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Hospital dos Covões. Da linha da frente para o fim da linha

09 jun, 2020 - 09:00 • João Cunha

Movimento de utentes promove um "cordão humano solidário" contra o desmantelamento do hospital. A última situação está relacionada com o fecho das urgências.

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Em 2011, por decisão da troika, o Hospital Geral - conhecido como Hospital dos Covões - foi fundido com o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e, desde então, viu reduzidas as suas valências e especialidades. Pelo menos, um milhão e meio de pessoas têm as urgências do CHUC, que são o fim de linha da Região Centro. Nove anos depois da fusão ainda não existe qualquer estudo que demonstre a viabilidade da decisão, nem os benefícios para os cuidados de saúde e para os doentes.

Depois de três meses na linha da frente como hospital de referência na luta contra a Covid-19, o conselho de administração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra quis encerrar a Urgência do Hospital dos Covões. Esta semana, a ministra Marta Temido admitia não saber de nada.

“Não tivemos ainda nenhuma abordagem formal sobre esse tema, nem pela Administração Regional de Saúde do Centro nem pelo Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra”, referiu a ministra da Saúde, acrescentando ainda que “as alterações às redes de referenciação hospitalar são processos complexos, que envolvem decisões técnicas, e que as carteiras de serviços das instituições não são alteráveis apenas pelas próprias instituições”.

Sabe-se, contudo, que a intenção da administração do CHUC foi travada, em parte, pela Administração Regional de Saúde do Centro, que não deixou encerrar as urgências dos Covões, mas que decidiu mantê-las em funcionamento como urgência básica.

Para o Bastonário dos Médicos, é um erro porque “as pessoas podem não saber que uma urgência básica é básica mesmo: é um médico e um enfermeiro. Não é mais do que isso”. Por isso, numa altura em que “precisamos de ter mais reforço, numa altura em que há médicos que querem lá trabalhar, em várias áreas, é um erro querer encerrar o hospital”.

Mais grave do que isso é, contudo, a decisão não ser objeto sequer de discussão pública, é haver uma decisão “que pelos vistos, até a própria ministra não conhece”, diz Miguel Guimarães.

Segundo o bastonário, não são apenas decisões técnicas, como disse a ministra. “O foco principal deve ser os doentes. O acesso aos cuidados de saúde e a qualidade do que se faz no SNS.”

Governo não quer gastar dinheiro na Saúde

Carlos Costa Almeida foi director do serviço de cirurgia dos dois hospitais: o Geral, dos Covões, e o Hospital da Universidade. Não entende a decisão de progressivamente desativar o Hospital dos Covões, porque, como indica, há cada vez mais doentes e patologias acumuladas no Hospital da Universidade - o que dificulta e reduz a resposta.

E dá um exemplo. Médicos de algumas especialidades cirúrgicas que “no Hospital dos Covões operavam três a quatro vezes por semana, no Hospital da Universidade operam uma vez de 15 em 15 dias. Não é porque sejam mandriões, é porque há outros que tem de ocupar as salas de operações”.

Como consequência “há listas de espera enormes, para cirurgias, para exames e para consultas. Em resultado da acumulação de todos os serviços no mesmo espaço.”

Por isso, lamenta que desde a fusão, ainda não tenha sido feito qualquer estudo que demonstre a viabilidade da decisão, nem os benefícios para os cuidados de saúde e para os doentes.

Alerta este médico que, com a atual situação, podem até correr-se outros riscos. Com a sangria de valências nos Covões, quem entra para ser assistido por ter de ser encaminhado para o Hospital da Universidade de Coimbra. Com riscos, como o que o próprio Carlos Costa Almeida experienciou, num outro Centro Hospitalar do país.

“Também são vários hospitais, separados por várias dezenas de quilómetros. A minha sogra sentiu-se mal, foi levada a um desses hospitais e foi-lhe diagnosticado um enfarte do miocárdio e um acidente vascular cerebral. A cardiologia era no hospital onde estava, mas a neurologia estava a 30 ou 40 quilómetros de distância”, descreve.

E como é que se resolve um caso destes? “Felizmente para eles e infelizmente para ela e para nós, a senhora resolveu o problema, porque morreu”, explica Carlos Costa Almeida.

Segundo este responsável, fica difícil perceber o objetivo por detrás do definhamento do Hospital dos Covões. Ou querem ter uma unidade “que é uma espécie de mansão e depois ter uma casa da quinta, que é absolutamente fundamental para tudo aquilo que eles não conseguem fazer, que não conseguem acomodar, que não conseguem dar vazão”.

Ou então o objetivo é economicista. A questão de querer reduzir custos. “Estamos a chegar àquela fase da austeridade, de novo e começa-se pela saúde. Aqui há dois hospitais e fica só um: quantos menos hospitais houver, menos doentes são tratados e menos se gasta”.

Administração do CHUC chama a jogo a ARS Centro

A administração do CHUC esclarece que a definição do perfil de funcionamento da Urgência do Hospital dos Covões é “competência da ARS/Centro”.

Segundo o organismo liderado por Fernando Regateiro, trata-se de uma competência vertida num despacho ministerial datado de 23 de novembro de 2015, que indica que “a existência de um polo da Urgência do CHUC no Hospital dos Covões fica dependente, quanto ao horário e tipologia, de orientação da Administração Regional de Saúde do Centro.

A administração do Centro Hospitalar refere ainda, em comunicado, que a partir de 15 de junho, estarão em funcionamento atividades não-covid no Hospital dos Covões. Sendo certo, segundo várias fontes daquele hospital contactadas pela Renascença, que algumas das valências e especialidades existentes naquela unidade antes da pandemia não vão ser retomadas.

“Cordão humano solidário” contra o desmantelamento

Depois de uma petição entregue na Assembleia da República, em defesa do Hospital dos Covões, várias organizações e cidadãos realizam esta terça-feira, em Coimbra, um “cordão humano solidário” em defesa desta unidade.

A iniciativa, que começa às 10h30 na entrada principal daquele hospital de Coimbra, tem como objetivo alertar a população da cidade e da região Centro para a passagem da urgência para o seu nível básico, por decisão da administração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Os promotores da concentração alegam que a transformação da atual urgência dos Covões, na margem sul do rio Mondego, em Serviço de Urgência Básico “irá levar ao encerramento da resposta de cardiologia, de pneumologia e de medicina interna”.

Por outro lado, essa mudança vai “aumentar em cerca de 25% o número de macas" nos Hospitais da Universidade de Coimbra, polo principal daquele Centro Hospitalar.

No “cordão solidário”, em São Martinho do Bispo, estarão representados o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, o Sindicato dos Médicos da Zona Centro, o Sindicato dos Técnicos Superiores de Saúde das Áreas de Diagnóstico e Terapêutica, o Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais, o Sindicato dos Trabalhadores de Serviços de Portaria, Vigilância, Limpeza, Domésticas e Atividades Diversas, o Sindicato da Hotelaria do Centro e a União dos Sindicatos de Coimbra.

Também a Ordem dos Médicos, o Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos e o Sindicato Independente Profissionais Enfermagem anunciaram a sua presença.

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  • António dos Santos
    09 jun, 2020 Coimbra 22:55
    Este problema, só existe, porque quem manda na saúde. em Coimbra, são os palhaços dos "Professores Doutores" da Universidade de Coimbra, que têm a mania que são e são mais que os outros, não só na medicina, mas em todas as áreas, mas são muito mais ignorantes que os simples licenciados. Não sabem ensinar!! As autoridades locais andam às ordens destes gajos, que tornaram a cidade de Coimbra, uma simples cidade de serviços. A Universidade de Coimbra é actualmente um cancro para a cidade. A UC vive dos louros, do passado. Com tudo isto, há 10% de bons catedráticos, o resto é lixo e chulos do orçamento. Se verificarem as universidades fora as de Lisboa e Porto, já ultrapassam a UC.