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Marinha Mercante. Há trabalhadores sem salário e retidos há meses em alto-mar

22 mai, 2020 - 08:00 • André Rodrigues

A paralisação generalizada de centenas de cargueiros em alto-mar, associada à suspensão de voos que permitam a rendição intercontinental de comandantes e tripulações, “está a criar exaustão e ansiedade junto das tripulações que estão ao serviço".

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Há trabalhadores da marinha mercante que não recebem salário há vários meses, por causa da pandemia. O quadro é revelado à Renascença por Pedro Amaral, piloto de barra com larga experiência no porto de Setúbal.

A paralisação generalizada de centenas de cargueiros em alto-mar, associada à suspensão de voos que permitam a rendição intercontinental de comandantes e tripulações, “está a criar exaustão e ansiedade junto das tripulações que estão ao serviço".

Em muitos casos, "são trabalhadores que estão há seis, sete e oito meses retidos em alto-mar, quando os contratos de trabalho na marinha mercante preveem períodos de trabalho por um máximo de três meses consecutivos".

Por outro lado, "cada viagem corresponde a um contrato e a pessoa ganha pelos três meses que está a bordo, mais alguma coisa, porque o tempo a bordo também corresponde a algum tempo de descanso".

Com a atividade dos navios mercantes suspensa, os armadores deixaram de celebrar contratos de trabalho com quem está em terra e, por isso, "há pessoas que estão em causa há vários meses sem receber nada".

Também os comandantes das embarcações estão a sofrer as consequências da paralisação. O capitão de alto-mar António Curto está à espera de render um colega russo numa embarcação que opera na zona do Mediterrâneo.

"Eu devia ter rendido um capitão russo no dia 1 de abril, num navio que opera na zona do Mediterrâneo. Eu estou em casa, sem saber quando posso rendê-lo e ele teve de prolongar largamente a sua permanência a bordo".

No entanto, com as companhias aéreas europeias a perspetivar o retorno às operações a partir de junho, António Curto admite que "a situação possa começar a resolver-se dentro de duas semanas".

Transporte marítimo movimenta 90% do comércio mundial

O transporte de mercadorias por via marítima é um ramo de atividade de que pouco se tem falado, sobretudo por causa da perceção de que as ligações à escala global são asseguradas pelo setor aeronáutico.

Se isso é objetivamente verdade no transporte de passageiros, já o comércio mundial de mercadorias faz-se quase exclusivamente por via marítima.

O capitão de mar e guerra Armando Dias Correia, autor do livro "O Mar no Século XXI", lembra que "90% do comércio mundial flui pela via marítima, pelo que o impacto é enorme. Ainda para mais, se tivermos em conta que a atividade nos portos também baixou imenso".

No caso português, Dias Correia recorda que "refinaria de Sines parou durante um mês, assim como a Autoeuropa, por isso, podemos imaginar as dificuldades que todo o ecossistema, que vai dos armadores aos tripulantes, sente e vai continuar a sentir nos próximos tempos".

Por outro lado, Armando Dias Correia avisa que a retenção de centenas de cargueiros em alto-mar, por força da pandemia, está a criar um cenário de paralisia económica.

No limite, está em risco a sobrevivência de vários armadores que poderão não resistir ao congelamento da atividade por muito mais tempo.

"Como as pessoas viajam essencialmente por avião e as cargas circulam por navio, fala-se muito dos problemas relacionados com a aviação e muito pouco dos problemas da marinha mercante, que, certamente, se vão sentir a muito mais longo prazo, com muitos armadores a não conseguirem sustentar as suas frotas".

O futuro? "Não sabemos o que será, porque ainda temos muito poucos dados para avaliar a situação", conclui.

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