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Das cotoveladas (solidárias) de Marcelo a uma avenida sem gente: retratos do 25 de Abril em Lisboa

25 abr, 2020 - 20:25 • Beatriz Lopes (texto e fotos)

Gente não era muita, a pandemia a isso obrigaria, mas houve quem, mais novos ou mais velhos, descesse, pela primeira vez ou como das últimas, a Avenida. Marcelo, o Presidente, saído da Assembleia, foi distribuir refeições pelos sem-abrigo de Lisboa.

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“25 de Abril sempre, fascismo nunca mais! 25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais…” O cântico ainda se chegou a ouvir, tímido, do alto das janelas da sede do PCP, em plena Avenida da Liberdade, mas o silêncio foi quem mais ordenou este ano.

Pela primeira vez em 46 anos, não houve discursos, não houve manifestações, não houve cartazes pela avenida. E a revolução celebrou-se, sobretudo, de parapeito em parapeito, ao som de "Grândola Vila Morena" de Zeca Afonso. Lá em baixo, nas ruas, despontavam mais uniformes azuis da Polícia de Segurança Pública que propriamente gente de cravo na lapela.

E quem aqui vem, porque vem afinal? Alguns, mais velhos, justificavam a necessidade de sair de casa com os males do corpo. "Sou diabético e preciso de esticar as pernas, pelo menos no 25 de Abril", garante um, António. Já os petizes, em família, vieram recordar, na prática, o que aprenderam na escola "Aprendi que neste dia os presos políticos foram todos libertados e houve liberdade para toda a gente falar, porque antes o Salazar não deixava", devolve Miguel à pergunta, montado na bicicleta.

A desfilar sozinho pela avenida, trazendo nos costados desfraldada uma bandeira portuguesa que era maior que ele, Carlos garante que não abdica, nunca abdicou e não vai abdicar, de palmilhar um lugar que lhe deu sustento. “Já é costume desfilar, já. Sabe? Estou revoltado, triste e muito zangado! Trabalhei no hotel Tivoli quase 50 anos, atendi muita gente… E agora vejo esta avenida vazia, está tudo escondido”, lamenta-se.

E prossegue lamentando-se: “Sabe? As pessoas têm que sair de casa. Eu sou da Bairrada e venho aqui todos os anos. Venho sem medos, porque temos de defender a nossa honra, com verdade, com dignidade e com democracia, democracia concreta: Liberdade! Liberdade!”

Insistiam na pergunta. Quase todos sem-abrigo. E insistiam, insistiam, insistiam. Até que de Marcelo se escutasse uma resposta.

– Onde é que vão meter esta gente toda, senhor Presidente? Onde?

Marcelo lá responde.

– Alguns, espero que voltem ao trabalho. Ainda agora estava aqui um que me disse que trabalhava num bar. Espero que voltem ao trabalho…

A insistência tornar-se-ia incómodo.

– Quantas pessoas têm fome aqui em Lisboa? O senhor não tem, pois não?

Marcelo devolve resposta.

– Eu sou privilegiado, de facto…

Quem pergunta duas vezes, pergunta três.

– As pessoas quando têm fome, têm de comer, não é, Presidente?

Marcelo esquivou-se à última.

Depois da cerimónia do 25 de Abril, Marcelo distribuiu refeições a pessoas sem-abrigo
Depois da cerimónia do 25 de Abril, Marcelo distribuiu refeições a pessoas sem-abrigo

Que não foi bem a última. A última foi retórica.

– Isto não é vida para nós! – lamenta alguém, puxando de um saco, farto, mais de lixo que de outra coisa, do que na rua recolheu.

– Pode meter aqui no saco a comida, que aqui cabe tudo. Se cabe tudo na Assembleia da República, aqui também cabe. Não é?

Marcelo, em pandemia, continua (apesar das “bocas” e perguntas incómodas) a ser abordado para tirar uma fotografia aqui, outra mais acolá. Mas em pandemia Marcelo não se aproxima demasiado, selfies nem uma, e afeto só de cotovelos, sem passou-bem.

– Eu sou convidado do Sr. Ministro [da Defesa, João Gomes Cravinho]. Se ele me der autorização para tirar, eu tiro…

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