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Radiografia à Saúde em tempos de pandemia

Menos camas, menos investimento, mais idosos. Na saúde, Portugal está mais perto de Itália ou da Alemanha?

Radiografia à Saúde em tempos de pandemia

Menos camas, menos investimento, mais idosos. Na saúde, Portugal está mais perto de Itália ou da Alemanha?

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07 abr, 2020 - 21:39 • Joana Gonçalves

A par da Itália e da Alemanha, Portugal está entre os países da União Europeia com maior índice de envelhecimento. Mas enquanto Itália tem o maior número de mortes por Covid-19, a Alemanha apresenta uma das mais baixas taxas de letalidade do continente. Os dados sugerem que investimento na saúde e recursos hospitalares são o traço que os separa. E Portugal, de qual dos exemplos se aproxima mais?

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Portugal tem um dos piores rácios de camas em unidades de cuidados intensivos (UCI) por doente na União Europeia. A par disso, é o terceiro país mais envelhecido e está dentro da metade dos 27 que mais investe em saúde, embora progressivamente menos, dados que podem revelar-se críticos perante a pandemia de Covid-19.

Uma análise do número de camas em UCI revela que Portugal está entre os países da UE com valor mais baixo, apenas ultrapassado pela Finlândia, Grécia e Suécia. Destes últimos, só a Grécia apresenta um investimento em saúde inferior ao de Portugal.

Alemanha é apontada como o exemplo a seguir e surge no topo da lista, com um total de 29,2 camas por cada 100 mil habitantes.

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes a 2018, apontam para um aumento do número de camas hospitalares em Portugal face ao ano anterior (mais 476), mas denotam que "no global", o valor é ainda inferior ao de 2008 - menos 374 camas.

De acordo com um relatório de 2017 da rede nacional de especialidade hospitalar e de referenciação, Portugal tem um rácio de 6,4 camas de medicina intensiva por 100 mil habitantes, "portanto ainda marcadamente abaixo da média europeia - 11,5 por 100 mil habitantes - e insuficiente para as necessidades de cobertura da rede de cuidados críticos".

Dizem os epidemiologistas e as autoridades de saúde que a Covid-19 segue o modelo 80-15-5, ou seja: 80% com sintomas leves ou moderados, isolados em casa, 15% internados em enfermaria geral e 5% internados em unidades de cuidados intensivos. Face ao rácio de camas em UCI por cada 100 mil habitantes, poderá estar para breve um momento crítico em termos de ocupação dos recursos hospitalares.

Os dados da DGS indicam, ao dia de hoje, terça-feira, que o número de doentes com Covid-19 internados em UCI atingiu um novo pico, fixando-se nos 271.

De acordo com o último boletim epidemiológico da DGS, 345 pessoas morreram infetadas com Covid-19 em Portugal até agora, fazendo aumentar a taxa de letalidade da doença para 2,8%. Este indicador corresponde à percentagem de mortes no total de infetados pelo vírus, ao contrário da taxa de mortalidade, um índice demográfico que reflete o total de óbitos causados por determinada doença.

Portugal apresenta, assim, uma taxa de letalidade acima das estimativas globais, que rondam 1,4%.

"As taxas de letalidade desta doença [Covid-19] refletem um conjunto de aspectos, não só o desempenho do próprio sistema de saúde, mas também aquilo que é a estrutura demográfica da população afetada", defendeu Marta Temido, ministra da Saúde, em resposta à Renascença, na conferência de imprensa do último domingo.

Um país envelhecido, onde o investimento em saúde continua a decrescer

Para além de pessoas com doenças crónicas ou autoimunes, são os idosos o grupo com maior grau de vulnerabilidade a este novo vírus. A taxa de letalidade sobe até ao pico de 13,6%, em Portugal, se considerarmos o grupo etário com 80 ou mais anos.

De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Pordata, compilados esta terça-feira num retrato para o Dia Mundial da Saúde, Portugal é o terceiro país da UE com maior índice de envelhecimento, precedido apenas da Itália e da Alemanha.

Mas entre os três países mais envelhecidos da UE, Itália apresenta um investimento na saúde em % do PIB inferior ao de Portugal, enquanto a Alemanha é o país deste grupo que mais investe no mesmo setor.

O cenário nacional aproxima-se mais de Itália no nível de investimento na saúde e em número de camas em UCI, que da Alemanha. No último ano com dados disponíveis (2018), as despesas do Estado português em saúde representavam 4,4% do PIB, o valor mais baixo desde 2004.

No mesmo ano, foram gastos 18,3 mil milhões de euros em saúde. Dois terços dessa despesa foram financiados pelas administrações públicas (66%) e o restante pelo setor privado, sobretudo pelas famílias (27%).

Num país onde há 157 idosos por cada 100 jovens, que acesso têm as regiões com maior índice de envelhecimento aos cuidados de saúde?

Cerca de 20% dos residentes em Idanha-a-Nova têm mais de 79 anos, o que a coloca entre os três concelhos com percentagem mais elevada de número de idosos. O município faz parte da região da Beira Baixa, onde há apenas um hospital, a 69 quilómetros de distância daquele3 concelho.

Em toda a região Centro há 59 hospitais, tantos quanto na Área Metropolitana de Lisboa (AML), aqui com mais privados do que públicos. A região Norte é aquela que soma maior número de hospitais.

Apesar de ter uma densidade populacional superior à do Algarve e apresentar o maior índice de envelhecimento do país, o Alentejo é a região de Portugal continental com menos hospitais (10).

Com mais privados que públicos, em 2018 existiam a nível nacional 230 hospitais, mais 5 que no ano anterior e mais 41 que em 2008. Mas apesar desta diferença, é nos hospitais públicos que se encontra a maioria das camas disponíveis para internamento.

Os privados já foram chamados a contribuir na fase de mitigação da pandemia e desde dia 26 de março passaram a acolher e a tratar doentes com Covid-19, manifestando-se também disponíveis para internar outros doentes, para aliviar a carga sobre o SNS.

Com o evoluir do surto, os números poderão tornar-se cada vez menos favoráveis para Portugal, mas os especialistas lembram que resultados muito díspares em países diferentes acentuam a imprevisibilidade desta pandemia, pelo que ainda é cedo para tirar conclusões.

Comentários
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  • ola
    07 mai, 2020 00:17
    Excelente raciocínio, tipo há carecas mas não há pentes.
  • Luis Vaz
    08 abr, 2020 Loures 14:45
    Menos de tudo, menos em escumalha jornalixa, que se expande mais que o virús, uma autêntica seita ao serviço de seus donos!
  • GOMES
    08 abr, 2020 PORTO 10:40
    Parece que o Etíope da OMS está em favorecimento da China. Dá a entender que está satisfeito com esta pandemia, que era o seu objetivo. Não estará na hora de se pedir a demissão dele? Ainda por cima, parece não preocupado com o controlo veterinário necessário aos animais selvagens da China. Talvez o Trump se encarregue de expulsar este bandido, culpado disto tudo porque devia ter logo fechado as fronteiras com a China!!!!!!!!!!!!!!!