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Reportagem Covid-19

Distribuir bens em estado de emergência. “Limpa-nos a alma saber que ajudamos as pessoas”

09 abr, 2020 - 20:00 • Pedro Filipe Silva , Joana Bourgard

O novo coronavírus parou grande parte das empresas em Portugal, mas também fez aumentar o trabalho noutras. É o caso das empresas de logística, que todos os dias garantem que os produtos chegam ao consumidor final.

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Carolina Silva é uma das centenas de pessoas que trabalha diariamente no armazém farmacêutico da ID Logistics, uma das inúmeras empresas de distribuição a operar na Azambuja.

Tem 31 anos, vive com os pais. É com preocupação que todos os dias sai de casa para trabalhar. “O meu pai é doente oncológico e tenho de ter algumas precauções para evitar que leve algum tipo de problemas para casa. Levo à risca as questões de higiene, deixar a roupa à entrada de casa e descalçar.”

Trabalha oito horas por dia, mas já teve de fazer mais para dar resposta às necessidades atuais. “Tenho sentido um aumento significativo desde o início de fevereiro”, diz Carolina Silva, que se mostra satisfeita com o trabalho. “Faço o que gosto. Limpa-nos a alma saber que ajudamos as pessoas.”

Volume inesperado em março

Com um mercado específico, o armazém onde trabalha Carolina depressa sentiu o aumento no volume de pedidos com a chegada do novo coronavírus a Portugal. Com uma quota de mercado de 35% na distribuição de produtos farmacêuticos, a empresa deparou-se com uma nova realidade.

“Perante este contexto tivemos volumes inesperados, muito elevados, na ordem dos 70 ou 80% no mês de março", diz Paula Ribeiro, a responsável pelo serviço de assistência a clientes. "Temos conseguido fazer as entregas em todo o país de uma forma normal e superar este grande desafio. Os hospitais são a nossa prioridade na entrega de produtos.”

Com 60 clientes, entram e saem todos os dias cerca de 200 camiões dos dois pavilhões que a empresa gere na Azambuja.

Num com 46.000 metros quadrados, estão armazenados os produtos destinados ao mercado retalhista, com bens alimentares e eletrónicos. O segundo armazém, com 22 mil metros quadrados, é exclusivamente para o armazenamento de produtos farmacêuticos, vindos dos principais laboratórios. Para garantir todo o trabalho logístico, está em funcionamento durante todas as horas do dia.

Reforço de turno para chegar a todos os pedidos

“Em situações normais, no armazém farmacêutico, iniciávamos às sete da manhã, agora estamos a trabalhar 24 horas”, explica Paula Ribeiro, que faz a visita guiada ao espaço onde são guardados milhares de produtos farmacêuticos. Consigo tem Denise Deus, do departamento de desenvolvimento de produto, que explica outras medidas adotadas.

“Implementámos um plano de contingência quando ainda não tínhamos nenhum caso em Portugal, de maneira a protegermos os nossos trabalhadores. Investimos bastante em equipamentos de proteção individual, cada trabalhador vai também começar a usar agora uma viseira", adianta Denise Deus.

"Para além dos ajustamentos nos turnos, adotámos também as medidas de distanciamento social. Estas medidas afetaram a nossa produção. Não estamos com uma capacidade de produção a 100% porque temos que zelar pelas pessoas que estão no terreno. Onde anteriormente tínhamos três pessoas a fazer preparação, temos uma. Assim garantimos que essa pessoa está em segurança e que poderá vir continuar a trabalha.”

Chega tudo às lojas a tempo e horas

No centro de logística da Auchan há uma enorme agitação. As máquinas que transportam as paletes parecem verdadeiros carrinhos de choque (mas sem bater) a grande velocidade, para garantir que tudo é colocado no sítio certo, para ser transportado para o sítio certo.

Neste armazém estão os produtos que podem ficar em temperatura ambiente, ou seja, papel higiénico (muito papel higiénico), cereais, farinhas ou produtos para a casa.

Nuno Matos, gestor de operações de logística da Auchan, garante que tudo tem sido feito para que as prateleiras não fiquem vazias.

“Os nossos parceiros da indústria têm sistematicamente tomado medidas para adaptar a sua capacidade de produção a esta nova realidade, com este aumento de procura. Com essa disponibilidade de mercadoria temos conseguido garantir que chega tudo às lojas.”

Nuno Matos avança um outro dado. “Agora há produtos que vêm em maior quantidade, principalmente os bens alimentares, isto devido ao aumento da procura.”

Para além deste armazém, a empresa tem ainda mais dois espaços, um com produtos frescos, outro com congelados. Em todos é uma empresa subcontratada que garante o armazenamento e transporte dos produtos até às lojas.

Nuno Matos garante que foram tomadas todas as medidas de segurança. “Houve uma mudança de rotinas de trabalho, com o pessoal de escritório em teletrabalho. Na parte operacional foi feito um desfasamento de turnos. Temos ainda uma equipa de especialistas que todos os dias avalia o contexto interno e externo e coloca em prática as medidas mais adequadas no momento. Tem havido uma introdução gradual das medidas necessárias para que nos sintamos mais seguros aqui no local de trabalho.”

Fábricas fechadas em Itália levam a quebra no stock, mas não há falhas

Na rua chove e está frio, mas a temperatura dentro do armazém da Carreras Portugal não está melhor. Há uma explicação para isso. Nas enormes prateleiras é possível ver sobretudo os mais famosos chocolates que se encontram normalmente nos supermercados. Daí um grande controlo para que a temperatura seja baixa.

Este operador logístico recebe o material dos produtores dos mais famosos chocolates, armazena e distribuiu para os centros de logística dos grandes retalhistas ou diretamente para os supermercados.

Perante esta situação, Luís Carmo, responsável de operações da Carreras Portugal, não esconde que “há uma preocupação acrescida para que as entregas se cumpram".

"O processo, no entanto, segue normal, com planeamento normal. Procuramos que a cadeia não se rompa.”

A realidade em algumas situações mudou, revela Luís Carmo. “Sente-se um aumento de stock, calculamos nós que seja uma reação normal a situação que estamos a atravessar.”

No entanto, de Itália, onde produzem alguns dos famosos chocolates, as notícias que chegam não são tão positivas. “Sente-se alguma quebra na vinda de produtos. Há fábricas que estão fechadas em Itália e isso levou a uma diminuição, mas não há falhas”, sublinha o responsável.

A Carreras Portugal tem frota e motoristas próprios. Toda a operação de armazém é também garantida por pessoas contratadas pela empresa. Foram tomadas todas as medidas.

“Distribuímos luvas por todas as pessoas envolvidas na nossa operação, dividimos as equipas em duas e temos pessoas de prevenção. Fizemos também a divisão de horários de refeições e de pausas, para evitar ao máximo o contacto entre as pessoas”, explica Luís Carmo, que acrescenta ainda as medidas mais apertadas para os motoristas que chegam de fora.

“Temos a preocupação de saber a origem deles. Implementámos também medidas de segurança à entrada das nossas instalações e no contacto com os nossos colaboradores. À entrada identificamos os motoristas, medimos a temperatura, verificamos se têm máscaras. As zonas onde os motoristas estão, não são zonas onde os outros funcionários estão, limitamos os contactos.”

A Carreras Portugal tem 40 clientes. Para cada um há por trás uma grande operação. O trabalho é sobretudo informatizado, mas no final, diz Luís Carmo, “tudo se resume a um papel".

"Por isso todos os papéis que chegam ficam numa caixa, numa espécie de quarentena. Só no dia seguinte é que o colaborador vai pegar nele e tratar do processo”, remata.

É preciso que os alimentos cheguem às lojas

Rosimeira Lodeiro tem 43 anos, é casada. Todos os dias vem trabalhar para a Carreras com um espírito de missão. “Temos de trabalhar. Nós somos o setor alimentar, temos consciência de que precisamos manter os alimentos a chegar às lojas.”

Já no que toca às saídas diárias de casa para trabalhar, Rosiemeira descarta preocupações. “Tenho noção do que estou a fazer, tomo todas as medidas que foram recomendadas, desde lavar as mãos mais vezes a manter o distanciamento social. Não tenho nenhum nível de preocupação.”

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  • amilcar
    10 abr, 2020 cacilhas almada 03:42
    Adoro-vos e a musica BELA e a musica SACRA otima etcetc continuem uma SANTA PASCOA para vos TODOS E TODAS amen... Amilcar Godinho Pereira ou Amilcar Godinho Pereira da Silva Nunes