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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Carta a uma filha com medo

03 abr, 2020 • Opinião de Henrique Raposo


Os anos 80, 90 e mesmo o início desde século formam uma época dourada que dificilmente se prolongará. A nostalgia pelo meu passado alia-se assim à tristeza pelo teu futuro: não terás a liberdade e a ausência de medo da minha juventude.

Filha, quando tiveres idade para compreender esta carta, já estaremos numa nova normalidade, e isso tranquiliza-me. Tudo passa, embora agora me apeteça carregar no botão “fast forward” para entrar directamente em 2022. Para ti, essa nova normalidade será apenas a única normalidade. No futuro, olharás para esta quarentena como o momento que marcou o arranque da tua auto-consciência; ainda não é uma consciência adulta, mas já não é a terra mágica e a histórica da primeira infância. A história substituiu as fadas. Entraste no fluxo histórico através deste estranho portal, a quarentena. Percebi isso quando me perguntaste "porque é que o presidente da república estava meio a chorar?" e "tu vais ser despedido?". Quando a criança mais lunática do mundo, tu, faz estas perguntas, é porque alguma coisa mudou mesmo na frequência do mundo.

A minha preocupação começa aqui: a frequência ficou mais negra. O teu momento fundador de autoconsciência é triste - o exato oposto do meu. Cresci numa época de ascensão. O momento que marca o início da minha autoconsciência está em 1987, a fundação da empresa do avô. Antes desse momento, a minha memória é difusa e enfeitiçada, dinossauros e playmobils vivem lado a lado com Ramalho Eanes e Chalana. É a partir de 87 e com a empresa do avô que começo a pensar-me e a pensar no mundo à minha volta. É um momento optimista, que seria reforçado por 89. Seguir-se-ia a década mais fácil da história do ocidente, os anos 90. Sim, vivi uma pobreza que só encontrarás nos livros, a começar nos meus. Mas vivi sempre a subir, sempre na ideia de progressão. Tu e a tua geração correm o risco de viver na sensação oposta, a da estagnação ou mesmo declínio. E aqui não tenho como desarmar o teu pessimismo. Eu faço mesmo parte de uma geração que cresceu no período mais próspero e pacífico da história. Os anos 80, 90 e mesmo o início desde século formam uma época dourada que dificilmente se prolongará. A nostalgia pelo meu passado alia-se assim à tristeza pelo teu futuro: não terás a liberdade e a ausência de medo da minha juventude.

A tua geração é filha da crise, do Bataclan e agora da pandemia. O teu baptismo foi no dia das maiores manifestações de rua em décadas e agora tens a infância literalmente interrompida pela maior epidemia em 100 anos. É inevitável e objectivo: a tua geração terá menos liberdade do que a minha e, se calhar, gostará menos da liberdade. Vocês terão mais medo em relação ao futuro e correm o risco de serem mais autoritários. Não vos censuro. Eu cresci sem predadores naturais, sem crises e sem pandemias. Vocês, em tenra idade, já enfrentaram estas duas ameaças. E este confronto deixará marcas. Vocês serão muito piores ou muito melhores do que nós. Tu serás muito pior ou muito melhor do que eu.

Hoje não quero falar da hipótese mais negra. Hoje quero esperança. Vocês não serão autoritários, serão mais comunitários, mais atentos ao vosso bairro, menos egoístas, mais centrados na família, mais poupados, não gastarão o futuro no presente. Serão mais adultos e menos festivos e inconsequentes. Serão parecidos com os meus avós. Tempos duros são tempos de gesta, são tempos que forjam pessoas decentes, pessoas melhores. E tu serás melhor do que eu. Já vejo isso na forma como me ajudas, apesar de só teres oito anos. Aos oito anos, eu não seria capaz de assumir a liderança moral de certas situações como tu fazes. Sim, serás melhor do que eu.

Comentários
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  • João Lopes
    06 abr, 2020 Viseu 11:15
    Concordo: «Tempos duros são tempos de gesta, são tempos que forjam pessoas decentes, pessoas melhores».
  • Manuela
    04 abr, 2020 Lisboa 03:47
    "O momento que marca o início da minha autoconsciência está em 1987, a fundação da empresa do avô." Nessa altura eu tinha 40 anos! portanto, a minha autoconsciência, começou duas décadas antes! talvez em 1968! estava quase no fim dos meus estudos, tomei conhecimento de coisas existentes na altura, que me assustaram! entretanto fui funcionária de escritório, aprendi como se lida com empresas, que não era bem como a teoria dos meus livros escolares, era mais ou menos isso, mas conforme o funcionamento da empresa havia uns acertos! Por isso não tenho muito mais para acrescentar ao que o Henrique Raposo descreveu na carta dirigida à sua filha, porque "está tudo correcto e afirmativo" como dizem os 'rádio-amadores'. Temos o Sr Presidente Rebelo de Sousa, em que confio, peço a Deus que lhe dê saúde! as coisas vão tornar-se complicadas, mas como ele já passou por tudo o que eu passei, ele vai saber dar as voltas ao país que forem precisas para não voltarem ao tempo do meu avô, se recuarem ao tempo dos meus pais vai haver dificuldades, mas bem orientados como eles eram, as coisas de primeira necessidade nunca nos faltaram! então os nossos filhos/as terão que viver o tempo dos nossos pais, com trabalho, calma e paciência; não se pode ter 3 televisões espalhadas pela casa, só se tem uma! se não se pode viajar, dá-se um pequeno passeio, que é capaz de ser mais proveitoso! conhecer aquilo que temos,dá-nos a chance de saber aquilo que mais falta nos faz, para nos sentirmos confortáveis!