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Postal de Quarentena - Toronto

Existirá melhor país no mundo para passar a quarentena?

05 mai, 2020 - 07:00 • Sofia Guedes Bilbao e Rita Sousa Tavares*

O Canadá é considerado um dos países mais desenvolvidos do mundo. Apesar de ser vizinho do país com mais casos e mais vítimas mortais, o Canadá tem menos de quatro mil mortos por Covid-19. Duas emigrantes portuguesas em Toronto ajudam-nos a compreender porquê.

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A organização canadiana

Sofia Guedes Bilbao

No Canadá, antes do aparecimento da Covid-19, era normal o trabalhador ficar em casa porque tinha tosse ou uma febre ligeira. Ao aluno sempre lhe foi pedido para ficar em casa para não contagiar colegas no caso de estar com algum sintoma de gripe, ainda que ligeiro. No fim de um dia de escola, era normal as mães comentarem que viram uma criança no recreio a tossir e o quão irresponsáveis eram os pais da mesma em arriscar que contagiasse outras. Era normal amigos com quem tínhamos um jantar combinado avisarem três vezes que tinham estado doentes na semana anterior, se fosse o caso, ou cancelarem o jantar porque tinham tosse e “não sabiam o que podia ser”. Era normal numa visita a um bebé recém-nascido ninguém o pegar ou tocar, mesmo que estivessem completamente saudáveis. Tudo isto era considerado normal no Canadá antes desta pandemia.

As escolas fecharam dia 16 de Março e as pessoas começaram a fazer distanciamento social e a limitar o contacto fora do núcleo familiar. A província de Ontário contava com aproximadamente 3.000 casos confirmados no dia 4 de Abril, data em que o governo decretou o “lockdown”. A economia parou por completo a partir deste dia, apenas serviços essenciais continuaram a funcionar. Paralelamente a estes comunicados das medidas de prevenção, vêm sempre os apoios que o Governo prevê dar diretamente às famílias e às empresas, para compensar a paralisação da economia, assim como os resultados positivos que o cumprimento das regras estão a ter no número de casos detetados. Nestes comunicados do Governo também se fala sempre no sistema de saúde do país, acessível a todos, com condições muito boas e totalmente preparado para o que estamos a viver. As pessoas devem estar preocupadas, como em qualquer outro país, mas de facto o respeito à regra que existe no Canadá é impressionante e acredito que o ambiente calmo que aqui se vive seja um fenómeno mundial.

Pessoalmente tenho curiosidade em ver se depois da pandemia os canadianos vão deixar de estender a mão ao cumprimentar alguém ou se é desta que passam a dar um, dois ou três beijos. Pelo menos aos amigos! Tudo pode acontecer.

Sinto falta dos abraços

Rita Sousa Tavares

Tal como sugere a Sofia, o distanciamento social, um conceito que entrou recentemente nas vidas dos portugueses – e que muito pouco ou nada tem a ver com a sua cultura – já fazia parte da vivência canadiana muito antes da chegada da Covid-19. Sem querer de todo aligeirar a gravidade da situação do ponto vista humano e económico, ou o esforço de confinamento que o momento exige e que também aqui foi imposto, há, na minha interpretação de emigrante, uma certa reserva natural e quotidiana na vida dos canadianos, que faz com que a pandemia não tenha surgido como uma gigante pedra no charco – neste caso no lago de Ontário – mas sim como um desafio que do ponto de vista social exige empenho e disciplina coletiva para ser alcançado.

País aberto ao mundo – onde a cidade de Toronto ganha a classificação da mais multicultural do planeta – e, onde religiões e orientações completamente antagónicas convivem lado a lado (não em melting pot) é, simultaneamente, e ao contrário do que se poderia temer num território que absorve centenas de milhares de imigrantes por ano (313,580 só em 2019), um país cheio de condutas sociais em prol da tolerância e da vivência comunitária, onde a distância social – comparativamente aos países latinos – faz parte de uma dinâmica de vida que assenta em dois pilares fundamentais: o emprego e a família. E tudo o que foge a estas duas esferas, ganha uma importância relativa, sempre com direito marcação na agenda e muita programação.

Talvez seja essa a forma que este simpático povo, que apesar de estar bem longe da nossa realidade não deixa de ser incrivelmente simpático e tolerante, encontrou para ao longo de décadas de abertura a outros povos tornar possível a convivência debaixo de uma mesma bandeira, permitindo que ao lado de um bairro boémio, se instale um bairro judeu ortodoxo. Tudo na paz canadiana. Na baixa de Toronto, Little Portugal tem paredes meias com Little China, que fica em baixo de Little Italy, que fica à esquerda de Koreantown, que também está à esquerda de Greektown, que está a cima de Cabbagetown – um bairro inicialmente ocupado por imigrantes irlandeses.

(Mal eles sabem o gozo que me dá, de numa só manhã, encher um cesto de compras com carnes do talho Halal, enchidos de uma mercearia portuguesa, queijos italianos, pão ázimo da loja judia, molho picante feito na mercearia jamaicana, e por aí fora. Isso sim é multiculturalismo. Isso sim é liberdade)

Ou talvez seja fruto do clima gelado, com temperaturas médias negativas durante mais de metade do ano, que não propicia os encontros improvisados. Ou a competitividade natural e sentido de missão dos que aqui vivem.

A verdade é que Toronto, onde mais de metade da população residente é estrangeira, não é por força a Babilónia mas antes e, em termos estritamente sócio-organizacionais, uma Genebra da América do Norte, embora com um espirito bem mais livre e feliz que aquele que desce dos Alpes e sopra sobre o Lac Leman.

É este mesmo espírito de organização e conduta, independentemente das diferentes etnias e dos alunos recém chegados e pouco acostumados a esta realidade, que se estende sobre o mar de crianças que todas as manhãs invade o recreio da escola da minha filha mais nova, com um ritual de disciplina que rapidamente resolve a gestão de um processo que tinha tudo para descambar, e como que por milagre, em dois minutos faz distribuir 1.000 crianças pelas respetivas salas de aula: descalça botas de neve, calça os sapatos para a sala de aula, guarda as luvas no bolso direito do casaco, gorro no bolso esquerdo, colete para o frio dentro do casaco. E antes que o relógio bata as nove da manhã, já as crianças estão perfiladas de mão no peito prontas para cantarem o hino canadiano.

E voltam ao mesmo processo invertido cada vez que vão ao recreio. E outra vez esse, e outros tantos rituais quando crianças e adultos são convidados (aqui ninguém aparece sem se anunciar) para casa dos vizinhos ou amigos.

Tudo isto para tentar explicar o controlo da propagação da doença nesta terra que tinha tudo para escalar a pandemia já que não só faz fronteira com o país mais atingido do mundo – os Estados Unidos, como é, desde sempre, um gigantesco porto de desembarque da Europa e da Ásia. 60% da população estrangeira de Toronto é asiática e dentro desta uma grande parte é oriunda da China.

A esta lei invisível canadiana, em que nada se toca, nada se questiona e tudo se agradece, acresce um sistema social com tentáculos gigantes, em que a informação sobre os apoios governamentais entra-nos pelo correio diariamente, e um sistema de saúde 100% privado mas totalmente garantido pelo Estado (ou seja o Estado assume o papel de seguradora privada dos cidadãos e residentes), com reconhecida capacidade de resposta e avanço tecnológico.

Viajei de Madrid para Lisboa e de Lisboa para Toronto no mês de Março. Depois de ver o monstro entrar silencioso pelas ruas da capital espanhola, deixei a minha cidade com medo do que aí viria. Dava para perceber que se tratava apenas de uma questão de dias, os mesmos que também os canadianos, sabiamente usaram para se prepararem. No voo da TAP que me trouxe vinha uma passageira que viajava de Itália para Toronto via Lisboa já com sinais evidentes de contágio, sinais esses que vieram a ser comprovados horas depois da aterragem. Esta passageira seguiu directa da porta do avião para o hospital, escoltada por uma equipa de seguranças e enfermeiros.

Nunca consegui perceber se tive ou não o vírus, porque aqui no Canadá, por mais que tentemos, só nos deixam sermos testados com sinais claros da doença e não existem testes que não sejam controlados pelo sistema de saúde.

Foram criados verdadeiros centros de campanha na cidade e os hospitais divididos entre os que acolhem e os que não acolhem doentes com COVID. Como se sabe, vários médicos italianos acabaram por admitir que o maior erro que o sistema de saúde italiano cometeu foi admitir doentes infetados em hospitais onde ainda não tinha entrado a pandemia.

Em termos comparativos, a expressão do coronavírus no Canadá não está, até ao momento, muito diferente de Portugal, embora o Canadá conte com menos casos mortais e menos casos totais relativamente à população. Também aqui, sabe-se que a grande maioria das mortes aconteceu em lares de idosos e outros centros de cuidados prolongados – o calcanhar de Aquiles desta guerra que ninguém sabia travar. À data de hoje, 3 de Maio, estão contabilizados 57 mil casos e 3.600 mortos num universo de quase 40 milhões de habitantes.

Dentro das limitações impostas, ainda são permitidos passeios em família nos parques públicos que existem em todos os bairros, e com a chegada da primavera –

que nunca acontece antes de Maio – as ruas estão cada vez mais cheias de gente, embora sempre debaixo da regra já enraizada nas nossas cabeças como um cedro canadiano “six feet apart and one at- a- time”. Esta frase anda dentro de nós como um condão que nos balança para a frente e para trás.

Pergunto-me então, haverá melhor lugar no mundo para passar a quarentena? Provavelmente não, mas também tenho que admitir: a vida não é uma quarentena. E se em circunstancias normais já sinto falta a minha vivência latina, agora nem se fala. Sinto falta dos abraços, das relações livres e orgânica com os meus amigos, sem pré-avisos, sem condições, sem ressalvas e sem alergias. Sinto muita falta da minha família, e acima de tudo, sinto falta do mar. O mar cura tudo, o mar limpa tudo. Quando tudo isto passar, quero dar um enorme mergulho no mar português, esquecer as regras, e voltar limpa à vida.


*Sofia Guedes Bilbao, é mãe de 5 crianças com idades entre os 7 anos e 2 meses e vive há seis anos em Toronto. Rita Sousa Tavares, é mãe de dois adolescentes e de uma criança de 10 anos, é produtora e adida cultural de Portugal no Canadá e vive na mesma cidade canadiana há quase quatro anos.

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  • jose Arezes
    06 mai, 2020 toronto 03:46
    Parabens Rita and sofia um bom comentario sobre o meu Canada todo o que escreverao foi bem a realiadade se passa aqui no Canada como luso cadiano fico contente por ler cometarios assim muinto obrigadas estao de parabems