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Alerta de ONG. Sistema sanitário pode colapsar em Moçambique

23 abr, 2020 - 13:07 • Olímpia Mairos

A tentar reerguer-se da destruição causada pelos furacões Idai e Kenneth, o país enfrenta nova ameaça com a propagação do novo coronavírus.

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A "Ajuda em Ação", uma Organização Não Governamental (ONG) internacional, de origem espanhola com presença em Portugal, está preocupada com a propagação da Covid-19 em Moçambique e alerta para as consequências devastadoras que a pandemia pode ter no país.

Moçambique vive em Estado de emergência, pelo menos, até finais de abril. As escolas e os espaços de diversão foram encerrados, a emissão de vistos para entrada no país suspensa, os eventos proibidos, bem como aglomerações superiores a 20 pessoas, e foram impostos novos limites na lotação de transportes.

O número de casos de infeção pelo novo coronavírus registados oficialmente situa-se nos 41, sem mortes registadas.

“Os números podem não parecer alarmantes”, diz Jesús Palmero, representante da "Ajuda em Ação2 em Moçambique. No entanto, o responsável alerta que “a expansão da Covid-19 pode significar um colapso do sistema sanitário, devido às suas numerosas carências e dificultar o acesso a serviços básicos, num momento em que existem outras doenças a afetar gravemente o país, como o VIH-SIDA e a malária”.

O país ainda não recuperou da destruição causada há um ano pelos furacões Idai e Kenneth, o que deixa as populações numa situação ainda mais vulnerável perante a pandemia do novo coronavírus.

De acordo com Jesús Palmero, “muitas famílias, por exemplo, ainda não conseguiram reconstruir as suas casas ou continuam sem acesso a necessidades básicas, como a água e saneamento”.

África tem cinco camas de cuidados intensivos por um milhão de pessoas. No entender da ONG, se Moçambique se deparasse com um possível aumento de doentes com Covid-19, o seu sistema de saúde não conseguiria dar uma resposta eficaz.

“Há falta de médicos, bem como de todo o tipo de profissionais de saúde (parteiras e enfermeiros, por exemplo), o que leva a que os pacientes tenham de esperar bastantes horas até conseguirem ser atendidos. Isto no caso dos cidadãos que conseguem ter acesso aos centros de saúde, já que 70% da população moçambicana vive isolada em zonas rurais”, sustenta a organização não governamental.

O preço elevado de medicamentos básicos, como analgésicos ou outros para tratar a diarreia ou a malária, que são distribuídos nos centros de saúde, também não facilita a situação. Por outro lado, acrescenta a ONG, “os equipamentos também são escassos”.

“De acordo com a Organização Mundial da Saúde, África tem cinco camas de cuidados intensivos por 1 milhão de pessoas, para combater a pandemia. Devido à debilidade dos sistemas de saúde, sem apoio de comunidades externas, o Fórum Económico Mundial estima que a Covid-19 possa afetar 1,2 mil milhões de pessoas em África”, indica a Ajuda em Ação.

Ameaça à população e à economia

A Ajuda em Ação considera que a situação económica de Moçambique torna mais complicada a concretização do apelo do governo moçambicano à distância e isolamento sociais como forma de combate à disseminação do novo coronavírus.

“O Índice de Pobreza Multidimensional dos Países em Desenvolvimento de 2019 da ONU mostra que 49,1% da população vive em pobreza multidimensional severa”, contextualiza a coordenadora de emergência da Ajuda em Ação em Moçambique, Sophia Buller.

“E a verdade é que, para esta população, ficar em casa pode significar comprometer a sua alimentação diária. Especialmente porque as colheitas foram muito afetadas e ainda estão a ser, pela passagem do Kenneth”, acrescenta.

Já Jesús Palmero, representante da Ajuda em Ação em Moçambique, refere que “o encerramento de fronteiras põe em risco a alimentação da população moçambicana, uma vez que é da África do Sul que vêm muitos mantimentos”.

Além disso, acrescenta, “Moçambique depende fortemente de relações comerciais com outros países e sem esse apoio a economia do país pode ser gravemente afetada”.

Ajuda em Ação no terreno e no combate às desigualdades

A "Ajuda em Ação", encontra-se em Moçambique há mais de 15 anos e, segundo a ONG, tem vindo a fomentar uma série de atividades no país, que vão desde “a formação das comunidades para a adaptação das culturas às alterações climáticas, à educação e alimentação das crianças, ao empoderamento das mulheres e à luta contra a propagação de doenças mortíferas”.

Grande parte da intervenção da Ajuda em Ação concentra-se em Cabo Delgado, uma das províncias mais pobres do país. É ali que que colaboração com a UNICEF e a OIM (Organização Internacional para as Migrações) está a apoiar a população afetada pelo ciclone Kenneth em projetos de ajuda humanitária, no âmbito da promoção da higiene e para proporcionar abrigo a quem perdeu a sua casa.

Além disso, a "Ajuda em Ação" também se tem dedicado a projetos para promover o acesso à água potável e ao saneamento nas comunidades rurais, que são fundamentais no combate a pandemias e outras ameaças à saúde.

Atualmente, algumas das atividades da ONG estão suspensas, mas com “as devidas medidas de higiene e segurança, está a ser possível avançar com outras”, refere Jesús Palmero, frisando que “nos próximos meses de trabalho, a preparação e prevenção frente à Covid-19 serão essenciais, em colaboração como os parceiros, para apoiar os esforços das autoridades sanitárias”.

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