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Reportagem Covid-19

Campismo de Monsanto, a nova morada de ex-reclusos. "Querem muito estabelecer laços, trabalhar e ser úteis"

20 abr, 2020 - 06:45 • Beatriz Lopes , Ricardo Fortunato (fotos e vídeo)

Em Monsanto, entre bungalows que lhes são a casa provisória e a pacatez das árvores e dos pássaros, vivem hoje, no centro de Lisboa, seis ex-reclusos que se viram obrigados a pedir ajuda por não terem um tecto ou apoio das famílias. Por estes dias, é provável que se cruze com alguns deles a limpar as ruas de Lisboa. A ocupação pode até ser temporária, para se reinserirem numa sociedade que "não os deve temer". Do apoio psicológico ao lugar da fé, do estar livre sem estar – porque a Covid-19 a isso obriga –, conheça a história de João, que se diz agora a "passar a página do livro".

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Covid-19. Ex-reclusos encontraram um novo lar no campismo de Monsanto
Covid-19. Ex-reclusos encontraram um novo lar no campismo de Monsanto

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O que queria era voltar a ser cabeleireiro. Ou talvez explorar a área da mecânica, de que tanto gosta. Ou até, quem sabe, ser motorista da Uber. A história de João começa de olhos postos no amanhã, onde se quer manter focado, para "não descarrilar outra vez".

É no parque de campismo de Monsanto, em Lisboa, que fica agora a sua nova morada, apesar de provisória, uma morada de liberdade. É-a para ele e para outros cinco ex-reclusos, que fazem parte dos mais de 2.200 que estão a ser libertados das cadeias portuguesas sob decreto do Governo para controlar o número de contágios por Covid-19.

Faltavam dois meses para João acabar de cumprir uma pena de dois anos e três meses de prisão. Não quer revolver na memória para recordar os motivos que o levaram até um mundo obscuro, fechado, onde o tempo é quase imóvel, mas onde, diz, "as pessoas não são bichos".

Deixou de contar os dias, meses e anos através de riscos nas paredes quando o calendário da sua nova vida começou, a 13 de abril, uma segunda-feira.

"Foi quando recebemos a notícia de que poderíamos sair. Comecei a ouvir as pessoas a gritar, a dizerem "vou embora, vou embora". E quando abriram as celas foi uma euforia, parecia uma 'selva'. A sensação? É de libertação, de alegria, um misto de sentimentos. Estive dois anos e um mês preso, sempre é algum tempo e as coisas mudam, as pessoas mudam. São cicatrizes que ficam e há que saber lidar com elas, seguir em frente. Passar a página do livro."

Um novo "livro" começa a escrevê-lo agora, aqui, sentado num banco de madeira do parque de Monsanto, de olhar pousado sobre a paisagem, verdejante e serena, "que ajuda a refletir", rompida por bungalows, a que pode chamar agora de lar, "com água quente, uma cama e uma televisão com muitos canais, onde a informação não falta".

"Os reclusos são pessoas perfeitamente normais"

Foi a ver TV, num dia igual a outros mais, em que a atualidade se faz do novo coronavírus, que José Brites, diretor da associação "O Companheiro", uma IPSS que dá apoio a reclusos, decidiu pedir ajuda às Juntas de Freguesia de Benfica, São Domingos de Benfica e à Câmara de Lisboa, para que aqueles que saíssem agora da prisão não se tornassem "em novos sem-abrigo".

"A ideia surgiu comigo sentado num sofá, a ver as notícias sobre as unidades hoteleiras que passaram a receber idosos de lares. Então eu, que há 33 anos acompanho reclusos e sabendo que iriam ser libertados, comecei a fazer contactos e conseguimos encontrar esta solução."

Convicto de que "não podemos voltar ao século XVIII, quando os criminosos eram colocados longe de tudo e de todos", a prioridade é agora reintegrar ex-reclusos na vida ativa, garantindo-lhes comida, alojamento e formação profissional, numa sociedade que "também precisa de se formar" neste ponto.

"Quero transmitir à população isto: não podemos ficar todos numa sociedade em pânico porque se libertaram presos, pensando que a partir de agora vai ser muito complicado. Nada disso! São pessoas perfeitamente normais e vamos trabalhar para que não haja esse tipo de sentimento. É como em tudo na vida, eu quando tenho alguém que se está a afogar, primeiro tenho de tirar essa pessoa da água e só depois a posso ensinar a nadar."

"A porta continua aberta" para receber mais pessoas, garante o diretor da associação, até porque os 49 estabelecimentos prisionais espalhados pelo país têm a informação de que, na cidade de Lisboa, o parque de campismo de Monsanto tem capacidade para receber cerca de 40 ex-reclusos que, pela falta de um teto ou de qualquer apoio familiar, se veem obrigados a recorrer a este apoio.

Limpar as ruas de Lisboa, pela segurança de todos e pela confiança de cada um

De vassoura na mão, a varrer uma cidade que hoje se confina a quatro paredes, ou a aparar ervas que despontam na berma das estradas e passeios, o trabalho poderá até ser árduo, mas todos os ex-reclusos que se encontram no parque de Monsanto aceitaram dar o seu contributo à sociedade.

"A ideia surgiu comigo sentado num sofá, a ver as notícias sobre as unidades hoteleiras que passaram a receber idosos de lares. Então eu, que há 33 anos acompanho reclusos e sabendo que iriam ser libertados, comecei a fazer contactos e conseguimos encontrar esta solução"

João Neto, coordenador do Serviço de Higiene Urbana da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, explica que haverá tempo para a teoria, mas que a ideia no imediato foi a de "pegar nos marinheiros e lançá-los já ao mar".

"Há coisas simples que eles terão de aprender, como a orientação do vento, que pode contribuir para a acumulação do lixo em determinados espaços. Mas isso aprende-se no terreno. Vão começar pelas tarefas mais básicas, mais simples, como a varredura, como o apoio à deservagem ou à lavagem. Mas, progressivamente, esperamos que as pessoas vão ganhando competências e, com essas competências, vão também elas próprias executando por si as diferentes tarefas."

Já com experiência passada no acompanhamento e na reintegração de ex-reclusos, João Neto diz-se um "otimista incorrigível" e confidencia que há casos de sucesso, que alguns acabam mesmo por ficar a trabalhar. É também por isso que não desiste de lançar-lhes uma pergunta em jeito de desafio: "Que diferença é que podes fazer a partir deste momento?"

Todos os ex-reclusos podem juntar-se ao serviço de higiene urbana, que continua na linha do combate à pandemia de Covid-19. É uma linha que a muitos passa despercebida, mas que nesta altura pode, mais do que nunca, fazer a diferença.

"O serviço de higiene urbana neste momento tem muitas solicitações e preocupações por parte da população. E esta será uma forma de os ex-reclusos serem um veículo de transmissão de segurança e confiança às pessoas que estão confinadas."

Da psicologia à fé, ou como a esperança pode ajudar a vencer a ansiedade de estar livre mas ainda "preso"

A pergunta não é de resposta simples: como é que se controla a ansiedade de ex-reclusos que saem agora de uma prisão, mas que continuam a estar privados da liberdade? Foi lançada por Carla Rotes, vogal dos direitos sociais da Junta de Freguesia de Benfica e responsável pela área de psicologia neste desafio de apoiar ex-reclusos que se encontram alojados em Monsanto.

"É complexo para alguém que esteve preso algum tempo ter a sensação de que é livre, mas que é livre num momento em que todos estamos 'presos', porque este contexto da pandemia assim o exige. O nosso trabalho é desconstruir esta ideia e explicar-lhes que não temos a liberdade de irmos onde queremos e de fazermos aquilo que queremos. É um processo assustador para as pessoas que estão a passar por isto."

Diariamente, todas as pessoas que chegam ao parque de campismo têm consultas individuais com psicólogos das Juntas de Freguesia de Benfica, São Domingos de Benfica e da Associação "O Companheiro". Há ainda um monitor para fazer o contacto diário e saber como cada um está a passar o dia, quais são as expectativas que tem, nomeadamente de um futuro trabalho, de que tanto falam.

"Estamos a tentar avaliar o grau de orientação e desorientação em que estão e a tentar ajustar as expectativas que eles têm face àquilo que é o real. Mas estão todos estabilizados. Aqueles que precisavam de ajuda, por exemplo, a nível de produtos farmacêuticos, já receberam esse apoio depois de terem recebido a avaliação médica. E estão todos com muita vontade de começar uma vida nova: querem muito estabelecer laços com as pessoas à sua volta, estão ansiosos por começar a trabalhar e a ter os seus próprios rendimentos – e, de alguma forma, poderem cumprir uma função útil na sociedade".

À falta de uma família próxima, que os acolha em casa, ou face à demora em ver um contrato de trabalho assinado, tudo obstáculos para quem deseja reintegrar-se na sociedade, é preciso "acreditar numa luz de esperança ao fundo do túnel", explica João.

"Voltar a casa não está nos meus planos, mas gostava de retomar a minha relação que quase não existe com um filho que tenho. Vai fazer 18 anos em julho, já é um homem. Tenho ansiedade de lhe contar muita coisa. Gostava de lhe dizer o quanto o amo, se calhar devia-lhe ter dito mais vezes e não tive oportunidade. Ou não soube"

É também neste ponto que a Igreja pode ter um papel fundamental, defende o padre Ricardo Freire, da Paróquia de São José de Boavista que, juntamente com a Paróquia de Benfica, dá apoio a estes ex-reclusos.

"A Igreja tem de passar uma mensagem de esperança. Há um teólogo checo, Tomáš Halík, que diz que a esperança é a paciência comigo próprio. E acho que pode ser também uma dimensão muito interessante para passarmos a estas pessoas: ter paciência consigo próprios e, sobretudo à luz da fé, como é que Jesus pode ajudar-me a caminhar nesse sentido de ter paciência comigo – e, portanto, de me reintegrar e ter esperança de que o amanhã vai ser diferente daquilo que foi o passado. Um passado que, nestes casos, não é um passado muito feliz."

Um parque que não se faz só de reclusos, mas também de gente da saúde

Além dos seis ex-reclusos, o parque de campismo de Monsanto é também casa, por ora, de dezenas de profissionais de saúde, elementos da Proteção Civil Municipal e dos bombeiros. Alguns, a maioria, optaram por mudar-se para não arriscarem contagiar as próprias famílias.

Desses, ao que Renascença apurou, pelo menos dois estão infetados com a Covid-19, encontrando-se isolados e seguros. É o que garante o comandante Nuno Lima, da Associação Humanitária de Busca e Salvamento Internacional.

"As pessoas que cá estão estão saudáveis, estão assintomáticas – senão não estavam cá – e isoladas. E estão a ser cuidadas da melhor maneira possível."

Para evitar o risco de infeção, à entrada do parque de Monsanto todos são obrigados a medir a temperatura. Mas não só.

"Temos quatro postos médicos, dois deles para acompanhar os indivíduos que entraram para se requalificar, e outros para acompanhar os elementos da proteção civil que estão aqui alojados. Temos ainda montada uma linha de descontaminação de viaturas de emergência e uma linha para a descontaminação de todo o percurso, desde que entram no parque, até às zonas de alojamento. Depois temos os nossos técnicos de emergência, enfermeiros e médicos, a dar apoio duas vezes por dia."

O processo parece complexo, mas os dias em Monsanto são tudo menos agitados. Pelo menos para João, que agora em liberdade diz que os dias "continuam a demorar a passar", num parque onde "só se ouvem os pássaros".

Hoje todos sabemos o que é estar presos numa gaiola maior, à espera do mesmo desfecho de história, acredita o ex-recluso.

Enquanto não volta a segurar numa tesoura na barbearia, ou a dedicar-se à mecânica, que seria "ouro sobre azul", há outros planos que uma história de 45 anos, "quase 46", não lhe permitem abandonar.

"Voltar a casa não está nos meus planos, mas gostava de retomar a minha relação que quase não existe com um filho que tenho. Vai fazer 18 anos em julho, já é um homem. Tenho ansiedade de lhe contar muita coisa. Gostava de lhe dizer o quanto o amo, se calhar devia-lhe ter dito mais vezes e não tive oportunidade. Ou não soube."

João, como tantos outros, como um país inteiro, acredita que tudo vai ficar bem. E sorri ao dizer: "Haja força, haja vontade. E fé. E esperança. E vamos embora!"


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