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​Constantino Sakellarides

Um mês de Covid-19 em Portugal. "Defeitos culturais não devem servir para nos culparmos uns aos outros"

02 abr, 2020 - 08:10 • André Rodrigues

​Constantino Sakellarides sublinha que "não podemos deixar passar esta crise sem que nos transforme numa sociedade melhor e mais preparada". Em entrevista à Renascença, o antigo Diretor-Geral da Saúde e professor jubilado de Saúde Pública defende autoridade sanitária das críticas, pede sentido de união e urbanidade. "Quem pensa que, nesta convulsão de fazer frente a um fenómeno desta natureza, não há erros, imperfeições, avanços e recuos, não vive neste mundo", assinala.

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No dia em que passa um mês sobre o primeiro caso confirmado de Covid-19 em Portugal, Constantino Sakellarides alerta que a aprendizagem a retirar deste tempo suspenso não pode ser desperdiçada, sob pena de voltarmos a ser confrontados com uma ameaça semelhante e continuarmos sem resposta eficaz.

Em entrevista à Renascença, o antigo Diretor-Geral da Saúde e professor jubilado de Saúde Pública responde às críticas dirigidas à autoridade sanitária pedindo sentido de união e urbanidade.

A Graça Freitas, Sakellarides reconhece a competência e, mesmo que nem sempre a comunicação seja perfeita, dá o benefício da dúvida, atendendo ao contexto excecional e dinâmico de uma pandemia que ainda está em fase ascendente.

Hoje passa um mês desde que foi diagnosticado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal. Do seu ponto de vista, a evolução da pandemia está a seguir um curso normal ou os números podiam ser melhores?

Nós estamos a viver um momento único na nossa experiência de vida. Trata-se de uma pandemia por um micro-organismo que, até esta altura, não se tinha tornado pandémico e, portanto, nós estamos a aprender em todas as dimensões que se possa imaginar.

Estão a aprender os académicos, porque este vírus espalhou-se pelo mundo muito mais depressa do que aquilo que conhecemos sobre ele; estão a aprender as autoridades de saúde, com um modelo de interpretação de uma pandemia diferente daquele a que estamos habituados; estão a aprender as autoridades políticas, no sentido em que estão a tomar decisões nunca antes antecipadas; estão a aprender os serviços de saúde que, por mais que estivessem preparados, nunca estariam suficientemente preparados para uma pandemia com estes dimensões e características.

Mas há quem critique a forma como as autoridades de saúde estão a gerir a crise sanitária. Fala-se de reação a mais e proatividade a menos. E não é apenas a opinião pública, há organismos políticos, desde logo, autarquias que exprimem essa opinião.

Entendo o que me está a dizer, mas não se deve confundir reatividade com aprendizagem. Não tendo nós, nesta fase, um modelo consolidado em relação a este tipo de pandemias, estando ele a ser construído diariamente a partir das observações e das interpretações que fazemos, nós estamos a adaptar-nos continuamente às circunstâncias.

Por isso, aquilo que, num primeiro momento, até podemos achar que é ausência de reação ou reação tardia ou por falta de inteligência, não pode ser confundido com o que é aprender diariamente circunstâncias novas que nos obrigam a medidas novas.

Em janeiro, a Diretora-Geral de Saúde dizia ser pouco provável que o vírus chegasse a Portugal. Um mês e meio depois, a realidade é bem diferente. Houve precipitação?

Não faria um juízo tão severo, dada a competência reconhecida da Dra. Graça Freitas nesta matéria. O que acontece é que, num determinado momento, a 31 de dezembro, as autoridades chinesas comunicam à Organização Mundial de Saúde que há um fenómeno novo de natureza epidémica, cujo vírus associado era desconhecido.

De repente, passámos a saber que havia um novo coronavírus que se desenvolve na China. E o quê que sabíamos até esse momento? Sabíamos que há uma família de coronavírus que é comum nas constipações pelo mundo fora e que, portanto, é um coronavírus habitual em relação ao qual há um fenómeno de adaptação antigo.

Por outro lado, também sabíamos que há um coronavírus que, há cerca de 20 anos, deu origem à SARS e, depois, houve um outro coronavírus que deu origem à pneumonia atípica do Médio Oriente. Em ambos os casos, estes coronavírus foram contidos e não deram origem a uma pandemia. Eram mais letais do que este, mas como eram pior adaptados à espécie humana, acabaram por ser um fenómeno contido. Neste quadro, a primeira coisa que uma autoridade de saúde faz não é assustar as pessoas.

A primeira coisa que se faz é ter uma certa prudência e, olhando ao que foram as manifestações de outros coronavírus no passado, tentar não alarmar a população.

Mas uma coisa é não criar alarme, outra é dizer que é pouco provável, quase como que afastando tal hipótese...

... a expressão pode ter sido mais ou menos feliz, mas a intenção, julgo eu, foi dizer que há este fenómeno novo na China e, como no passado, não deu pandemia, vamos olhar para isto com uma certa distância.

Só que, quando essa afirmação foi feita, já havia milhares de vítimas mortais na China e, com os fluxos globais de viajantes, a expansão generalizada do problema seria, eventualmente, uma questão de tempo.

Mas não vale avaliar o jogo depois de ele ter sido jogado. Podemos sempre olhar para trás e, com o que sabemos hoje, termos uma avaliação crítica do que foi dito ou do que foi feito.

Agora pense, se fosse um vírus como o SARS, com uma capacidade de transmissão limitada, atingindo apenas parte da China e da Ásia e com repercussões reduzidas no Hemisfério Norte, provavelmente, iria ler essa declaração como normal.

O que interessa é que, à medida que a informação foi avançando, que o fenómeno chinês foi explodindo, que o vírus passou para outros países limítrofes - e daí para a Europa - e, no espaço europeu, demonstrou que se transmitia bem, então, as decisões da DGS e das autoridades do país foram acertadas.

De tal forma foram acertadas que o estudo, agora publicado, da Escola Nacional de Saúde Pública, sobre a comparação da data em que vários países europeus atuaram, vai ver que, em todos os aspetos, Portugal atuou primeiro.

Atuou primeiro em relação à Itália, Espanha, França e Reino Unido. Por isso, face aos dados existentes, não podemos dizer que o país se atrasou nas decisões que tinha de tomar.

Isso significa que estaremos mais longe de ver replicado em Portugal qualquer um dos cenários que se vive nesses países, designadamente Itália e Espanha?

Vamos por partes, é preciso entender o fenómeno antes de entrar em comparação. Antes de mais, é preciso compreender que as curvas nacionais são um somatório de epidemias locais. Ou seja, isto significa que, para além das medidas nacionais, ou antes dessas, tem que haver medidas para travar o avanço da transmissão localmente.

As coisas correm bem como, em certa parte, aconteceu na Coreia e, em parte, na China, porque os focos regionais foram contidos. Por outro lado, temos uma estatística baseada em número de casos e número de óbitos. O número de casos tem a ver com a incidência da doença no somatório desses focos locais e regionais, mas tem muito a ver, também, com o número de testes.

Quanto mais capacidade para testar, melhor e mais depressa serão identificados os casos assintomáticos ou com uma sintomatologia muito ténue. Foi o que aconteceu na Alemanha e na Coreia de uma forma muito precoce e nós vamos seguindo o mesmo caminho, daí que eu pense que o nosso comportamento não é dos piores entre os países da Europa Ocidental, por isso, estou em crer que não nos sairemos pior do que os nossos parceiros europeus.

Dito isto, julgo que podemos fazer projeções, e muita gente está a fazê-las, com base em modelos matemáticos, mas devemos abster-nos de fazer previsões, porque sabemos demasiado pouco para que possamos afirmar que temos previsões seguras.

Por falar em números, já houve situações em que os números da Direção-Geral da Saúde não batem certo, por exemplo, com os dos presidentes de Câmara. O autarca de Ovar chegou mesmo a afirmar que o real número de infetados é mais do dobro em relação aos dados oficiais.

Em quem podemos confiar?

Há várias formas de colher dados. Há os que são colhidos através do SINAVE, que é um sistema informático em que são colhidos os dados a partir do diagnóstico feito clinicamente e, depois, há uma colheita de dados que é feita informalmente por autarquias locais e outras organizações da comunidade e há uma colheita de dados através dos serviços regionais de Saúde Pública que, depois, convergem para a DGS.

O que aconteceu foi que as diferentes formas de colheita não batiam certo. Reconhecendo isso, a DGS chegou à conclusão que o método mais fiável seria o SINAVE.

Há duas atitudes que podemos ter perante isto: uma é esconder os erros, amassar os dados para apresentá-los de uma forma simpática e ninguém dá por isso; a outra é reconhecer que há desencontro de números e incompatibilidades de fontes. Essa é a solução preferível e foi isso que a DGS fez.

Quem pensa que, nesta convulsão de fazer frente a um fenómeno desta natureza, não há erros, imperfeições, avanços e recuos, não vive neste mundo.

No início da semana, a DGS admitiu que estava a ser estudada a adoção de um cordão sanitário na zona do Porto, para conter a transmissão do vírus para o exterior, o que motivou uma reação exacerbada por parte dos autarcas das duas maiores cidades.

No Porto, Rui Moreira afirmou que deixava de reconhecer a autoridade de Graça Freitas e, em Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues acusou a DGS de atuar nas costas dos municípios. Como avalia os argumentos de um lado e do outro?

O que a Dra. Graça Freitas fez foi um facto. A DGS estuda as cadeias de transmissão em detalhe e, quando a transmissão atinge determinadas características, admite essa hipótese, não há nenhum melindre na afirmação da Diretora-Geral.

Por isso, não vale a pena proferir afirmações agressivas, ou de menor consideração uns para com os outros, porque, felizmente, estamos condenados a trabalhar em conjunto. Claro que poderá dizer-me, 'mas a Diretora-Geral tinha necessidade de dizer o que disse?' Ela limitou-se a responder a uma pergunta.

Estudar uma hipótese é uma coisa, chegar a um juízo é outra, comunicar o juízo às autoridades políticas é outra e, só por fim, chegamos à decisão política. Creio que podemos e devemos percorrer todos esses escalões de decisão com unidade, urbanidade, com respeito mútuo, porque isso reforça a luta contra a pandemia.

Mas, nesta fase já avançada da transmissão do vírus, ainda faz sentido pensar em medidas locais deste género?

Pode, ainda, ser uma medida necessária para impedir entradas e saídas dos focos mais intensos de transmissão ou para impedir eventuais incumprimentos das decisões que venham a ser tomadas no âmbito do estado de emergência.

Creio que este é o espaço disponível para acentuar as medidas tomadas anteriormente. Mas é um espaço mais de detalhe, associado a certos grupos e áreas onde é mais importante conter a propagação do vírus do que outras que não têm a mesma capacidade de transmissão.

Na última semana, multiplicaram-se os casos de Covid-19 em lares de idosos e também já há casos na comunidade prisional. Se num caso, tivemos o Governo a apontar responsabilidades às IPSS por não adotarem planos de contingência, no outro tivemos o Sindicato do Corpo da Guarda Prisional a repetir a necessidade de providenciar proteção individual para os guardas.

Que consequências é que isto pode ter?

Creio que, neste momento, a prioridade passa por mobilizar toda a capacidade de que ainda dispomos para apoiar ao máximo os lares e encontrar soluções de distanciamento nas prisões, porque, em ambos os casos, falamos de realidades vulneráveis e sobrelotadas, principalmente nas cadeias.

Mas creio, também, que o pior que pode acontecer, nesta altura, é tentarmos encontrar culpados. Eu assisti, em várias instituições, àquilo que era o desconhecimento sobre planos de contingência.

Diziam que tinham planos de contingência, porque tinham um documento escrito, mas quando esse documento escrito não é assumido por todos, se não se assegura que todos sabem aquilo que têm de fazer em todos os momentos, temos um problema sério. É um defeito cultural que temos que não se corrige de um momento para o outro, nem deve servir de base para nos culparmos uns aos outros.

O tempo de avaliar o que correu mal virá a seguir. Agora, temos de nos concentrar para fazer o melhor possível nesta batalha que temos pela frente.

Esta quarta-feira, o grupo Unilabs, que tem 12 centros de rastreio da Covid-19, anunciou que recebeu um número de pedidos de exames, muito para lá da sua capacidade. Pegando neste exemplo e olhando à necessidade de realizar cada vez mais testes, receia que, em algum momento, possa deixar de haver capacidade para levar essa estratégia por diante?

Esta maior procura por testes já era esperada e é evidente que há limitações de resposta. E não apenas neste aspeto. O secretário de Estado da Saúde já veio dizer que a resposta da linha SNS24 triplicou no espaço de um mês, o que é extraordinário, tendo em conta a dificuldade que é atender todas as chamadas e todas dúvidas nesta fase.

Acredito que, dentro de pouco tempo, ouviremos dizer a mesma coisa sobre a capacidade de testar. Agora, é claro que essa vai ser uma pressão crescente, não apenas em Portugal, mas em todos os países onde a pandemia ainda está numa fase crescente, motivando, por essa via, uma maior preocupação das pessoas.

O Governo aprovou a prorrogação do estado de emergência, admitindo que será necessário ir um pouco mais além nas restrições a aplicar. Terá o governo sido demasiado brando ao admitir as exceções previstas nas primeiras duas semanas de estado de emergência?

Sem prejuízo de serem tomadas as medidas necessárias que protegem as pessoas desta ameaça, é preciso ter algum gradualismo. Parece-me evidente que, de uma forma geral, a população portuguesa reagiu bem às orientações do governo. Na sua maioria, as pessoas foram, de facto, para casa.

Só que, ao longo destes 15 dias, fomos vendo, aqui e ali, situações em que se registaram aglomerações de pessoas, sobretudo aos fins de semana, tanto nas praias, como nos acessos de Lisboa ao sul do país.

Mas esses casos são, apesar de tudo, uma minoria. O problema é que esse pequeno grupo de pessoas nos arrisca a todos. Julgo que a observação que o Governo tem feito e a localização desses grupos têm sido acompanhadas de um endurecimento das medidas, no sentido que, numa primeira fase, é pedagógico, procura explicar.

Mas, ao mesmo tempo, tem havido várias detenções de cidadãos e os estabelecimentos comerciais que se mantinham abertos, têm sido forçados a encerrar. Portanto, essa combinação entre informação, comunicação, persuasão, explicação e literacia e a atuação das autoridades para contrariar esse pequeno grupo de portugueses que ainda não percebeu a necessidade de ficar em casa, tem funcionado bem e não vejo muito mais que se possa fazer nesse sentido.

Nesta altura, não vale a pena estarmos a pensar na segunda curva do inverno ou a pensar no que será o desemprego no segundo semestre, porque isso, agora, não nos ajuda nada.

Mas as projeções não são importantes?

Claro que sim, mas na perspetiva de quem planeia a resposta à pandemia, até porque o sucesso desse planeamento depende de como essas projeções são feitas e quais são os seus resultados. A questão é que, para o cidadão comum, isso não é muito favorável, porque vai gerar ansiedade e a ansiedade desvia do foco essencial que é viver o dia a dia com a tranquilidade possível neste contexto de exceção.

O futuro vai ser diferente. Em muitas matérias, vamos recomeçar de novo e é possível pensar de forma a recomeçar sem alguns dos defeitos que trazemos connosco quando entrámos nesta pandemia.

Que defeitos?

Em relação à forma como nos relacionamos, como nos organizamos, como pensamos o investimento no Serviço Nacional de Saúde. Por um lado, temos de nos focar no momento, nesta semana, vivê-la bem, saudavelmente e, ao mesmo tempo, ir pensando que, num determinado momento, temos de nos reinventar.

E por onde temos de começar?

Devemos começar por aprender, porque, nos últimos 20 anos, tivemos seis ameaças globais de saúde pública e, de alguma forma, saímos de uma ameaça para a seguinte sem aprender muito. Preparamo-nos, mobilizamo-nos, só que, depois da emergência, agimos como se nada tivesse acontecido e não aprendemos a fazer coisas diferentes.

É interessante que, em Hong Kong, a experiência da SARS de 2002 deixou marcas muito profundas e, por isso, trouxe mudanças muito significativas ao nível da preocupação com a higiene pública, com a noção de aproximação e distanciamento social.

Ou seja, nesta pandemia, Hong Kong agiu de uma forma muito mais inteligente, solidária, colaborativa e, por isso, adequada ao contexto. Só uma comunidade mais inteligente, capaz de elevar o nível basal entre ameaças consegue abordar uma nova ameaça de uma forma mais eficaz.

Portanto, quer em relação ao SNS e a sua capacidade - e muito se tem aprendido nestas semanas - quer em relação à sociedade como tal, não podemos deixar passar esta crise sem aprendizagem que nos faça uma sociedade melhor e mais preparada as ameaças de saúde pública que, hoje, são mais frequentes do que no passado.

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  • SOUSA
    02 abr, 2020 PORTO 12:54
    Marcelo e Costa na área de economia são um zero à esquerda!!! Ainda não se aperceberam que já existe muita gente em Portugal com risco de morrer à fome, o aumento das condições precárias! A DGS esqueceu-se por completo dos outros problemas de saúde, com muita gravidade aumentando o risco de vida dos portugueses? Como o AVC, etc....