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Entrevista a Cláudio Sunkel, diretor do I3S

Reabrir a sociedade vai reforçar imunidade de grupo. “Ou morremos da cura ou conseguimos sobreviver”

30 abr, 2020 - 08:20 • André Rodrigues

O desconfinamento é um teste carregado de interrogações e receios, com vários especialistas a admitir que os casos de infeção podem disparar em maio. E se isso facilitar a imunidade comunitária? Avanço ou retrocesso? "Vamos ter de continuar a permitir que algumas pessoas sejam infetadas. É a única estratégia possível, neste momento", diz Cláudio Sunkel, especialista em biologia molecular e diretor do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (I3S). Apesar de ainda desconhecermos muito sobre este vírus, Sunkel diz-se "otimista".

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Reabrir a sociedade vai reforçar imunidade de grupo. “Ou morremos da cura ou conseguimos sobreviver”
Reabrir a sociedade vai reforçar imunidade de grupo. “Ou morremos da cura ou conseguimos sobreviver”

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Na contagem decrescente para o fim do estado de emergência, o país prepara-se para entrar na semana do regresso à normalidade possível para já.

A curva epidemiológica ainda não foi esmagada, mas apresenta uma tendência de descida. Ainda assim, o desconfinamento é um teste carregado de interrogações e receios, com vários especialistas a admitir que os casos de infeção podem disparar em maio na sequência da reabertura gradual da economia.

E se isso facilitar a imunidade comunitária? Foi essa pergunta que a Renascença fez ao diretor do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (I3S), ponto de partida para uma entrevista em que Cláudio Sunkel diz que esta "é a única estratégia possível".

A alternativa, refere o especialista, "é tentar esmagar a curva o máximo possível, de forma a que mais ninguém seja infetado, mas isso implicaria fechar completamente o país”.

Mais do que estados de emergência ou confinamentos forçados, Sunkel apela ao bom senso e à responsabilidade de cada um, até porque “vamos ter de nos habituar a conviver com o vírus durante um tempo que vai ser longo” e “sem a responsabilização das pessoas, isto também não faz muito sentido”.

A vacina é a meta e a garantia de uma normalidade mais tranquila, ainda sem data. “No melhor dos cenários, poderemos estar a testar vacinas no início do próximo ano. Mas, nessa altura, ainda não sabemos se serão eficazes ou não.”

Em que fase da pandemia estamos?

Olhando para os dados dos novos casos de infeção, parece-me que estamos naquela fase em que achatámos a curva epidemiológica, com uma ligeira tendência para descer.

Essa tendência de descida vê-se de há uma semana e meia para cá. Mas é uma descida um bocado esquisita, ora sobe, ora desce, mas vai abrandando, pouco a pouco.

Depois, se olharmos para o número de infetados hospitalizados, também vemos uma descida e, finalmente, há um número que, para mim, é dos mais interessantes: o número de pessoas em cuidados intensivos tem vindo a descer constantemente, o que quer dizer que, no número de infetados que aparece, são cada vez menos aqueles que apresentam sintomas muito graves da doença.

Por isso, no seu conjunto, todos os números parecem sugerir que estamos a avançar, lentamente, para um cenário de epidemia controlada.

Por outro lado, o R0, que é o número que determina quantas infeções ocorrem por pessoa portadora da doença, está à volta de 1, o que significa que cada pessoa infetada infeta uma pessoa, no máximo.

Esse é um indicador suficientemente satisfatório para que possamos projetar o regresso à normalidade no início de maio?

Não sendo a epidemiologia a minha área fundamental de investigação, acho que estamos num momento em que temos capacidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS), temos a infeção bastante controlada, temos o número de infetados a descer lentamente, numa descida que me parece consistente.

Portanto, temos duas opções: ou continuamos fechados e esperamos que isto desça ainda mais - as recomendações vão no sentido de que o número de infeções por infetado à volta de 1, ou se for possível abaixo disso, permitiria uma reabertura com mais confiança...

... mas não seria mais prudente esperar até atingir o índice R0,7, que foi, aliás, o número que o Governo apontou, há duas semanas, para um regresso à normalidade possível?

Penso que, apesar de não estarmos exatamente na mesma situação de outros países - o índice R0,7 foi aquele com que a Noruega regressou à normalidade possível - a situação em Portugal está bastante controlada e permitiria uma certa reabertura.

Julgo que não podemos deixar de monitorizar os números nem a resposta, à medida que se for reabrindo atividades.

O problema é que isto só se vai ver daqui a duas semanas, não é algo que acontece de forma imediata. Se reabrirmos no início da próxima semana, depois teremos duas semanas para avaliar o efeito dessa abertura.

Com o que sabemos, nesta altura, sobre a Covid-19, sabemos o suficiente para termos a certeza de que esta reabertura não nos conduzirá a um cenário em que maio se torna um mês de retrocesso?

É verdade que corremos esse risco, mas precisamos de tempo para perceber se isso vai mesmo acontecer.

Quero, contudo, sublinhar que a taxa de mortalidade em Portugal mantém-se muito baixa, se compararmos com outros países, como a Suécia, por exemplo, que tem uma taxa de mortalidade entre infetados três vezes superior à nossa.

Temos de ponderar entre o risco e o benefício da abertura e a questão da economia é muito complexa. Temos muita gente em "lay-off", gente que perdeu o emprego e, portanto, há que ponderar também se essas pessoas se podem manter nessa situação durante muito mais tempo.

Agora, não podemos entrar numa situação como a que aconteceu no Brasil, em que o Presidente Bolsonaro admitiu que vai haver mortes e a culpa não é dele. Claro que isso não é forma de atuar.

"Ainda não temos vacina nem atingimos os 70% de imunidade comunitária. Isso significa que todos temos de ter uma forma responsável de estar nos próximos meses"

Temos de proteger o máximo possível, conhecendo o risco e avaliando-o de forma permanente. Se tivermos de voltar a um certo confinamento daqui a duas semanas, vai-se voltar.

Diria, por isso, que o mais importante é que a população portuguesa perceba que o facto de não haver este confinamento tão estrito, como até agora, não significa uma abertura total. Significa que, se calhar, vai haver mais pessoas a regressar ao trabalho, mas teremos de manter uma forma de estar um bocadinho diferente.

As pessoas estão, necessariamente, obrigadas a reforçar o seu comportamento responsável.

Exatamente. Aliás, sem a responsabilização das pessoas, isto também não faz muito sentido. Por enquanto, ainda não temos vacina, ainda não atingimos os 70% de imunidade comunitária. Isso significa que todos nós temos de ter uma forma responsável de estar nos próximos meses.

Vai ser uma alteração bastante significativa nas nossas vidas, mas é melhor essa alteração com responsabilidade que nos permita um pouco mais de abertura. Já vamos para a sexta semana de confinamento e há pessoas que já contam os dias em que estão sozinhas em casa. Eu próprio conheço uma pessoa que lamenta o facto de estar há 52 dias em casa. São situações muito complexas que também é preciso ponderar.

Agora, esta ponderação do risco e da necessidade de aumentar a imunidade, enquanto não há uma vacina, tem de ser feita evitando o maior número de óbitos.

Pensando num hipotético cenário de retrocesso, com mais infeções em maio, isso poderá, no limite, favorecer a imunidade de grupo? A par da intenção de retomar a economia, essa lógica, de um ponto de vista sanitário, estará também presente no pensamento e na atuação do Governo?

A mim, parece-me óbvio que estratégia é tentar manter o nível de infeção que temos no presente, permitindo um aumento muito gradual.

Neste momento, em Portugal, temos cerca de 25 mil infetados, de acordo com os dados oficiais. Mas se pegarmos nos cálculos que são feitos, por exemplo, nos Estados Unidos, o número real de infeções deverá ser 10 vezes superior. Portanto, teremos 250 mil infetados que, apesar de tudo, representam um nível de infeção que ainda é relativamente baixo, considerando o total da população portuguesa.

Por isso, vamos ter de, lentamente, continuar a permitir que algumas pessoas sejam infetadas, mas que esse número seja controlado, porque é a única forma de ganhar imunidade comunitária, que é a única forma que teremos para lidar com o vírus, caso não seja possível encontrar uma vacina que nos permita avançar com essa imunidade de uma forma ainda mais rápida.

Mas convirá que é uma estratégia arriscada.

Mas é a única estratégia possível, neste momento. A outra estratégia que podíamos seguir era tentar esmagar a curva o máximo possível, de forma que mais ninguém seja infetado, mas isso implicaria fechar completamente o país.

A única coisa que é efetiva neste momento é evitar que as pessoas se encontrem umas com as outras, porque o vírus propaga-se através do contacto social. Portanto, ou morremos da cura ou conseguimos sobreviver.

Muito mais arriscado seria dizer que vamos tentar obter imunidade de grupo o mais rápido possível, porque isso significaria um aumento muito exponencial no número de óbitos, que foi o que aconteceu por exemplo na Suécia. Eles estão a tentar atingir uma imunidade comunitária mais rapidamente, permitindo o contacto social de uma forma mais alargada, mas eles têm o triplo das mortes de Portugal.

Parece-me um pouco irresponsável tomar uma decisão desse tipo quando é possível evitar três vezes mais o número de óbitos. Por isso, creio que estamos a proteger, na medida do possível, as pessoas, sobretudo, as pessoas idosas, mais suscetíveis de doença.

Por isso, sim, é arriscado mas, no final de contas, vamos ter de conviver com o vírus, mantendo o mínimo possível de óbitos, mantendo a taxa de infeção de tal maneira que comecemos a ganhar algum grau de imunidade comunitária, porque, não havendo vacina em breve, este é um processo, a meu ver, inevitável e que pode ser longo.

"Devemos manter as populações de risco mais protegidas e em segurança, permitindo que aquelas faixas etárias que, à partida, terão capacidade para lidar melhor com a infeção venham a ser infetadas gradualmente sem que se atinja um pico"

Se percebi bem, a lógica de desconfinamento que defende passa pelo regresso à vida normal de crianças, jovens e adultos jovens, mantendo os idosos sob forte recomendação de confinamento?

Basicamente sim, é isso. Há que proteger os que apresentam maior suscetibilidade. Falo de idosos, mas também de pessoas que têm outras doenças do foro pulmonar ou imunitário.

Portanto, devemos manter essas populações mais protegidas e em segurança, permitindo que aquelas faixas etárias que, à partida, terão capacidade para lidar melhor com a infeção venham a ser infetadas gradualmente sem que se atinja um pico.

Isto, porque também temos de pensar na proteção do SNS. Não podemos aumentar o número de forma exponencial, porque o SNS também não terá capacidade para responder.

Se olharmos para o número 4 mil, que é o máximo de camas para a Covid-19, podemos dizer que temos ainda uma margem de cerca de 3 mil camas disponíveis, o que é muito bom e quer dizer que o sistema ainda consegue e conseguirá responder, mesmo que se observe um ligeiro aumento no número de infetados e, portanto, sabemos que vamos evoluir a diferentes velocidades, a nível regional, e, de certeza, mantendo mais protegida aquela população mais vulnerável aos efeitos da doença.

Os médicos da linha da frente, designadamente os de cuidados intensivos, avisam que, em caso de retrocesso, durante o mês de maio, arriscamos um número elevado de mortes, não apenas entre os mais idosos.

Quando se sugere um aumento controlado do número de infeções, por via do desconfinamento de faixas etárias mais jovens, isso implica, apesar de tudo, um risco de aumento da mortalidade.

Correr esse risco é mesmo a única hipótese que temos?

Devemos pôr isto em perspetiva. Repare que, todos os anos, 0,1% das pessoas que são infetadas acabam por morrer e nós aprendemos a viver com essa inevitabilidade.

Temos um vírus novo em que, em princípio, a verdadeira taxa de mortalidade por infetado é, globalmente, de 0,6%, portanto, seis vezes superior. Isto diz-nos que o vírus é mais agressivo do que os vírus da gripe que, normalmente, temos todos os anos.

Será que podemos achatar esse número ainda mais, de forma a que comece a ficar cada vez mais perto da taxa de mortalidade natural que existe todos os anos? Eu acho que esse é que é o objetivo.

Eu entendo que o número de óbitos mexe imenso com as pessoas e julgo que esse é o elemento que nos deve pautar, neste momento. Não é inevitável que a taxa de mortalidade seja de 0,6%, como referem alguns modelos.

Mas, para isso, é preciso fazer algum confinamento e medidas que façam mitigação, que permitam às pessoas um regresso ao trabalho e às suas vidas normais, mas em condições bastante mais restritivas.

Portanto, temos de jogar com estes dois fatores. Não podemos manter-nos completamente fechados, não podemos manter-nos completamente abertos e temos de lidar com o facto de que esta é uma doença que tem uma taxa de mortalidade conhecida, mas que queremos que seja a menor possível.

Na minha opinião, é a única forma de encararmos isto para o futuro.

Nesse cenário, o uso da máscara individual deve ser obrigatório?

Claramente que sim. Se eu vou ao supermercado, ou a uma farmácia, levo a máscara. Vai tornar-se uma constante nas situações de trabalho e nas situações sociais que impliquem contacto humano. Se eu estou infetado, e não sei, a máscara impede que as gotículas que estou a expelir durante a conversação se espalhem.

Mas devemos interiorizar esta ideia: o inimigo não sou eu nem é a pessoa que está à minha frente. O inimigo é o vírus, que é uma entidade que tem de infetar células para se reproduzir. Não o faz por bem nem por mal, é a natureza dele.

Na China, apareceram casos de reinfeção por Covid-19, em alguns casos, mais de dois meses depois do último teste negativo.

É razoável adotar estratégias de desconfinamento para facilitar a imunidade de grupo quando, depois, se percebe que o risco de voltar a contrair a doença persiste?

A resposta a isso é uma incógnita, não sabemos. Os casos que têm sido reportados na China, pelo que tenho visto, são relativamente reduzidos. Tem havido alguns casos de pessoas reinfetadas que deram negativo anteriormente.

E isto podem ser muitas coisas. Pode ser que os primeiros testes não tenham sido bem feitos e as pessoas, de facto, eram negativas em vez de serem positivas. Nesses casos, não estamos perante uma reinfeção, mas sim perante a primeira infeção.

Se não for esse o caso e, se isto começa a ser observado de forma mais generalizada, isso já quer dizer que os anticorpos que produzimos para lidar com o vírus não nos permitem ganhar imunidade ao longo do tempo, o que significaria que o sistema imunitário das pessoas que têm essa resposta não conseguiu lidar com a doença no sentido de neutralizar o vírus ao longo do tempo.

Se os números forem muito significativos e começarmos a ver, em Espanha ou em Itália, pessoas que estiveram positivas, que recuperaram e que, agora, dois ou três meses depois, começam a ser reinfetadas, quer dizer que o nosso sistema imunitário não cria memória que permita lidar com o vírus de uma forma eficaz.

Isso é um facto ou é uma possibilidade?

Temos de ver os números. Na China há um problema com os números, porque não sabemos os números exatos, há alguma variabilidade, tem havido várias correções nos números, não há briefings diários que atualizem os dados.

E, para avaliar essa situação, teríamos de analisar dados de países onde essa informação é muito mais aberta, muito mais clara e onde as pessoas são seguidas de uma forma muito mais sistemática e com equipas de investigação que acompanhem esse trabalho. Só em casos assim seria possível determinar se estamos perante uma situação em que as pessoas, mesmo que tenham sido infetadas, voltam a contrair a doença.

Se, um dia, isso se vier a verificar, a situação torna-se muito complexa, porque, nesse caso, significaria que a tal imunidade de grupo que se pretende obter, se calhar, nunca seria obtida, porque, se as pessoas que são infetadas, estiverem em contacto com o vírus, meses depois, voltam a ser infetadas.

Noutro plano, muito se tem falado de testes, sobretudo pensando na necessidade de rastrear populações de risco - por exemplo, nos lares de idosos - ou mais expostas aos riscos, como são os profissionais de saúde, forças de segurança e proteção civil.

Mas há diferentes tipos de testes. Ouvimos falar de testes moleculares e testes serológicos, qual a diferença entre uns e outros?

O teste molecular é aquele que determina se a pessoa tem ou não tem o vírus. Este tipo de teste identifica, isola e amplifica o genoma do vírus, utilizando a chamada tecnologia PCR In Real Time, que é bastante sensível.

Em 300 testes diários, temos quatro ou cinco indeterminados. Nesses indeterminados, o nível de vírus é tão baixo que não conseguimos ter a certeza se ele está lá ou não.

Ou seja, só se tem a certeza da presença do vírus se ele conseguir replicar-se?

Precisamente, o que atesta a extrema sensibilidade do teste. Quanto maior for a carga viral, mais claro se torna o resultado do teste.

E os testes serológicos?

Aí fazemos uma colheita de sangue que vai determinar se temos anticorpos que reconhecem o vírus e que estão a circular na nossa corrente sanguínea.

Há dois tipos de testes serológicos. Uns que se fazem em laboratório e que têm grande sensibilidade e uma capacidade muito alta de dar uma resposta correta. Os outros, os testes rápidos, são uma espécie de cassete onde se coloca uma gota de sangue. Como têm uma sensibilidade menor, têm menor capacidade de detetar a presença de anticorpos.

Qual é a percentagem de sensibilidade/fiabilidade destes testes?

À volta de 90%. Ou seja, se considerarmos 100 casos, poderemos ter 10 positivos que não são descobertos, ou que são negativos e podem aparecer como parcialmente positivos.

Apesar disso, esses testes serológicos rápidos dão-nos a possibilidade de ter uma ideia global, dentro da população, do número de pessoas que teve contacto com o vírus e desenvolveu anticorpos.

Há dois ou três ensaios, um deles no estado de Nova Iorque, com mais de 3 mil pessoas, que indicava que 20% da população já teve contacto com o vírus e desenvolveu anticorpos, um número que é muito superior ao número de infetados. Ou seja, são pessoas que tiveram contacto com o vírus, esse contacto, em muitos casos, não trouxe sintomatologia grave. Isso serve-nos para determinar a taxa de infeção, a taxa de mortalidade do vírus.

Portanto, julgo que estamos a chegar a um momento em que os testes serológicos podem dar-nos informação complementar, através da comparação dos testes moleculares com os testes serológicos.

Obviamente que a soma dos dois testes vai dar-nos uma fiabilidade maior quanto à capacidade de resposta das pessoas e da sua classificação como infetadas ou não infetadas. Por isso, diria que os testes serológicos são interessantes e são importantes para termos uma melhor noção do número de pessoas que contactaram com Covid-19.

O inconveniente é que eles não nos dizem se essas pessoas podem - ou não - voltar a ser infetadas, tampouco nos dizem se os anticorpos que a pessoa desenvolveu vão impedir uma nova infeção.

"Tenho a certeza de que as empresas que desenvolvem estes testes estão a trabalhar arduamente para ganhar o mercado e isso só acontecerá se, por um lado, reduzirem os custos e, por outro lado, reduzirem o tempo de resultados. Mas vai ser uma despesa que o SNS vai ter durante um tempo bastante significativo"

Ou seja, para si a ideia de um certificado de imunidade é, potencialmente, bastante falível.

Eu creio, até, que não há nenhum cientista minimamente credível que possa dizer que é possível fazer isso, porque nós não sabemos se o facto de ter anticorpos contra o vírus torna a pessoa imune, impedindo uma futura infeção.

São incógnitas que, neste momento, não conseguimos descodificar.

O Hospital de São João, no Porto, já começou a realizar testes moleculares rápidos para diagnosticar, em menos de uma hora, casos de infeção por Covid-19. Qual a fiabilidade dos resultados?

As publicações científicas sobre essa modalidade de testes só apareceram muito recentemente. Ou seja, estamos a falar de testes moleculares, pouco massificados, sobre os quais ainda pouco se sabe. O que se sabe, sim, é que eles detetam a presença do vírus de uma forma muito rápida. Mas pouco mais.

Em termos de custos, estamos a falar de equipamentos dispendiosos. Atendendo à potencial falibilidade, sobretudo destes testes rápidos, à necessidade de poderem ser repetidos uma ou mais vezes, acredita que a indústria, os laboratórios, terão escrúpulo suficiente para não cederem à tentação de transformar esta pandemia numa boa oportunidade de negócio?

É muito difícil responder a essa pergunta. Neste momento, temos três grandes entidades a fazer testes: os laboratórios hospitalares, os laboratórios privados e a comunidade científica. Aliás, neste momento, a comunidade científica está com uma capacidade muito significativa de contribuição de testes ao nível nacional.

Os preços variam desde os 80 a 90 euros nos privados até aos preços que são praticados nos laboratórios de investigação, nos quais a única coisa que é cobrada é o custo dos reagentes, logo, são muito mais baratos. Mas, sim, é uma grande despesa que já está a ser feita, porque os ministérios já perceberam que é necessária.

Estamos a falar de mínimos de 35 euros por teste. Se testarmos centenas de milhar de pessoas, é muito dinheiro. Portanto, é provável que, se este ritmo de 10 mil testes diários se mantiver, é só fazer a multiplicação e vemos o custo muito significativo que isto terá para o SNS.

O SNS pode, no limite, ficar refém dos laboratórios, por necessidade imperiosa de testar, testar, testar?

Voltamos à questão do risco. Eu acho que temos de investir na saúde das pessoas. É preciso fazer isso, independentemente dos custos, não temos alternativa.

Temos é de procurar fazer isso da forma mais barata possível, ver quais são os últimos desenvolvimentos, poderá haver testes mais simples no futuro.

Tenho a certeza de que as empresas que desenvolvem estes testes estão a trabalhar arduamente para ganhar o mercado e isso só acontecerá se, por um lado, reduzirem os custos e, por outro lado, reduzirem o tempo de resultados. Mas vai ser uma despesa que o SNS vai ter durante um tempo bastante significativo.

Quanto tempo e quanto dinheiro, consegue estimar?

Diria que, pelo menos, até haver uma vacina. Lembre-se que os testes moleculares dão-nos uma fotografia do momento. Uma pessoa que testa negativo, testa negativo naquele momento. Isso não significa que, 10 dias depois, não esteja infetada. Isso quer dizer que vamos ter testes regulares a pessoas que não têm qualquer sintoma para assegurar que não estão infetadas.

Se a vacina chegar daqui a seis meses, pelo menos até essa data vai haver milhares de testes a serem realizados. Estamos sempre a falar de muitos milhões de euros na realização regular de testes ao longo tempo.

No caso do I3S, já nos estamos a preparar para que a atividade de testes que estamos a realizar continue durante muito tempo. Para não assustar os investigadores, prefiro dizer isto de forma pausada. Por isso, digo que, pelo menos, até setembro vamos testar. Só que, sendo realista, vamos testar até ao fim do ano ou, se calhar, vai tornar-se uma atividade regular do instituto nos próximos seis ou oito meses.

A 31 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertava para fraudes com diagnósticos in vitro para a Covid-19. Isto significa que corremos o risco de estar a trabalhar com equipamentos falsificados?

Creio que não. Eu julgo que esse alerta da OMS vai no sentido de identificar kits de testes serológicos que são muito pouco fiáveis. Aliás, Espanha teve essa situação, encomendaram kits que não foi possível utilizar.

E em Portugal, existe esse problema?

Acho que o Infarmed está a fazer um trabalho muito meticuloso. Os diferentes kits estão a ser alvo de intenso estudo, sobretudo ao nível dos resultados que estão a ter noutros países. Penso que isso está acautelado, porque, na minha opinião, Portugal tem um sistema de saúde que, desde a legislação ao controlo, está muito bem estruturado.

Os kits que utilizamos têm uma fiabilidade entre os 98% e os 99%. Sabendo o Infarmed que os testes têm essa capacidade, não correremos esse risco. Mas o problema pode, também, ter sido outro. Pode acontecer que o teste serológico tenha sido utilizado como se fosse molecular. Ou seja, fazer-se um teste serológico sem, antes, saber se a pessoa contactou com o vírus.

É o que está a acontecer no Brasil, mas isso não é um teste diagnóstico, logo não permite dizer se a pessoa está infetada.

Esse teste, insisto, só permite determinar se essa pessoa teve o vírus em algum momento, não permite fazer uma despistagem a priori.

A vacina é a grande esperança para o controlo da doença. Admite que venha a ser administrada com periodicidade idêntica à da gripe, ano a ano, ou uma dose será suficiente?

Só poderemos saber isso quando se fizer a sequência do material genético do vírus, para determinar, exatamente, a taxa de alteração.

No caso do vírus Influenza, temos de tomar vacinas anuais, porque o material genético do vírus está em constante mutação e os anticorpos que criamos no espaço de um ano podem ser ineficazes no ano seguinte, porque o novo vírus pode ter alterações no seu material genético e produz proteínas que são ligeiramente diferentes e, nesse caso, o nosso sistema imunitário não estará preparado para o vírus, daí a necessidade de termos esta vacina anual.

No caso da Covid-19, os resultados são bastante claros. Há 11 tipos diferentes e, desses 11 tipos diferentes, há um que aparenta ser o mais disseminado em todas as regiões do mundo.

Isto significa que a taxa de mutação do genoma do vírus é muito baixa. Sendo assim, isso significa que o vírus não é suscetível de grandes mutações. Agora, a questão-chave é encontrar uma vacina que seja capaz de promover no nosso corpo o desenvolvimento de uma imunidade que controle a infeção.

Neste momento, estão a ser testadas mais de 50 vacinas que utilizam diferentes componentes do vírus - vírus atenuados ou vacinas de engenharia genética - e, nesses estudos, ainda não sabemos se os anticorpos que produzimos contra o vírus são capazes de neutralizá-lo. É isso que precisamos de saber, neste momento.

O grande problema é que não há um controlo positivo que permita determinar que estes anticorpos neutralizam o vírus e, por isso, vamos testar a vacina em função destes anticorpos.

Portanto, os cientistas que estão a desenvolver a vacina estão com imensas incógnitas. Qual é a taxa de proteção que a vacina confere? Por quanto tempo? E, se há pessoas que são reinfetadas, num processo que pode ir até aos seis meses, isso significa que os estudos para a vacina deviam ser prolongados durante seis meses a um ano, para perceber se a vacina é ou não eficaz.

São demasiadas incógnitas, porque estamos perante um vírus atípico, que tem um genoma diferente dos outros coronavírus que foram identificados.

Não sendo um coronavírus tão mortífero como o SARS-1 ou como o MERS - que foram mais localizados geograficamente, mas tiveram uma taxa de mortalidade superior - parece ser bastante resistente em termos da sua capacidade de se manter em superfícies e a sua capacidade de transmissão é maior.

No melhor dos cenários, quando teremos vacina?

No melhor dos cenários, poderemos estar a testar vacinas no início do próximo ano. Nessa altura, ainda não sabemos se serão eficazes ou não. Serão necessários, pelo menos, seis meses de período de teste dessas vacinas para perceber se são eficazes na prevenção.

Por outro lado, não devemos esquecer que há sempre a possibilidade de uma vacina poder causar o efeito contrário, aumentando a inflamação do tecido que o vírus afeta e, dessa forma, tornando-se prejudicial para a saúde.

Os laboratórios, as empresas e os grupos de investigação estão a trabalhar e, como digo, há mais de 50 iniciativas diferentes, todas com metodologias ligeiramente diferentes e eu penso que a ciência vai, de certeza, encontrar uma vacina que tem algum grau de proteção e que nos permita retornar a alguma normalidade num prazo que não será, apesar de tudo, muito curto.

Dito isto, estou muito otimista e só posso acreditar que a ciência encontrará uma resposta.

Comentários
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  • 01 mai, 2020 Braga 09:02
    Quando se começa a aceitar que a morte de alguns é justificável para o bem comum... A partir de quantos mortos deixa de ser aceitável? Estamos dispostos a essa medida se fizermos parte do grupo dos que vão morrer?
  • Jose Almeida
    30 abr, 2020 Setúbal 11:13
    gostei. Pertinente e polémica.