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​Covid-19: Falta acrílico para fabrico de divisórias e "há quem se esteja a aproveitar"

19 mai, 2020 - 13:52 • João Cunha

A procura destas barreiras de proteção tem sido maior do que a oferta devido à pandemia do novo coronavírus, ao ponto de o acrílico começar a escassear e de haver relatos de especulação de preços.

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As empresas transformadoras portuguesas queixam-se de falta de acrílico para o fabrico de divisórias que estão a ser instaladas para proteger a população da Covid-19.

Em declarações à Renascença, vários empresários do setor denunciam quem, não tendo qualquer conhecimento sobre a matéria, esteja a fabricar essas divisórias e a cobrar preços exorbitantes. Porque nunca como agora houve tanta procura de acrílico com o qual se fazem as divisórias para comércio, restauração e outros locais de atendimento ao público.

A matéria-prima escasseia e que há quem esteja a aproveitar-se da situação. Porque mesmo sem qualquer experiência na transformação do acrílico, estão a produzir essas divisórias para depois vender a preços exorbitantes.

Apesar da procura, não há qualquer obrigatoriedade em instalar barreiras especificamente em acrílico. Mas os clientes sentem-se mais “seguros” se as divisórias forem naquele tipo de plástico, diz Luís Moura, da Acriglobal.

“Os clientes quando visitam, nestas alturas, qualquer atividade comercial, gostam de sentir que estão protegidos”, sublinha o responsável da unidade desta transformação de acrílicos, em São Domingos de Rana, em Cascais.

Razão pela qual a procura tem sido maior do que a oferta, ao ponto de o acrílico começar a escassear. “Temos tido pouca matéria-prima. Não temos conseguido dar resposta a todos os pedidos. E temos tido prazos de entrega mais alargados. Em vez de um dia ou dois dias, temos prazos de entrega de matéria-prima para daqui a um mês ou três semanas”, explica Luís Moura.

Há sobretudo uma enorme escassez “nas espessuras mínimas, sendo que as outras existirão porque não são solicitadas para este efeito”, admite Nuno Marques, da Acrilfer, uma empresa de Alverca do Ribatejo que há 33 anos faz trabalhos em acrílico.

De forma a não haver especulação de preços, os prazos de entrega do produto final foram necessariamente alargados. De três dias úteis, passaram para 15 dias úteis.

Para conseguir dar resposta a todas as solicitações, optaram por desenvolver uma alternativa. “Criámos outro tipo de soluções, com materiais de cor preenchido numa matéria acrílica cristal, mas muito fina, à qual a cor vem dar corpo. E temos tido recetividade por parte dos clientes”, refere Nuno Marques.

"Há quem se esteja a aproveitar da situação"


A mesma alternativa é fornecida por Manuela Gonçalves, sócia gerente da Euracril, em Benfica. Também se queixa de falta de matéria-prima, mas há outras coisas que a preocupam: “infelizmente, há quem se esteja a aproveitar da situação. Há pessoas que nunca trabalharam no acrílico e estão a fazer proteções, que depois vendem a preços malucos”, denuncia a empresária.

Há mesmo quem tente comprar placas de acrílico em bruto, nas empresas já instaladas no mercado. “Telefonam-me para aqui a quererem comprar-me chapas de acrílico”, garante Manuela Gonçalves.

Aos ouvidos de Cíntia Rebelo, vice-presidente da Associação Europeia de Distribuidores de Materiais Plásticos, ainda não chegaram relatos deste género.

Na leitura de Cíntia Rebelo, não parece que seja maior o número de empresas a trabalhar acrílico para barreiras físicas. O que não invalida que haja quem possa estar a fabricá-las, para se aproveitar da situação, e praticar os tais preços exorbitantes, sublinha.

Já no campo das viseiras de proteção, feitas num outro tipo de acrílico, a situação é diferente”, constata a Associação Europeia de Distribuidores de Materiais Plásticos.

“Aí sim, empresas de ramos completamente diferentes que não trabalhavam neste tipo de materiais plásticos, que tinham os seus produtos e os seus clientes, deixaram de trabalhar no que estavam habituados e passaram a atuar no mercado das viseiras”, sublinha Cíntia Rebelo.

Em Portugal há pelo menos uma década que não há fabrico de acrílico. E assim, o mercado depende das poucas fábricas que existem, a nível europeu. E todas elas “já têm os seus canais de distribuição. E nesta altura, há que aproveitar esses canais de distribuição e mantê-los”, aconselha a responsável.

Ainda no campo das barreiras físicas, só nas Lojas do Cidadão de todo o país foram instaladas mais de mil barreiras de acrílico, num investimento de cerca de 120 mil euros.

Relativamente aos espaços e lojas geridos pelas autarquias locais, a aquisição destas proteções pelos municípios conta com o apoio técnico e financeiro da administração central. Mas não se sabe, para já, qual o valor total dos apoios do estado aos municípios para a instalação destas barreiras.

Na passada semana, o Sindicato dos Funcionários Judiciais ameaçou com uma recusa dos funcionários da Justiça a regressar ao trabalho, se o Governo não substituir as proteções acrílicas que instalou nos balcões dos tribunais, por considerar que são ineficazes.

As proteções em causa são um círculo com cerca de um metro de diâmetro, frente a cada posto de trabalho. E ainda para mais, os círculos têm dezenas de furos poderão anular o alegado pouco efeito protetor daquele equipamento.

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