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Angústia no setor do calçado. A Covid-19 descalçou o mundo

26 mai, 2020 - 06:59 • Luís Aresta

Este ano, serão vendidos menos cinco mil milhões de pares de sapatos em todo o mundo. Empresários e trabalhadores convergem na incerteza quanto ao que se irá passar depois do verão.

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Até às férias de verão é aguentar... depois se verá. Assim se pode resumir o clima, manchado pela incerteza que domina o setor português do calçado.

Já em 2019, o setor enfrentou uma queda nas exportações, reflexo direto de menores encomendas a partir de França ou da Alemanha, só parcialmente compensadas pela crescente penetração em mercados como os Estados Unidos e a China.

Para complicar as contas, só faltava mesmo o novo coronavírus que, apesar de todas as "patas" que apresenta, vai fazendo descalço, o seu caminho.

“Antigamente, dizia-se que se os burros usassem sapatos era uma alegria, porque calçavam dois pares ao mesmo tempo. Agora, é o coronavírus”, ironiza o industrial Ilídio Ferreira.

A boa disposição do proprietário da "Felgui", em Felgueiras, contrasta com “angústia e incerteza” do atual momento, mesmo não sendo motivo para, como diz, “andar de mãos na cabeça a dizer que isto vai ser uma desgraça”.

Pessimista por natureza, este fabricante e exportador de calçado, confessa que “ainda que não houvesse coronavírus e este fosse um ano normal, esta época seria sempre de alguma ansiedade”.

O sentimento, já habitual: tem a ver com a forma como os comerciantes acolhem as novas coleções que o fabricante pretende colocar nas lojas. Quando contactado pela Renascença, o problema que este empresário faz notar é uma “ansiedade ainda maior, porque agora estamos perante uma realidade diferente; o pessimismo e o negativismo não são coisas imaginárias, existem, de facto”.

A empresa de Ilídio Ferreira emprega 150 trabalhadores e não recorreu ao "lay-off" porque foram garantidas as encomendas com origem em vários países da Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália. A aposta na diversificação dos mercados tem permitido a Ilídio Ferreira crescer sem grandes sobressaltos.

De tal forma que a empresa familiar, fundada no início dos anos 80, com uma produção inicial de 30 pares de sapatos por dia, é hoje uma sofisticada unidade industrial com área de 5.000 m2 e capacidade para produzir 1.500 pares de sapatos por dia.

Como o novo coronavírus deixou o mundo descalço

Há dois meses, já com a Covid-19 a ameaçar a economia mundial, a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Sucedâneos (APICCAPS) fez um estudo que concluiu que, este ano, a quebra do consumo a nível mundial será da ordem dos 22,5%, “o que equivale a menos cinco mil milhões de pares de sapatos em todo o mundo”, esclarece o diretor de comunicação, Paulo Gonçalves.

“Na Europa, em particular, a quebra é ainda mais acentuada, na ordem dos 27,5%. Para um setor como o calçado, que exporta mais de 95% da sua produção, para 163 países nos cinco continentes, naturalmente que qualquer abrandamento da atividade económica e, em especial, uma quebra tão generalizada no consumo, é motivo de franca preocupação”, sublinha.

Nestas declarações à Renascença, Paulo Gonçalves faz notar que continua a haver encomendas “mas em muito menor escala”, o que obriga a rever em baixa as expetativas positivas alimentadas por um bom arranque de 2020.

"As perspetivas eram muito interessantes, não só porque estávamos a consolidar a nossa presença em alguns dos mais importantes mercados europeus, como havia previsões de crescimento em mercados extracomunitários, como o Canadá e os Estados Unidos. Estávamos também a preparar uma investida em alguns países asiáticos, nomeadamente Japão e China”, precisa.

O ímpeto foi subitamente quebrado e o setor do calçado está agora confrontado com um ano que não terá 11, mas apenas nove meses de produção e “isso vai ser penalizador para as nossas empresas e para o volume das exportações”.

Sindicatos atentos e preocupados

O sentimento de incerteza que paira entre os empresários do setor do calçado é partilhado por milhares de trabalhadores, preocupados com o que se irá passar após as férias de verão, porque, até lá, parece garantida a generalidade dos postos de trabalho, seja pela laboração, seja pelo "lay-off" simplificado ou pela salvaguarda que impede despedimentos nos 60 dias subsequentes ao fim do "lay-off".

A presidente do Sindicato Nacional dos Profissionais da Indústria e Comércio do Calçado, Malas e Afins (SNPICCMA), Fernanda Moreira, observa que, até agora, “as empresas têm encomendas, mas, depois das férias, não sabemos o que vai acontecer”.

A sindicalista trabalha numa multinacional localizada em Santa Maria da Feira, que dá emprego a 1.200 trabalhadores. “A minha convicção é de que não vamos escapar a uma reestruturação”, declara, com base nas poucas informações que os responsáveis da empresa vão deixando cair.

Um outro sinal que não deixa de ser relevante, na empresa onde Fernanda Moreira trabalha, é que o "lay-off" terminou a 19 de maio e a laboração é agora assegurada em rotatividade; cerca de 40% dos operários tem ordem para ficar em casa, apesar de os salários serem pagos na totalidade.

No fundo, a empresa pode ter encontrado na antecipação do fim do "lay-off" uma forma inteligente de, com as férias à porta, estar livre para adequar o número de trabalhadores à previsão de encomendas para a próxima coleção.

A Renascença tentou obter mais esclarecimentos junto da empresa, tendo recebido por resposta que as grandes decisões de gestão são tomadas na Dinamarca, onde se situa a casa-mãe da multinacional com fábricas instaladas em Portugal, Eslováquia, Tailândia, Indonésia e Vietname.

Será, acima de tudo, a reação dos consumidores a nível mundial a ditar as próximas decisões de muitas empresas do setor do calçado que, até às férias de verão, se agarram à produção das coleções outono-inverno.

A presidente do SNPICCMA faz notar que os trabalhadores estão “expectantes”, reconhecendo, porém, que “a preocupação existe, até porque o problema não está apenas em Portugal”.

A sindicalista observa com agrado que há “empresas que fazem de tudo para levar isto para a frente”, depois de no início da pandemia terem surgido alguns pedidos de insolvência, “sobretudo de pequenas empresas que já estavam com problemas”.

A retoma está a ser feita a ritmos diferentes, havendo de tudo: "Empresas que se mantêm em ‘lay-off’, outras que retomaram a atividade de forma parcial e também há quem esteja a trabalhar a 100%.”

Tal como noutros ramos da atividade económica, também aqui houve “casos pontuais de 'lay-off' ilegal, entretanto alvo de participação para que as empresas possam ser fiscalizadas”.

Sacudir a poeira e prosseguir caminho. Mas tem de haver consumo

Como está à vista, os próximos meses serão muito importantes para se perceber se o setor do calçado vai passar uma vaga de despedimentos e falências em série ou se, pelo contrário, sairá da crise sem grandes feridas para lamber.

Paulo Gonçalves, da APICCAPS é elucidativo. “Veremos o pós-férias, porque, a partir de setembro, o setor estaria a produzir o verão do próximo ano. Se não for recuperada a confiança, se o consumo não for incentivado, os sapatos que produzimos e comercializamos nos últimos meses de verão vão ficar nas prateleiras. Se tal acontecer, os armazenistas e retalhistas ficarão com ‘stocks’ acumulados e com menor capacidade para comprar as coleções seguintes”, explica.

Paulo Gonçalves acentua que “as empresas estão a procurar resistir”. Já no passado recente, algumas estavam a “migrar as suas produções para segmentos de maior valor acrescentado, a procurar diversificar mercados”, mas, como faz questão de sublinhar, a retoma do setor estará “sempre dependente da duração desta pandemia”.

O que mais preocupa são as micro e pequenas empresas que “estão a passar por um período muito crítico”, sendo importante que consigam sobreviver, na medida em que serão “fundamentais para que nos próximos meses seja possível relançar o setor e alavancar a atividade económica”.

Fronteiras fechadas não ajudam às novas coleções

Os impactos de dois meses com as sapatarias fechadas - cá e no estrangeiro serão sempre inevitáveis. A convicção do industrial Ilídio Ferreira é de que o calçado “que deveria estar agora nas montras, em muitos casos, só será exposto ao público no próximo ano”, sendo imprescindível “diversificar, criar novas coleções e colocar no mercado coisas inovadoras” capazes de convencer os retalhistas de que é importante ter esses produtos nas lojas.

Neste contexto, voltar permitir a livre circulação no espaço aéreo internacional seria uma ajuda importante.

“Neste momento, estamos a elaborar uma coleção, temos de ir para a rua para a vender e não o podemos fazer. Não podemos visitar os clientes, nem eles nos podem visitar a nós”, explica Ilídio Ferreira, fazendo ver que “quando se trabalha com vários tipos de pele e cores variadas, não se consegue mostrar tudo” através da internet.

O que vale por dizer que, mesmo representando uma ferramenta importante, o "online" não resolve tudo nem substitui o conforto do contacto pessoal entre vendedor e comprador.

O mesmo se passa ao nível das ações de promoção externa. “Num ano normal, temos quase 200 empresas a participar em cerca de 50 feiras em todo o mundo”, diz Paulo Gonçalves, da APICCAPS, apontando como uma boa notícia o facto de a grande feira internacional de calçado da Europa, a MICAM, em Milão, estar reagendada para finais de setembro.

“Veremos como evolui a pandemia”, salvaguarda. Paralelemente, as empresas estão a reforçar de forma muito significativa tudo o que tem a ver com o "mundo 'online'", com a APICCAPS, na retaguarda, a investir cerca de dois milhões de euros em ações de formação das empresas no universo digital.

Governo esteve bem. A Europa, longe disso

Na entrevista concedida à Renascença, Paulo Gonçalves reconhece como “positivas as medidas anunciadas pelo Governo”, que “no seu conjunto e, de forma complementar, acabaram por ir ao encontro das expetativas das empresas”.

Para os empresários do setor do calçado, “a verdade é que, se o Governo português andou bem, já a União Europeia e a Europa como um todo ainda não deu a resposta que seria desejável. De facto, a Europa não respondeu com o vigor que seria necessário”.

Para o futuro e, em conclusão, fica o alerta dos empresários do calçado: “É essencial recuperar a confiança, tal como é decisivo incentivar o consumo, porque doutra forma as empresas, sejam elas de menor ou maior dimensão, irão passar por períodos muito difíceis."

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