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Coronavírus

Covid-19 afasta doentes terminais. "Tivemos mais doentes a morrer em casa com acompanhamento"

20 mai, 2020 - 18:39 • José Pedro Frazão

Recursos são também limitados, mas a epidemia trouxe até motivos de esperança em novas respostas nos cuidados paliativos ao nível comunitário e hospitalar. Edna Gonçalves e Isabel Galriça Neto, directoras de serviços de cuidados paliativos em hospitais públicos e privados, reflectem sobre a importância do trabalho efectuado pelos paliativistas em contexto de pandemia.​

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As pessoas continuam a ter algum medo de vir ao hospital, asseguram as directoras de cuidados paliativos em dois hospitais nas principais cidades, ouvidas no "Da Capa à Contracapa", parceria semanal da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Edna Gonçalves, diretora de Cuidados Paliativos no Hospital de São João no Porto, revela que neste momento ainda é necessário telefonar aos doentes para voltarem às consultas. E o medo de um maior isolamento nos hospitais travou o acesso às unidades de muitos doentes mesmo em situações terminais.

"Os doentes não vinham ao hospital. Tinham medo. No início chegámos a ter vagas na nossa unidade de internamento. Não havia doentes para internar", conta esta médica a trabalhar num dos hospitais mais pressionados na pandemia de Covid-19.

Edna Gonçalves lembra que apesar das restrições cada doente tem direito a uma visita. "As visitas também tinham medo de ir ao hospital e sobretudo na fase de maior confinamento, as pessoas estavam também em casa e portanto havia mais gente para cuidar em casa. Na crise Covid tivemos mais doentes a morrer em casa com acompanhamento nosso", revela a paliativista do São João.

Já Isabel Galriça Neto, diretora da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz-Lisboa, adianta que alguns doentes não procuraram serviços de saúde e assiste-se agora a uma "procura de retorno de doentes em fase avançada e que não apareceram durante a fase mais aguda da pandemia".

Expandir cuidados paliativos com a pandemia

A braços com a reorientação de equipas para suster a pandemia de Covid-19, as equipas de cuidados paliativos, em particular no sector público, tiveram que reinventar a sua intervenção.

"Quanto mais fazemos mais somos necessários. Esta crise Covid pode permitir ainda mais alavancar os cuidados paliativos e particularmente os cuidados paliativos comunitários mas também os hospitalares ", diz Edna Gonçalves que também preside à Comissão Nacional dos Cuidados Paliativos.

Edna Gonçalves elogia a resposta das equipas comunitárias de cuidados paliativos no Grande Porto e a sua articulação com as estruturas hospitalares. E a reestruturação interna que fez nascer equipas dedicadas à Covid-19 viu germinar cuidados de humanização de serviços.

"Foi com imenso agrado que vi colegas mais jovens, orientados pelos especialistas com mais experiência, a terem atitudes muito humanas e compreensivas para com estes doentes e familias Covid", afirma Edna Gonçalves que assegura que nestes casos, em particular em situações terminais, receberam visita dos familiares que entraram mesmo na zona de isolamento.

Oportunidade perdida

A médica Isabel Galriça Neto, autora do ensaio "Cuidados Paliativos: Conheça-os Melhor" argumenta que a ausência de uma “ avalancha de óbitos e de pessoas em situação de sofrimento e terminalidade” levou a que muitos não tenham entendido “aquilo que poderia ser a mais-valia da intervenção de cuidados paliativos na redução do sofrimento”.

A antiga deputada do CDS considera que havia uma oportunidade que foi perdida nesta crise pandémica, ampliada pelo desvio de recursos para outras respostas hospitalares.

“Fiquei preocupada que, face a equipas já sub-dimensionadas, não houvesse essa injeção ou reforço de recursos, que todos sabemos - para não gorar expectativas às pessoas - que precisamos mais” diz a médica que dirige o Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz em Lisboa.

Galriça Neto diz que “ a manta é curta” e já antes da crise já eram notórias as necessidades de mais recursos. A sobrecarga de serviços de saúde obriga a uma necessária articulação entre eles, argumenta esta responsável clínica, numa situação que coloca a nu diversas "insuficiências".

O "Da Capa à Contracapa" é uma parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, com moderação de José Pedro Frazão.

Comentários
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  • Filipe
    21 mai, 2020 évora 02:22
    Os milhões de euros anuais que o Estado vai poupar com os mortos Covid e os mortos abandonados pelo SNS ... dá que pensar se a utilização do vírus é uma arma de seleção e apuramento da raça humana . Porque parece que mais um morto já ninguém liga , entre milhares declarados e outros milhares varridos por baixo do tapete . Grande negócio isto do vírus ... O Estado devia trocar o Turismo pelo espalhar do vírus ... Nos campos de concentração Nazis , alguns com o Tifo eram obrigados a lamber prisioneiros sãos ...