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Coronavírus

Dezenas de bebés aguardam compradores na Ucrânia por causa da pandemia

15 mai, 2020 - 20:14 • Filipe d'Avillez

As restrições às viagens deixaram perto de 50 bebés, nascidos de barrigas de aluguer, à espera dos seus pais adotivos. Os bispos católicos da Ucrânia pedem o fim deste negócio.

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Cerca de 50 bebés recém-nascidos na Ucrânia estão à espera que os seus pais adotivos possam entrar no país para os reclamar, mas estes não o podem fazer por causa das restrições impostas às viagens durante a pandemia.

A empresa que comercializa os bebés, a BioTexCom, publicou um vídeo onde se vêem dezenas de berços idênticos em fila num dos edifícios da empresa, conhecido como o Hotel Veneza, onde os pais adotivos costumam ver as crianças pela primeira vez.

O vídeo foi publicado com o objetivo de alertar as autoridades e pressioná-las a facilitar a entrada no país dos estrangeiros que vinham buscar as crianças, mas está a gerar uma onda de revolta contra aquilo que se tornou um negócio muito lucrativo na Ucrânia.

Lyudmyla Denisova, a provedora dos Direitos Humanos do Parlamento ucraniano, disse que o video revela que existe uma indústria “massiva e sistemática” de barrigas de aluguer no país e que os bebés são frequentemente anunciados como sendo “produto de alta qualidade”.

A deputada sugeriu alterar a lei para que os serviços de gestação de substituição apenas possam ser usados por cidadãos ucranianos, mas neste momento é permitido a estrangeiros adotar bebés através deste sistema. Denisova mandou investigar a empresa em questão, mas concluiu-se que não estão a ser violadas quaisquer leis.

O fundador da BioTexCom, que paga a cada mãe biológica entre 15 e 17 mil euros, admite que o objetivo do vídeo era pressionar as autoridades. “Estávamos preparados para a reação negativa. Mas tendo em conta que os pais [adotivos] têm de fazer uma quarentena de 14 dias, queríamos apressar o processo”.

O preço dos bebés varia, mas pode rondar os 35 mil euros.

Um advogado da BioTexCom diz que os bebés são todos bem cuidados. “Têm comida e temos funcionários suficientes para cuidar deles, mas nada substitui os cuidados dos pais”, diz Denis Herman. “Tentamos mandar fotografias das crianças aos pais, fazer videochamadas, mas nada disso substitui o contacto direto”.

Bispos pedem fim do comércio de bebés

A situação exposta pela BioTexCom já mereceu as mais duras críticas dos bispos católicos na Ucrânia. Num comunicado conjunto dos bispos da Igreja de rito latino e dos bispos da Igreja Greco-Católica, que é a maior igreja católica de rito oriental do mundo, lamentam que a prática seja permitida na Ucrânia.

“A gestação de substituição, isto é, o tratamento de pessoas como um produto que pode ser encomendado, manufaturado e vendido e que, infelizmente, é permitido pela legislação ucraniana, constitui um problema e atropela a dignidade humana”, escrevem.

“Dificilmente se pode imaginar tal demonstração de desrespeito pela dignidade humana” quer dos bebés, quer das suas mães, dizem ainda os bispos.

Mas a principal crítica é dirigida a quem permite o comércio “A base comercial da gestação de substituição merece, do ponto de vista moral, um julgamento ainda mais severo, uma vez que é agravada pelo mal moral de compra e venda das funções corporais e da pessoa recém-nascida. Nenhuma circunstância ou consequência pode justificar a prática”.

“Exigimos que as autoridades prestem finalmente atenção à política familiar na Ucrânia e criem um órgão estatal para lidar com as famílias ucranianas, garantindo que as mães ucranianas não se vejam na situação de venderem os seus corpos e os filhos que carregam para poderem garantir a sua própria sobrevivência e a dos seus parentes”, apelam os bispos católicos da Ucrânia.

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