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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Escola à distância: a mutilação de uma geração

12 jun, 2020 • Opinião de Henrique Raposo


Parem com o experimentalismo que se esconde atrás do medo. Devolvam a escola e a infância aos nossos filhos.

Estamos num jardim público com outro casal amigo. Estou entre as minhas filhas e um grupo de irmãos que joga à bola. Um chuto forte e despropositado atira a bola na direção da cabeça das minhas filhas. Ato contínuo e reflexo, o meu instinto é colocar as mãos à bola. É o que faço. Mas, naquela porção de tempo inferior a um segundo que vai do chuto até à minha estirada de guarda-redes, o tal grupo de irmãos grita enojado, Não, não toque na bola!

São imensas as histórias que mostram como a paranóia securitária (não o vírus) está a mutilar emocionalmente as crianças. Entre magoar outra criança e ter a sua bola tocada por um estranho, este grupo de irmãos prefere a primeira. Ou seja, o pânico já é uma segunda natureza, até inverteu o instinto moral: eles deviam sentir-se culpados por estarem a pôr em risco crianças mais pequenas – e deviam pedir desculpa. Mas reagiram com desagrado, como se eu fosse o culpado.

Perante este quadro mental, não percebo como é que ainda há pessoas a defender a manutenção da escola à distância a partir de setembro. É que estamos mesmo a mutilar emocional, moral e socialmente uma geração de crianças. Este pânico (injustificado) está a criar uma geração anti-social com nojo de qualquer interação e toque humano. Se passarem mais de um ano nesta repulsa, como é que esta geração vai voltar a fazer desporto? Como é que voltam a praticar judo, futebol, natação? Será uma geração que se vai remeter ainda mais ao isolamento individual dos vídeos jogos e dos telemóveis? Se não cancelarmos a paranóia, sim. As relações amorosas e até sexuais serão ainda mais virtuais e internéticas no futuro? Se não domarmos o medo, um medo que parece nascido de uma civilização que só descobriu agora que não é composta por seres imortais, sim.

A tele-escola é um erro tão grande como o teletrabalho. A escola, tal como a empresa, é um corpo intermédio da sociedade. Nós não somos indivíduos isolados, somos pessoas que fazem parte de corpos sociais, a família, a escola, o clube, a empresa, a rua, a vizinhança. Nós não somos átomos separados uns dos outros, precisamos da interação social para apreendermos a empatia. A empatia treina-se na escola, na ginástica, na natação. Não é possível treinar a empatia quando se está sozinho em casa a olhar para um ecrã. Além da empatia, a escola é fundamental para apreendermos o civismo, que é uma espécie de empatia alargada e política. Como é que se vai educar crianças no e para o civismo (conceito que implica um coletivo) quando tratamos cada criança como uma ilha separada de todas as outras? Parem com o experimentalismo que se esconde atrás do medo. Devolvam a escola e a infância aos nossos filhos.

Comentários
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  • Elsa
    16 jun, 2020 Braga 10:56
    Espera lá, que agora temos mentes brilhantes a comentar que o covid não tem cura..... Estamos sempre a aprender. Aparentemente existem pessoas que não perceberam ainda que o Covid não é a SIDA, sim, a SIDA ainda não tem cura, felizmente o Covid tem cura como temos visto regularmente. Concordo em pleno com o artigo. Aliás, as pessoas que julgam que o tele-trabalho é para manter deveriam pensar duas vezes. Se o vosso trabalho é tão genérico que podem fazer de casa, não se admirem que daqui a uns dias venha um indiano qualquer ficar com o vosso trabalho. É que pelo que a empresa vos paga, pode contratar 3 ou 4 indianos e ainda fica a ganhar uns cobres.
  • AlfPon
    15 jun, 2020 Lisboa 15:24
    Não é Bolsonaro nem Trump, é de Henrique Raposo. As ideias de cada um são isso: ideias de cada um. O covid (este, pois já existem outros que passamos a vida a lidar com eles todos os anos...) não tem cura, como cura não tem nenhum vírus do mesmo tipo e que já existem à milhares de anos entre nós, humanidade. Os que escaparam vão ficar é mais fortes. Pois este dificilmente lhes voltará a fazer mal. Já ficou gravado no seu sistema imunitário. "A imunidade adquirida leva tempo para se desenvolver após a primeira exposição a um novo antígeno. Entretanto, posteriormente, o antígeno é lembrado e a resposta subsequente àquele antígeno é mais rápida e eficaz comparada à resposta que ocorreu após a primeira exposição." Cumprimentos a todos
  • Cidadao
    13 jun, 2020 Lisboa 20:38
    Um discurso um bocado mais erudito, mas há muito de Bolsonaro e Trump, nas suas ideias ... Parece esquecido que apesar de um caráter medianamente benigno, a covid não tem cura e mesmo os que a contraíram e escaparam, vão ficar com marcas e mais fragilizados do que antes.