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Opinião de Graça Franco
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​A “crise” foi política no seu pior. Centeno ganhou, os portugueses não

14 mai, 2020 • Opinião de Graça Franco


Os políticos portugueses podiam ter escolhido melhor o dia para encenar a crise e fazer-nos perder a Todos. A começar no povo, sem paciência para continuar a salvar bancos quando não há dinheiro para o essencial.

Mário Centeno já era um ministro a prazo desde que deixou de ser o “número dois” do Governo e que a crise económico/sanitária começou. Ontem foi-lhe reafirmado que era essencial a sua presença no Governo, pelo menos, até que seja apresentado o Orçamento Suplementar e o Programa de Estabilidade a apresentar em junho, mas depois de ser tanto tempo “Ronaldo das Finanças” tudo já parece uma despromoção. O pior é que se houve episódio em que a razão estava do lado de Centeno foi seguramente este.

Não havia necessidade. A encenação de uma micro-crise política esta quarta-feira não fez mais do que fragilizar Centeno para a reunião do Eurogrupo de amanhã e aumentar, ainda mais, a distância entre um povo que começa a dar-se conta de uma crise económica brutal a somar à crise sanitária, e de uma classe política que depois de quatro anos de relativo sucesso económico não parece preparada para gerir o novo normal de uma súbita recessão, nem sequer preocupada em substituir a tagarelice política pela liderança que o momento impõe.

Nas vésperas de um novo Eurogrupo, depois da Alemanha lhe ter retirado o apoio para um segundo mandato, o ministro português dispensava uma nova fragilização interna (os mercados são globais e sabem quando um ministro das Finanças fica de repente “por um fio” no seu próprio país).

Os políticos portugueses podiam ter escolhido melhor o dia para encenar a crise e fazer-nos perder a Todos. A começar no povo, sem paciência para continuar a salvar bancos quando não há dinheiro para o essencial.

Senão vejamos:

1 - Mário Centeno

Começou bem o dia desmascarando a estratégia de Costa e não deixando colar a ideia de que o primeiro-ministro tinha tido “o azar” de ser enganado pelo ministro das Finanças. Centeno readmitiu que a atualização da ficha de informação que Costa usou durante o debate quinzenal para orientar a resposta sobre o tema estava desactualizada, assumiu essa culpa, mas ficou por aí.

Depois contra-atacou: o Ministério das Finanças não agiu à revelia do primeiro-ministro. Primeiro não podia (o empréstimo teve de ser autorizado pelo Conselho de Ministros e, logo aí, Costa teve de saber), depois, a data limite da transferência era clara: 6 de maio. Ou seja, o próprio dia do debate quinzenal.

Por último, e mais importante, a verba para o Novo Banco estava prevista já no Orçamento (600 milhões no mínimo!) e o contrato de venda fixava um máximo anual de 850 milhões, e o Orçamento aprovado incluía também essa folga.

Por último, o ministro fez questão de voltar a frisar que a auditoria imposta pelo próprio Ministério das Finanças, e a pedido do Presidente da República, na sequência do excesso de prejuízos de 2018, nunca poderia violar o contrato que concedia aos americanos da Lone Stars a possibilidade de recorrer a transferências do Fundo de Resolução até 3,9 mil milhões num prazo de oito anos (até 2025). Isto, caso se provasse que os ativos tóxicos estavam sub-avaliados na altura da venda dos 75% do banco ao Fundo comprador. Como, se sabia que muito provavelmente estavam.

Centeno fez questão de salientar que a lei 15 de 2019 não implicava nenhuma condicionalidade dos montantes acordados, nem se podia utilizar para esse fim. No fundo pretendia-se apenas apurar se a estratégia dos americanos era conseguir limpar o banco à custa dos contribuintes, desencantando a uma velocidade assustadora todo o tipo de créditos malparados, levando-os quanto antes, todos a prejuízos. Daí a nova auditoria, encomendada à Delloite, servia para calar os protestos da opinião pública sendo tão inútil que tem por base avaliar 18 anos de gestão dos quais apenas interessa o último.

Centeno exagerou mesmo “um bocadinho” quando disse que as promessas de Costa eram “irresponsáveis” porque nunca poderia usar a auditoria, prevista para maio, como argumento para retardar a transferência contratualmente inadiável e cujo prazo limite para pagamento era 6 de maio. Isso, segundo Centeno, juntaria à pandemia uma crise bancária. Toda a razão.

Percebe-se, também, que Centeno tivesse querido encenar por último o “clímax” da crise.

Marcelo puxou-lhe o tapete, na esperança que Costa também se desequilibrasse num mundo de contradições denunciadas pelo próprio ministro das Finanças.

Mariana Mortágua, que desde o início da “Geringonça” sempre quis candidatar-se ao lugar, falou de “demissão em direto” perante o choque de versões com Costa. E, Rui Rio saiu da quarentena para exigir de uma forma mais ou menos “fofinha” a sua cabeça.

Como já perdeu a hipótese de rumar ao segundo mandato no Eurogrupo e estão em crescendo as vozes que consideram um escândalo que rume ao Banco de Portugal em voo direto das Finanças, Centeno fez por último constar que se ia demitir e rumou a São Bento.

Não ganhou a guerra, mas venceu a batalha. Saiu na mesma, a prazo, entre sorrisos cúmplices com Costa, mas com fama de ter “concedido” à causa pública governamental mais dois meses da sua vida profissional. Depois, como já se sabia deixa-se de maçadas e leva no currículo todas as conquistas (incluindo o único excedente da democracia) com a grande vantagem de não ter de lidar com a crise.

Resultado: Ganhou a Marcelo que, esta quinta-feira de manhã, lá teve de fazer uma notinha a explicar que nunca pretendeu imiscuir-se nas questões internas do Governo, nem tinha pedido a sua cabeça, e embora mantivesse que “politicamente” uma auditoria sempre legitimaria melhor a transferência, a sua actuação não foi um puxão de orelhas, mas um equívoco.

Ganhou a Costa forçado a reconhecer que não só lhe tinha sido leal como o Governo continuava a precisar mais dele do que de Siza Vieira. E no entretanto empatou os comentadores até perto da meia noite, empenhados na maioria a descartá-lo rapidamente. Pelo meio, colocou Rio mais uma vez fora de jogo.

2 - Oposição

Rui Rio: Entrou tarde em todos os jogos e não ganhou nenhum, o que aliás não o deve preocupar. Resistiu tanto a apoiar Marcelo que agora só pode ir atrás de Costa. Se tinha ideia de apresentar alternativas, agora são inúteis. Pediu a cabeça de Centeno tarde demais e quando a procissão já estava a sair do adro em direção a São Bento, de onde Centeno saiu reconfirmado como ministro. Esteve quase a perder por falta de comparência, mas acabou com falta de atraso.

Bloco de Esquerda: Fez bem em insistir, porque Costa não pode achar-se inimputável perante o Parlamento. Embora, sabendo que uma crise bancária a somar à pandemia era simples loucura e nada havia a fazer em relação ao novo banco. Praticou o mini-terrorismo em que Mariana Mortágua é perita, “acusando Mourinho Félix” de estar a demitir-se com Centeno em direto”, mas a permanência de Centeno estragou-lhe o dia que tinha corrido menos mal.

3 - António Costa

Quando percebeu que Centeno estava pronto a puxar-lhe o tapete colocando a descoberto uma versão totalmente inverosímil, desviou para canto e lançou, em plena visita à Autoeuropa, a recandidatura de Marcelo, oferecendo-lhe o seu apoio, dando-o como antecipadamente vencedor, sem sequer margem para dúvidas.

De uma cajadada tentou mudar a agenda e retirar Ana Gomes de jogo, como ela aliás já tinha previsto. Esqueceu-se que os tempos não são favoráveis à pequena política.

Marcelo, fiel a si mesmo, não enjeitou o apoio, louvou o excelente trabalho de equipa com o Governo “para continuar” e deu-lhe um inesperado elogio que, ao retirar margem a Centeno, voltou a repor o Novo Banco no topo da actualidade e se transformou num “piparote” ao primeiro-ministro. O pior é que os media, focados em Centeno, leram nas palavras do Presidente um puxão de orelhas ao ministro.

Nesta questão, disse o Presidente, não era irrelevante o timing da auditoria. Era, como António Costa disse no Parlamento, “politicamente importante” que a transferência só ocorresse depois de conhecido o resultado. Costa teve de tomar a declaração como elogio e enfrentar o embate. Se o prazo legal acabava naquele dia e a auditoria não tinha chegado, restava explicar o facto, não prometer o impossível.

Até porque Costa tinha garantido, num debate quinzenal em final de abril (quando a auditoria da Delloite ao Novo Banco encomendada o ano passado estava ainda prevista para início de maio) que não seguiria dinheiro para o Novo Banco, sem que esta fosse do conhecimento dos portugueses. Na altura a promessa era possível e, mesmo que fosse inútil, era “politicamente diferente”, como lembrou Marcelo.

No debate seguinte repetiu o mesmo para descansar o Bloco, mas foi aparentemente surpreendido pela transferência feita no dia anterior e achou, erradamente, que bastava pedir desculpas ao Bloco e atirar as culpas para Centeno para se livrar do caso. Não livrou.

É crível que não soubesse que a data expirava naquele dia, mas é inadmissível que não soubesse que a transferência era inevitável.

Pelo meio S. Bento ainda quis vender a tese de que havia uma confusão de “auditorias”, coisa que a nota de ontem à noite voltava a referir. Mas a desculpa não colou. A transferência foi precedida pela auditoria do auditor externo do Banco, a Ernest&Young, e alvo dos pareceres, do BCE e da Comissão de Acompanhamento do Fundo de Resolução). A pergunta não era sobre elas e a resposta também não.

Para não ser desautorizado pelo ministro lá teve de o receber à noite e fazer um comunicado a dizer que a reunião era para preparar o Eurogrupo e o Orçamento Suplementar, mas de caminho a questão da falha de informação (tese de Centeno) estava esclarecida e a confiança em Centeno era pessoal e politicamente reafirmada.

Resumindo: Costa marcou apenas um golo a Rui Rio na questão Marcelo, mas sofreu golos de Centeno e do próprio Presidente.

Acabou por enfrentar a falta de paciência de Centeno que o fez, para cúmulo, perder horas de sono e a ter de lhe dar razão.

4 - Marcelo

Ganharia o dia enquanto comentador, mas foi forçado a ligar a Centeno esta manhã evitando mais equívocos logo que se deu conta de que a visão presidencial foi demasiado cúmplice com Costa.

Não precisou de ser candidato para já ter 70% garantido. Arranjou um sarilho ao Governo e à oposição, que irritou duplamente ao salientar como a vida lhe corre bem com Costa. Pelo caminho deu azo à percepção de que estava a puxar mais uma vez as orelhas ao ministro, que já desde os tempos do caso CGD (com a farsa de nomeação falhada de António Rodrigues) lhe tem merecido reparos.

Como Presidente pode ter arriscado afastar ainda mais a direita da direita, empurrando-a para os braços de Ventura, o que também não é bom para ele. Tão boa relação com o PS pode ser ainda mais tóxica do que a fria relação com Rui Rio.

Resumindo: empatou o jogo político mais um dia e teve que voltar a terreno para o remarcar.

E os portugueses?

Só perceberam que o Estado entrou com mais 850 milhões para salvar um banco detido por um fundo “abutre” norte-americano.

Como se isto não bastasse passaram o dia a lembrar-lhe que o buraco do Novo Banco não vai ficar por aqui. No momento em que não há dinheiro para nada e alguns já tem fome. Mostraram-lhe a política, no seu pior, exactamente quando precisam de confiança , liderança e grandeza. Não havia necessidade.

Comentários
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  • César Saraiva
    15 mai, 2020 Maia 09:02
    Realmente não havia necessidade dessa trapalhada toda, sobretudo para Rui Rio, que para além de chegar tarde, ainda levou uma estalada de luva branca do primeiro-ministro - que renovou a sua total confiança no ministro das finanças. Felizmente que temos a Graça Franco - que nos explica tudo muito bem, direitinho, e assim já não levamos com a areia que nos queriam atirar para os olhos. Bem-Haja e muito obrigado!
  • Adélio Pequenino
    14 mai, 2020 Terras da Vernária 22:26
    O Senhor Marcelo diz ser muito católico mas vai à missa só para inglês ver. O que ouve dentro do templo não traz nada para fora. Esquece. Eis " uma "das muitas recomendações de Jesus Cristo: não aceites presentes. Eles corrompem. Ora, o Diabo António Costa, logo apôs a Presidenciais, convidou - o para uma banquete. Empadão de atum e vinho mistificado anestesiou o cérebro de Marcelo . O homem não sabe onde está. Jesus Cristo disse: os filhos das trevas são mais astutos do que os filhos da luz. Ai dos bruxos. Ai dos feiticeiros… Boa noite.
  • Maria Oliveira
    14 mai, 2020 21:57
    Aprecio e respeito a Dra. Graça Franco no que conheço, que é a sua actividade como jornalista. Não concordo com muito do que refere neste artigo. Em primeiro lugar, com a afirmação dos "quatro anos de relativo sucesso económico". Não há qualquer sucesso. A economia portuguesa cresceu anemicamente "à boleia" do turismo. O Governo não fez uma única reforma para pôr a economia a crescer. Apoiado pelo PC e pelo BE teve de fazer as cedências necessárias para AC poder ser e manter-se como primeiro-ministro. Estranhamente, aqueles partidos colaboraram na penúria do SNS e da Educação, porque o investimento público nesses sectores desceu ao mínimo. Aumentaram os impostos e estamos com a maior carga fiscal de que há memória. E assim se apresentaram défices baixos para Bruxelas ver ... No entanto, não se criou riqueza. O turismo está aqui hoje e amanhã noutro lugar. Não há nada de estrutural que nos permita encarar o futuro com optimismo. Tratou-se apenas de gerir acordos para a manutenção do poder e a "compra" de votos do costume. Nada mais do que isso. Quanto ao folhetim Novo Banco, AC, Centeno e PR, não merece grande análise: a hipocrisia habitual, os jogos de poder com o sobe e desce das sondagens s/ popularidade e a actuação deplorável de todos. Triste País este com tais dirigentes, a começar pelo PR.