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​​Qualidade do ar melhorou até 60% após fecho das escolas

06 abr, 2020 - 14:55 • Luís Aresta

Investigadora da Universidade de Aveiro defende que "é possível constatar o impacto das medidas de emergência adotadas" na qualidade do ar. O dia de fecho das escolas, a 16 de março, é um dos momentos de referência.

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A bem dos pulmões de todos, o carro fica em casa. Uma reflexão a fazer por pais, alunos e professores, em plena pandemia Covid-19, quando olhamos para as concentrações de dióxido de azoto (NO2) nas nossas cidades, antes e depois de 16 de março, o dia em que os estabelecimentos de ensino fecharam as portas.

Foi o que fez Myriam Lopes, docente da Universidade de Aveiro e especialista em poluição do ar. A investigadora recorre a duas estações urbanas de medição de qualidade do ar (uma em Entrecampos, no centro de Lisboa, a outra em Aveiro) para observar que "é possível constatar o impacto da pandemia e em particular das medidas de emergência adotadas", tomando por referência o dia 16 de março, data em que, por decisão do governo, foram encerradas as escolas, com a suspensão das atividades presenciais em todos os níveis de ensino em Portugal.

A redução nos níveis de poluição à escala planetária e em Portugal é um dado confirmado, mas no caso português, ao olharmos para as concentrações de dióxido de azoto (NO2) - poluente intimamente associado ao tráfego rodoviário - constatamos que há claramente um antes e um depois do dia 16 de março.

"Na estação de Entrecampos as reduções são superiores a 60%, enquanto que em Aveiro são da ordem dos 50%", assinala Myriam Lopes, ao interpretar os gráficos elaborados pela sua colega Carla Gama. Ambas dedicam boa parte da sua atividade científica ao Grupo de Emissões, Modelação e Alterações Climáticas (GEMAC) e ao Centro de Estudos de Ambiente e do Mar (CESAM), unidades de investigação associadas ao Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, onde se licenciaram.

A redução da poluição do ar, nas duas estações que Myriam Lopes toma como exemplo, é também notória nas concentrações de PM10. Falamos de partículas de diâmetro inferior a 10 micrómetros (a milésima parte do milímetro) que, pela sua dimensão, podem entrar no aparelho respiratório e aceder à corrente sanguínea, gerando ou contribuindo para graves doenças respiratórias e cardíacas.

Embora Myriam Lopes saliente que as concentrações de PM10 "podem ser influenciadas por fenómenos naturais, como seja o transporte de poeiras do Norte de África ou o aerossol marinho", a leitura dos registos permite concluir que há "reduções de 35% na estação de Aveiro e de 30%, na de Entrecampos (Lisboa), principalmente devido à redução das emissões dos veículos e ressuspensão de partículas das estradas".

A menor poluição associada ao tráfego urbano é também percetível nos gráficos que sintetizam a média dos registos diários efetuados no período entre as 00H00 e as 23H00, antes e depois de 16 de março.

Tanto em Lisboa como em Aveiro, as concentrações de NO2 caíram de forma notória e tal é particularmente evidente ao início da manhã e ao fim da tarde. Também as concentrações de PM10 - embora dependentes de outros fatores para além da intensidade do tráfego rodoviário urbano - relevam uma redução significativa, para o mesmo período de análise diária.

Há muito que não respirávamos ar tão puro

A redução do tráfego rodoviário decorrente do encerramento das escolas a 16 março não será o único fator a contribuir para a melhora da qualidade do ar, nas últimas semanas. O encerramento progressivo das empresas e a quebra na atividade industrial, na periferia dos grandes centros urbanos, devido à pandemia Covid-19, também estarão a ter impacto na redução das concentrações de dióxido de azoto (NO2), que já são visíveis partir do espaço.

Imagens captadas pelo Observatório da Terra do Air Centre, situado na Ilha Terceira, nos Açores, apontam para reduções de 80% das emissões NO2 na área de Lisboa e de 60% no Porto.

Há poucos dias, a associação ambientalista Zero recorreu a estudos comparativos com março do ano passado para concluir que Portugal está a emitir para a atmosfera menos 52 mil toneladas de dióxido de carbono, um registo "inédito e sempre precedentes".

Em linguagem simples: o confinamento a que as famílias portuguesas estão submetidas para tentar conter o novo coronavírus está a ter impacto positivo na qualidade do ar nas nossas cidades.

A atividade económica poderá voltar aos níveis anteriores a março, com as consequências inerentes no aumento da poluição. Mas quando as aulas presenciais reabrirem será bom que pais, alunos e professores pensem duas vezes antes de entrar no carro para ir para a escola, quando têm o transporte público a poucos metros da porta.

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