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Postal de Quarentena - Rio de Janeiro

“Somos olhares assustados, vendo ameaças no que não se vê”

15 jun, 2020 - 06:20 • Henrique M. Eisenberg*

O Brasil é atualmente o segundo país do mundo com mais casos e com mais mortes por Covid-19, depois dos Estados Unidos. Já conta mais de 46 mil mortes.

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Vivo num bairro do Rio de Janeiro, a Gávea, onde ainda podem ser encontradas ruas calmas, vazias, que margeiam a mata, onde posso escutar o chamado de tucanos, os cantos de sabiás e de outros pássaros, e os assobios agudos dos micos. De certo modo converso com todos eles. Estou eu há mais de 80 dias em quarentena. Posso até imaginar que eles me respondem ao reafirmar sua liberdade, sua vida que não mudou nada nestes dias, sem entender por que mudanças ocorreram naquilo que eles estavam acostumados a presenciar todos os dias.

Nós, mascarados, evitando ficar perto de outros, principalmente dos mais desleixados que não tomam os cuidados devidos, não nos vemos mais enquanto sorrisos, enquanto semblantes. Somos olhares às vezes assustados, somos seres apressados, vendo ameaças no que não se vê, o que é paradoxal.

Sou médico e filósofo e posso dizer que as oportunidades de introspecção aumentaram muito. O pensamento divaga e ao caminhar por ruas quase vazias, frequentemente acompanhado por meu filho, aprofundo questões da vida e da morte, da perplexidade e da resignação, da alegria à consternação com as tragédias que assolam nosso cotidiano. São mais do que opostos, são antinomias. São questionamentos, talvez melhor vistos como posturas, já que de tão constantes, sem respostas. Nenhuma resposta.

Todas as noites eu e minha esposa conversamos com nossa filha que mora em São Paulo com seu marido. A saudade é grande.

Eu, enquanto médico, estou em casa por ser de grupo de risco, mas acompanho avidamente nos grupos de internet a angústia e a coragem dos colegas que estão na linha de frente. Os artigos científicos se sucedem: são vários ao dia, impossíveis de serem lidos todos. A sucessão dos infortúnios relatados e vividos é inominável. O Brasil está passando por problemas demasiadamente sérios na condução da pandemia. Não vou me deter neste ponto, já que os jornais informam diariamente o estupor causado pelas más políticas adotadas.

Enquanto filósofo, se é que posso me chamar assim, fica premente essa dualidade, que se não é cartesiana (corpo/mente) pelo menos faz com que a reflexão sobre a fragilidade do corpo emerja e tome conta do cotidiano. Vida e morte. Saúde e doença. Visível e invisível. Respirar bem e respirar com aparelhos. Tubos, oxigênio, a vida que corria tão fácil (mesmo que fosse difícil), a antiga proximidade das pessoas, a atual distância do mundo lá fora, bem lá fora. A obsessão de lavar tudo. As mãos, que antes somente tinham cinco dedos cada, agora são garras que ameaçam constantemente essa tênue balança que brinca e joga com meu dia de amanhã.

Como estarei amanhã? Daqui a duas semanas? Como posso avaliar o tempo se o futuro passou a ser, mais do que nunca, uma interrogação cotidiana? Volto-me a meu âmago, onde o aconchego de tantas dúvidas repousa tranquilamente na cadeira em que estou, no sofá que vejo frente a mim, na música que ouço, no meu universo que teria tudo para ter encolhido, mas que se revelou um lar, na janela que me faz descortinar o outro lado: o exterior, onde tantas outras pessoas como eu também refletem sua solidão compartilhada, seus questionamentos, seus medos, suas vidas transformadas de repente, no ritmo frenético que se quebrou e forçou a todos um olhar para si.

Uma simples brisa, antes ignorada, agora passou a existir e a me banhar de graça, como a me consolar e a me apontar humildemente caminhos que antes jamais poderia ter pensado trilhar. Procuro e acho dentro de mim recônditos agora revelados, escuros agora iluminados, sons onde somente havia o silêncio, silêncio este que me chamava, mas eu não ouvia. Eu sou eu e sou muitos, todos agora circundados e envoltos pelas dúvidas, pela existência agora sabidamente precária, pelos sorrisos que ainda sou capaz de ver no espelho, pelo olhar agora mais calejado, pelo rosto que toco e apalpo, pela respiração que embaça meus óculos, pelos passos trôpegos e amedrontados que já me fazem, como numa criança aprendendo a andar, vislumbrar um novo amanhecer, uma nova realidade, cheio de coragem, sem medo de cair, pois sei que se isso vier a ocorrer, saberei me levantar.


*Henrique M. Eisenberg é médico, filósofo e músico. Enquanto médico é especialisado em alergologia e pneumologia e autor de vários artigos científicos.

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