|

 Casos Ativos

 Internados

 Recuperados

 Mortes

A+ / A-

Da Capa à Contracapa

Maria Manuel Mota. "O novo coronavírus é o nosso problema mas também a nossa solução"

18 abr, 2020 - 19:13 • José Pedro Frazão

À Renascença, uma das cientistas portuguesas mais conceituadas da sua geração revela que a cloroquina, que ajudou a travar a malária, não está a ter o impacto esperado no tratamento decisivo da Covid-19. A diretora do Instituto de Medicina Molecular explica ainda os múltiplos projetos em que a Ciência trabalha para ajudar a combater a pandemia que parou as nossas vidas. E avisa que vamos ter de aprender a viver com este novo coronavírus.

A+ / A-
Da Capa à Contracapa - O que dizem os cientistas e como nos ajudam a responder à pandemia - 18/04/2020
Da Capa à Contracapa - O que dizem os cientistas e como nos ajudam a responder à pandemia - 18/04/2020
Clique na imagem para ouvir esta edição do programa "Da Capa à Contracapa" na íntegra

Veja também:


Maria Manuel Mota é uma das cientistas de topo em Portugal. Investigadora de ponta na área da malária, dirige o Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa, considerado uma unidade de investigação biomédica de excelência. Para compreender melhor um vírus muito recente como o SARS-CoV-2, o novo coronavírus, é preciso estudá-lo e entender a resposta do hospedeiro a este novo coronavírus. A geografia deu uma ajuda. O IMM criou um banco de amostras -"Biobanco Covid19" - no campus que partilha com o Hospital de Santa Maria e a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

"Temos muitos voluntários e médicos que recolhem amostras de doentes desde o momento em que lhes é diagnosticado que têm Covid-19. Muitos deles apresentam muito poucos sintomas e a maior parte deles tem um desfecho ótimo. Estamos a recolher amostras nestas pessoas, de forma longitudinal, ao longo do tempo, para os nossos investigadores fazerem algumas perguntas com base nelas: o que é o vírus, como é o vírus, como interage com o hospedeiro, porque corre mal numas pessoas e não em outras. Estamos também a congelar amostras e tivemos uma grande ajuda da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento com equipamento de congelação e azoto líquido para manter as amostras durante um período mais longo e poderem ser estudadas por todos", explica Maria Manuel Mota, no programa "Da Capa à Contracapa", da Renascença, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A investigadora garante que o banco estará aberto a toda a comunidade científica, seguindo um princípio "open source" em que tudo está disponível para todos em partilha de dados e de tecnologia.

Estes são tempos em que o país pode observar os frutos do investimento que se fez para criar uma geração de cientistas, acrescenta Maria Manuel Mota.

Testes serológicos a caminho

Foi a partir do IMM e dos seus voluntários que Maria Manuel Mota começou a responder à falta de testes de diagnóstico importados do estrangeiro com uma produção própria, com base em critérios internacionais, para ajudar o SNS a disseminar a capacidade de diagnóstico da Covid-19.

A rede foi alargada a mais de 11 instituições de investigação científica que usam diversos tipos de reagentes. Resultado disso, a investigadora, que foi Prémio Pessoa em 2013, dá-se ao luxo de fazer uma correção simpática a uma passagem do último discurso do Presidente da República, quando ao prolongar o Estado de Emergência por um terceiro período colocou Portugal no Top 4 dos países europeus com mais testes por milhão de habitantes.

"Somos já o terceiro país da Europa, não apenas da União Europeia, que mais testes faz por milhão de habitantes. Estamos em velocidade de cruzeiro. Muitas instituições estão a usar este teste. E não só com os reagentes originais, porque estamos a tentar alargar isto o mais possível, especialmente às pessoas que estão em grupos de risco", explica Maria Manuel Mota à Renascença.

Esta é apenas a ponta de um icebergue de investigação científica que se estende agora pela fase dos testes serológicos, destinados a estabelecer a proporção da população que já esteve em contacto com o vírus.

"Servem para saber quem tem anticorpos, para saber se esses anticorpos lhes dão imunidade. Historicamente, por contactos que tivemos com outros coronavirus, vamos ter algum tipo de imunidade e isso são bons sinais", adianta a mulher que lidera o IMM, que está envolvido num consórcio lançado para o desenvolvimento dos testes serológicos.

A parceria abrange ainda o Instituto Gulbenkian de Ciência, Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica, Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa e o Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Universidade Nova de Lisboa.

"Não estamos em competição", assegura Maria Manuel Mota ao assinalar que outros centros de investigação no país estão a tentar também criar testes serológicos.

"Um colega meu dizia ontem que até os Jogos Olímpicos foram adiados um ano. Temos de usar ferramentas diferentes e ver qual é a melhor. E se houver vários testes ótimos, ainda melhor. Vai ter de haver um número muito grande de testes", complementa a diretora do IMM.

A corrida da Ciência contra a Covid-19

Os cientistas "correm" em duas "pistas" fulcrais para a resposta clínica à Covid-19. A mais longa é a vacina, que já se sabe que não deve surgir a curto prazo. Daí que também a diretora do IMM apele a um comportamento muito controlado da população ao aligeirar o confinamento a partir de maio.

"A vacina não é solução no próximo ano ou mais. O vírus é o nosso problema. mas também é a nossa solução. Sabemos que vamos ter que nos expôr um pouco ao vírus, mas de forma extremamente controlada. Vamos ter esta abertura de confinamento, seja como ela for, de acordo com o plano que nos vão dar. Nós somos apenas uma peça desse plano e temos que o cumprir. Não vamos sair do confinamento e voltar à nossa vida que achávamos que era a normal. Vamos ter um novo normal em que tudo é extremamente controlado", alerta Maria Manuel Mota na Renascença.

A diretora do IMM diz que "não é inevitável que vamos ter uma segunda onda" e faz depender esse regresso da pandemia da forma como a sociedade se comportar e do trabalho das estruturas científicas e médicas ao longo da crise.

A "pista" mais próxima no tempo está ligada à adaptação de fármacos preparados para outras doenças e que podem ajudar no tratamento dos casos clínicos mais graves da Covid-19.

"Obviamente que assim que surgiu este vírus começou-se a pensar em anti-virais. Isto é um vírus e há anti-virais que costumam atacar este tipo de vírus e que começaram a ser usados. Têm algum impacto, mas não é incrível. Não há ainda um fármaco-maravilha", reconhece a cientista que tem trabalhado na investigação da malária.

Um "fármaco maravilhoso" que afinal não faz a diferença

Uma das soluções terapêuticas que têm sido usadas passa pelo recurso a um medicamento que ajudou de forma decisiva a evitar a propagação da malária na Europa e na América do Norte. A hidroxicloroquina é descrita por Maria Manuel Mota como "a droga-maravilha do século XX", que se juntou ao combate à malária a par de outras medidas tomadas para travar a transmissão da doença pelo mosquito.

"Quando temos o SARS-CoV-2 nas células e aí colocamos cloroquina, ela tem um efeito na carga viral das células. Portanto começou-se a pensar que isto podia acontecer. No entanto, infelizmente, as evidências científicas são cada vez mais no sentido de que isto tem um efeito muito marginal nas pessoas com Covid-19. Saiu esta semana um artigo científico muito exaustivo que compara indivíduos que tiveram este tratamento versus outros que não tiveram numa amostra de grande população e as diferenças não são significativas. Todas as evidências parecem mostrar que a hidroxicloroquina não vai ser o fármaco que todos nós adoraríamos que fosse", revela a diretora do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa.

Nos casos mais graves da doença têm também sido administrados outros fármacos para tentar ajudar o corpo a debelar a doença, acalmando a resposta inflamatória e sobretudo diminuindo o poder da arma que o organismo produz para esta "guerra" que se não for controlado leva à sua própria morte.

"Nós temos uma resposta imunitária exacerbada para o vírus. Mata o vírus, mas também nos mata a nós. É o que chamamos de ‘tempestades de citoquinas’. Estão a ser dados fármacos com bom impacto que diminui o nível de uma destas citoquinas que podem ser bastantes prejudiciais provocando lesões em órgãos. Estes fármacos diminuem esta tempestade de citoquinas e são dados a pessoas em que as coisas já estão a correr bastante mal", explica Maria Manuel Mota no "Da Capa à Contracapa".

A investigadora juntou-se no programa desta semana ao epidemiologista e professor universitário Manuel Carmo Gomes para debater a resposta da ciência à pandemia em Portugal e no Mundo. O "Da Capa à Contracapa" é uma parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos para ouvir ao sábado às 9h30 ou sempre que quiser em podcast, em rr.sapo.pt ou nas restantes plataformas digitais habituais.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.