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Postal de Quarentena – Nairobi

“Se os números começarem a subir, como é normal, vai ser uma razia”

14 abr, 2020 - 09:30 • Marta Baeta*

O postal desta terça-feira chega-nos da capital do Quénia, onde quem não cumpre o recolher obrigatório corre o risco de ser espancado pela polícia e com as escolas fechadas há crianças que não têm o que comer.

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Os primeiros casos oficiais de coronavírus no Quénia foram declarados no dia 13 de março. Existem neste momento 158 casos confirmados e já morreram seis pessoas, incluindo uma criança de seis anos.

Logo no primeiro dia em que foram confirmados casos o Governo fechou as escolas. Os restaurantes supostamente só estão abertos para take-away, mas como a maior parte dos restaurantes aqui são informais, estão a funcionar de forma normal.

Foi imposto um recolher obrigatório das 19h às 05h. A consequência imediata para quem não cumpre é ser espancado pela polícia e nos primeiros dias houve mesmo mortos por causa dessa violência policial.

Temos a indicação de que foram testadas cerca de 4.000 pessoas, o que não é nada num país de 43 milhões, e é evidente que se os números começarem a subir, como é normal e tem acontecido em todo o lado, vai ser uma razia total, porque também temos uma grande parte da população considerada de risco por ter doenças vulgares, como diabetes e outras, mas também altos índices de HIV, o que a torna muito mais vulnerável.

Se houver um lockdown total vai ser uma catástrofe. O apoio que está a chegar é de organizações como a nossa, que estão a concentrar-se sobretudo na alimentação das pessoas que apoiam e nas condições de higiene. Não há apoio do Estado, Segurança Social, ir para casa com metade do salário, garantias contra despedimentos… Não há nada disso.

Mas a maioria do comércio tem de funcionar porque isto é o ganha-pão das pessoas. Aqui ganha-se ao dia e já houve muitas pessoas despedidas, incluindo muitas mulheres que trabalham na limpeza e foram mandadas para casa. Mas o resto tem de funcionar, porque as pessoas precisam de comer e é esse o grande problema que vamos ter de enfrentar em breve.

As pessoas deixam de ter emprego, deixam de pagar a renda e ao fim de algum tempo são postas na rua. Aqui temos muitos meninos da rua que não têm para onde ir. As organizações que trabalham com elas estão a tentar que se abram escolas para poderem estar durante a noite, mas a resposta do Governo não está a ser positiva e isso também é um grande problema, porque eles ainda têm piores condições de higiene e ainda estão sujeitos a violência por causa do recolher obrigatório.

Neste momento apoiamos 70 crianças de 37 famílias diferentes e no total, a contar com os irmãos que não apoiamos, mas que estão em casa neste momento, juntamente com pais, avós e por aí fora, temos a nosso cargo 250 pessoas que precisam de nós para comer. Mais de 70% das pessoas que apoiamos já perderam o emprego por isso vamos ter agora uma ação para as ajudar a pagar as rendas, para não serem postas na rua.

O que temos feito então, desde o dia 18 de março, é dar semanalmente, ou de duas em duas semanas, um cabaz de alimentos com produtos de higiene e limpeza e desinfetantes, para que eles possam estar em casa, porque com as escolas fechadas não tomam nem pequeno-almoço nem almoço. Com o nosso projeto fechado também não lancham, o que para muitos era a última refeição do dia. E por isso há mesmo crianças com fome em casa. Esse foi o nosso principal foco, garantir que as crianças sejam alimentadas. Temos uma campanha a decorrer onde cada pessoa pode fazer um pequeno donativo, se quiser.

Acho que na Europa a maior parte das pessoas não está a tirar o melhor partido do facto de terem de ficar em casa nem estão a ver a sorte que têm, porque aqui no Quénia a maior parte das pessoas que tem uma casa – e estamos a falar de cinco metros quadrados, um quarto e quatro paredes – não têm casa de banho, água ou frigorífico.

Esta é uma altura de darmos valor à sorte que temos, ao facto de podermos cozinhar em casa, fazer receitas maravilhosas, fazer meditação, ver coisas no Netlix, aulas online…

Temos de dar algum valor ao facto de termos tudo e aproveitar esta pausa para acalmar. A mim tem-me sabido muito bem os dias que estou em casa, porque eu nunca estou em casa. E aqui não tenho as mesmas condições que tenho em Portugal, mas mesmo assim têm sido dias espetaculares.


*Marta Baeta é portuguesa mas vive em Nairobi, onde dirige a organização não governamental “From Kibera With Love”, que apoia crianças em idade escolar.

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