto do país.

"O confinamento deve ser a última solução, a derradeira solução, e significará, a meu ver, uma coisa tristíssima, que foi a de que falhámos"

Até do que do Porto?

Exatamente. Temos zonas em Lisboa em que as desigualdades sociais, o desenraizamento, a precariedade e a pobreza é superior do que noutras zonas do país. Se associarmos a isso a elevada dimensão da Área Metropolitana de Lisboa (AML), a elevada densidade populacional e a grande mobilidade existente. Temos múltiplas centralidades na AML, e há uma necessidade de uma grande deslocação. Em termos de pessoas, de grupos de risco, e de transmissão da doença temos diferenças especificas em relação a Lisboa e a outras zonas do país.

Há um número a partir do qual o confinamento é de novo uma possibilidade? E esse número é o de infetados ou o de internamentos e internamentos em cuidados intensivos?

Não há um número, há um conjunto de números, e uma tendência repetida e crescente que de uma forma repetida nos alerta para essa situação e sobretudo sobre quando é que ela terá de ser equacionada. E isso será quando todas as outras medidas anteriores se revelarem ineficazes e estiverem esgotadas. Mas se fizermos o confinamento numa zona tão grande como a AML, temos de pensar que temos de voltar a confinar o país.

Mas porque é que diz que confinar Lisboa obriga a confinar o país?

Porque a dependência de grande parte do país a Lisboa é muito grande, em termos de prestação de serviços, em termos de localização de grandes distribuidores. Será muito difícil ter a zona de Lisboa confinada e o restante país a viver em normalidade. E provavelmente com a mobilidade que há rapidamente o que se passa em Lisboa, passa para as outras comunidades.

O confinamento deve ser a última solução, a derradeira solução, e significará, a meu ver, uma coisa tristíssima, que foi a de que falhámos. E quando falhamos, não é um ou dois, falhamos todos. Temos de ter noção que ao voltar para trás, nós como povo, sociedade e país falhámos coletivamente. Não é Lisboa que falhou, não é o bairro X, Y ou Z que falhou.

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  • Profeta
    24 jun, 2020 13:03
    O que se terá passado em Lisboa durante o mês de Maio, que terá feito disparar os contágios? Se a festa no sul do país com uma centena de pessoas deu o resultado que deu, porque achamos que os ajuntamentos com milhares de pessoas em Lisboa não terão dado resultados semelhantes? É o facto de os ajuntamentos serem autorizados que os torna imunes?