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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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A pandemia e a vida

16 abr, 2020 • Opinião de José Miguel Sardica


Pensar num mundo onde não se morre por doenças é impossível. As doenças são conaturais à existência humana. É a vida – literalmente!

Há um mês que estamos em quarentena. Estaremos com toda a certeza mais duas semanas, até ao final de abril, e há quem diga que talvez estejamos confinados até meados de maio.

Parece que já passou o pico, ou que estamos a vivê-lo sob a forma de um planalto, com uma ou outra colina ou pequeno declive. O Presidente e o Governo hesitam em afrouxar as medidas de combate à doença, porque querem ver a descida do planalto até ao sopé.

Do ponto de vista médico, o raciocínio faz sentido, e seria inatacável se falássemos de um só paciente, que precisa de recuperar quase por completo antes de lhe darem alta. O problema é que estamos a falar de um país inteiro, que está fechado por causa da pandemia e que precisa de se reabrir para a vida, se quer continuar a ter vida.

Para lá do final de abril, princípios de maio, a quarentena geral tornar-se-á asfixiante: não só a economia, mas todos nós, necessitamos de estímulos e o mundo não pode aguardar enclausurado até que se descubra uma vacina para o vírus.

Viver normalmente comporta os seus riscos. A Covid-19 mata, mas antes dela já morriam, em Portugal, 15 pessoas por dia de doenças respiratórias. Todos os anos, milhares de pessoas são vitimadas por gripes. Pensar num mundo onde não se morre por elas (ou pela Covid-19), ou onde não há um único infetado é impossível. As doenças são conaturais à existência humana. É a vida – literalmente!

Porque isto não tem resolução (mesmo quando houver vacina), e porque há sinais de que já estamos em desgaste ou desastre económico e social, é fundamental começar a traçar planos para a reabertura da economia, da sociedade, das escolas, das famílias e das vidas.

Os números são indicativos: só na primeira semana de abril, as inscrições nos centros de emprego (c. 4000) duplicaram em relação a 2019; o número de novas prestações de desemprego cresceu 65%; e houve 35 despedimentos coletivos, cinco vezes mais do que há um ano. Nos cenários macroeconómicos fala-se, para 2020, de um recuo do PIB nunca inferior a 4% e talvez superior a 10%.

Graves por si, os números não contam tudo. Há mais sem-abrigo e menos apoios. A redução de rendimentos das PME, da imensa população em “lay-off” e da incontável economia informal é óbvia e pode estar a gerar fenómenos de nova pobreza ou redução de nível de vida, criando um círculo vicioso de diminuição tanto da procura como da oferta na economia.

A quarentena demasiado prolongada cria outros fenómenos de exclusão. Dois milhões de crianças completarão o seu ano escolar em casa. É fácil falar no ensino à distância e na telescola. Mas nem todas as casas têm net e computador, nem todos os miúdos têm uma família que os possa acompanhar nessa aprendizagem solitária (ou porque não sabem ou porque não podem sacrificar o teletrabalho e o rendimento), fora os casos em que era a escola que lhes dava o almoço e o lanche que não têm em casa.

No extremo etário oposto, há a imensa realidade dos idosos. É uma população vulnerável, sem dúvida, mas sugerir que prolonguem a sua quarentena até haver vacina é decretar, para a maioria, uma forma de eutanásia social, cortando-lhes os laços com os netos, os filhos, a família, os vizinhos que são o seu oxigénio afetivo.

A pandemia faz vítimas diretas; mas arrisca provocar ainda mais vítimas colaterais. É preciso, pois, reabrir a vida, mesmo que ela tenha de ser diferente: reativar laços sociais, estudar o retorno às escolas, reaquecer a economia, cuidar dos que ficaram para trás. Caso contrário, o sopé do planalto poderá ser um vale escuro e tortuoso, marcado pelos pedregulhos da crise, do desemprego, da pobreza e do desânimo.

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  • and2
    17 abr, 2020 01:05
    Começou com uma escrita vulgar, banal. Arrebitou a meio. Faltou-lhe combustível para terminar bem. No computo global,: Frouxo