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Miguel venceu a Covid-19. "Não adianta ter medo. Estamos bem entregues"

08 abr, 2020 - 15:07 • Inês Rocha

Esteve internado durante uma semana no São João, no Porto, com duas pneumonias e um prognóstico “reservado”. Três semanas depois, falta apenas um teste que confirme já não ser portador de coronavírus. Do susto à gratidão, Miguel conta como venceu a Covid-19, com a ajuda de profissionais de saúde incansáveis. “Nunca nos faltou nada”, garante.

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Quando foi internado no Hospital de São João, com Covid-19, Miguel Duarte, 43 anos, quis saber com que prognóstico devia contar. “Reservado” – foi a resposta que ouviu da médica, que lhe explicou que ainda era cedo para ter um prognóstico com 100% de certeza. Estava com uma pneumonia “muito floreada”, disse-lhe.

Miguel não teve apenas uma pneumonia. Teve duas, em simultâneo, que lhe afetaram grande parte dos pulmões. Uma vírica, causada pelo novo coronavírus, a que se juntou uma bacteriana, resultado da imunidade baixa que tinha.

Um quadro difícil, ainda por cima sendo asmático. “Tive receio, não vou dizer que não”, admite, em entrevista à Renascença. “A primeira coisa que vem à cabeça, como é óbvio, são os meus filhos e a minha mulher”. Ainda assim, procurou ter calma e foi pragmático. “Não adianta ter medo, o que importa é curar isto para estar com eles o mais rápido possível”, pensou.

Passou uma semana internado numa enfermaria de pressão negativa, que partilhou com outros dois doentes, com suporte de oxigénio. Felizmente, não precisou de um ventilador.

Ainda sem um teste que prove que está curado, o gaiense, consultor de Sistemas de Informação, está a caminho da recuperação total. Os sintomas já foram quase todos embora e está perto de cumprir os 14 dias de quarentena, em casa, num quarto isolado do resto da família. Daqui a alguns dias já poderá contactar mais de perto com a mulher e os quatro filhos. Mas os abraços ainda terão de esperar.

Se pudesse mudar alguma coisa, “teria tido mais cuidado”

Ao olhar para trás, Miguel não consegue identificar o momento em que contactou com o novo coronavírus. Desconfia que não foi através de contacto direto com um infetado, já que não conhecia ninguém naquela situação.

“Parece-me que o meu contágio deve ter acontecido através do contacto com alguma superfície que estivesse infetada”, conta. “Depois devo ter colocado a mão na cara, para arranjar os óculos, por exemplo, que é algo que faço muito frequentemente”.

Pode ter sido em qualquer lado: no escritório, na bomba de gasolina, no supermercado. Diz que teve cuidados e já estava em quarentena voluntária quando começou a ter sintomas, mas não foi suficiente. Se soubesse o que sabe hoje, “teria tido ainda mais cuidado”, diz.

Quando começou a ter febre e dores musculares, no domingo, dia 15 de março, achou que era uma “gripe normal”. Os filhos tinham deixado de ir à escola na quarta-feira, apesar de as aulas presenciais só terem terminado na sexta-feira.

“Não liguei muito. Pensei: ‘isto não me vai calhar já, logo a mim’”, conta. Ainda assim, à noite ligou para a linha SNS 24.

“Mandaram-me ir ao centro de saúde”. No dia seguinte, foi visto pela médica de família. No entanto, os sintomas tinham desaparecido. Nem febre, nem qualquer dificuldade respiratória.

“A médica disse-me para ir para casa e continuar com a quarentena”. Assim fez.

No entanto, os sintomas não só voltaram nos dias seguintes, mas pioraram bastante. Na quinta-feira começou a ter dificuldade respiratória – o que atribuiu à asma - e procurou tratar como habitualmente.

Quando, no sábado, dia 21 de março, voltou a ligar para a linha SNS 24, foi imediatamente encaminhado para o Hospital de São João.

O quadro era de pneumonia e era grave. “Disseram-me logo que ia ficar internado, independentemente do resultado do teste”, explica. A dúvida era se ia para a parte das doenças infecciosas, onde são tratados os doentes com Covid-19, ou se ficaria numa enfermaria “normal”.

“Estava perfeitamente tranquilo porque continuava a acreditar que não era Covid-19, ou melhor, não queria acreditar que era”, admite.

Quando o médico comunicou que o teste tinha dado positivo, assustou-se. Ainda assim, diz que o medo não durou muito tempo. “Há que pensar positivamente”, considera.

Do “susto” à gratidão. “Nunca nos faltou nada”

Miguel ainda apanhou mais um “sustozinho”, quando, no segundo dia de internamento, tiveram de lhe aumentar os níveis de oxigénio. No entanto, depois disso, o estado de saúde foi melhorando de dia para dia.

Agora, com a doença quase ultrapassada, prefere recordar o lado positivo de toda a história: a dedicação que sentiu por parte dos profissionais de saúde e a “organização excelente” que encontrou no hospital.

“Tudo muito bem estruturado e pensado, com todos os cuidados e precauções”, garante à Renascença.

Todo o pessoal, desde os auxiliares aos médicos, parecia sempre “muito motivado”.

“Se estavam cansados, acredito que sim, mas não o mostravam”, conta Miguel. “Nunca nos faltou nada. Não estou a falar de coisas materiais, nunca nos faltou uma palavra de conforto, mais cinco minutos para nos explicarem melhor as coisas, nunca nos faltou lutarem connosco e por nós”, afirma.

“Aquelas pessoas fazem tudo o que está ao alcance delas, em detrimento das suas vidas pessoais e da família”, diz o paciente.

Um pouco de rock & roll

Quando começou a melhorar, Miguel Duarte procurou ajudar no que pôde. “Para os auxiliares e enfermeiros não perderem tempo e gastarem recursos, a equiparem-se todos, ia fazendo as coisas mais simples. Punha uma extensão no tubo de oxigénio e ia tirando as temperaturas, que tinham de ser medidas várias vezes ao dia”. Fazia isso também aos dois companheiros de quarto.

Além disso, procurava também dar algum ânimo às pessoas à sua volta. Quando as enfermeiras entravam no quarto para a primeira toma de medicamentos, entre as seis e as sete da manhã, punha sempre música no telemóvel.

A “Yellow Ledbetter”, dos Pearl Jam, que tem um significado especial para Miguel, tocou várias vezes. Também Rolling Stones, Bruce Springsteen, soaram no quarto do hospital.

“Sei que os outros senhores mais velhos não gostavam muito do estilo de música que eu punha, mas sempre os animava um bocado”, conta.

Quando regressou a casa, Miguel agradeceu aos profissionais de saúde como pôde, através do Facebook. Rapidamente se tornou viral e chegou àqueles que o trataram.

"Agradeceram imenso o post, disseram que lhes dá muito ânimo para o que estão a viver diariamente para o que ainda aí vem", conta à Renascença.

Falta um teste negativo para tudo acabar. “O mais difícil é não poder abraçar a família”

Voltar a casa, depois de uma semana na unidade de doenças infecciosas do São João, “foi fantástico”.

Um “alívio” para Miguel Duarte, apesar de ainda não poder abraçar a mulher e os quatro filhos. Teve de ficar num quarto, isolado, mais duas semanas, após sair do hospital. Ainda assim, estar em casa e poder ver a família, ainda que ao longe, é “mil vezes melhor” do que estar no hospital.

Miguel está quase a cumprir os 14 dias de isolamento, mas ainda não tem a certeza de que esteja livre do vírus. Para isso, é preciso fazer um teste, que está “atrasado”.

“Não tenho teste marcado, provavelmente irei fazê-lo só para a semana”, conta. “Nestes casos de doentes que estiveram internados, vem uma equipa de enfermeiros, creio que do INEM, fazer os testes a casa”. Miguel foi informado de que os testes estarão atrasados devido a falta de pessoal para se deslocar a casa de todos os doentes.

“A médica disse-me, no domingo, que provavelmente o São João também terá um drive-thru só para para casos destes, de doentes que tiveram alta”, revela.

Sair do isolamento sem um teste que prove que já não é portador do vírus é motivo de preocupação.

“Isso é o mais difícil, querer abraçar a família e ainda não poder. Já me mentalizei que isso não vai acontecer”, admite.

“Estamos bem entregues”

A todos os que ainda virão a ficar infetados com coronavírus, Miguel Duarte deixa palavras de esperança: “temos de pensar que temos excelentes condições hospitalares, ao contrário do que é normal os portugueses dizerem”, considera.

“Temos excelentes profissionais de saúde, excelentes técnicos de laboratório, que só não fazem mais porque não têm tempo. Esperamos 10, 12 horas por um exame porque há muitos exames e testes para se fazer”, afirma.

O paciente dá nota positiva ao SNS nesta jornada. “Para mim, o SNS sempre teve nota positiva. Não o troco por um seguro de saúde, porque a mim nunca me falhou”.

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