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Saudades das pessoas

20 abr, 2020 - 18:14 • Carrilho da Graça*

Percorremos agora a cidade sem automóveis e praticamente sem pessoas. A majestosa estrutura topográfica da cidade de Lisboa parece revelar-se com mais intensidade. Como as imagens sem cores, a preto e branco, parecem revelar melhor as formas. Como a palavra na rádio, sem a imagem do emissor. Como tatear às escuras.

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Estou em reclusão há cerca de cinco semanas. No início fiquei quase eufórico: parecia-me que o tempo dilatava, a concentração aumentava, a alimentação melhorava.

Mais tempo para ler, escrever, desenhar, ver filmes e ouvir música.

O teletrabalho era um brinquedo novo. O computador, o iPad e o iPhone sempre a receber e a enviar informação. A impressora a devolver documentos extraordinários.

A arquitectura exige, no entanto, uma interacção com a realidade para além do tele, do Skype, Zoom ou Teams. Mesmo do equívoco hangouts.

Temos que visitar obras edifícios, cidades e paisagens.

Ver, ouvir e sentir. Falar com as pessoas, fazer pelo menos algumas reuniões e ver algumas maquetes.

Percorremos agora a cidade sem automóveis e praticamente sem pessoas.

A majestosa estrutura topográfica da cidade de Lisboa parece revelar-se com mais intensidade. Como as imagens sem cores, a preto e branco, parecem revelar melhor as formas. Como a palavra na rádio, sem a imagem do emissor. Como tatear às escuras.

As colinas e a ondulante e barroca topografia: parece quererem significar a persistência do essencial.

A construção da cidade sobre este singular estuário. O devir em que o movimento mais lento é o suporte da relação deste sítio com os seus sucessivos e variados habitantes.

Quando voltar ao atelier, vou voltar a um espaço de encontro.

Sonho que este espaço me permite treinar a possibilidade da síntese!

Os sonhos da razão...


*Nascido em Portalegre, Carrilho da Graça é arquiteto e professor em Lisboa. Autor de obras emblemáticas como o mais recente Terminal de Cruzeiros de Lisboa, ou o Pavilhão do Conhecimento da Expo 98, venceu em 2008 o Prémio Pessoa. Entre as suas obras, destacam-se também a Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa pela qual venceu o Prémio Secil, em 1994; o Núcleo Arqueológico do Castelo de São Jorge, em Lisboa pelo qual venceu, em 2010, o Prémio Piranesi Prix de Rome. Algumas das suas obras já foram nomeadas para o Prémio Mies van der Rohe. O conjunto da sua obra já mereceu diversos prémios, entre eles o título de "Chevalier des Arts et des Lettres" pela República Francesa em 2010; o Prémio da Bienal Internacional da Luz - Luzboa, em 2004 e a Ordem de Mérito da República Portuguesa em 1999.

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