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Sortes diferentes para raparigas cristãs raptadas no Paquistão

30 mar, 2020 - 18:47 • Filipe d'Avillez

Saima Javaid vai para casa, mas Huma Younus fica com os seus raptores. Os casos revelam como a lei é aplicada de forma aleatória num país onde a perseguição dos cristãos se agrava.

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Dois casos de natureza semelhante, mas desfecho oposto no Paquistão realçam a forma aleatória como a lei é aplicada à comunidade cristã, que tem sido cada vez mais vítima de perseguição num país de esmagadora maioria muçulmana.

Há dias o tribunal de Sahiwal, no Punjab, decretou que Saima Javaid, de apenas 13 anos, fosse devolvida à sua família depois de ter apurado que a adolescente cristã foi raptada por dois homens muçulmanos que a pretendiam casar à força com um deles.

Apesar de a polícia ter ignorado os apelos da família de Saima durante cinco dias, o tribunal conseguiu que ela comparecesse para testemunhar e acabou por ordenar às autoridades que abram um processo contra os raptores, segundo a International Christian Concern.

Mas a sorte de Saima não é partilhada por Huma Younus. A menina de 14 anos foi raptada também por homens muçulmanos, convertida e casada à força. A sua família também se queixou, mas numa primeira decisão o tribunal decretou que o casamento era válido, uma vez que a lei islâmica prevê que a idade de consentimento para o casamento de uma rapariga é a partir da sua primeira menstruação. Com essa decisão o tribunal fez tábua-rasa da própria lei nacional do Paquistão, que diz que a idade mínima para casar são 18 anos, para rapazes e para raparigas.

A família recorreu e recentemente teve novo revés, com o tribunal de Sindh, em Karachi, a dar credibilidade a um relatório médico que indica que pela densidade óssea, Huma tem 17 e não 14 anos como alegam os seus pais e como é suportado por certidões de nascimento e de batismo, que foram devidamente apresentados.

Em todo o processo, e apesar de insistência por parte dos juízes, Huma nunca compareceu em tribunal para testemunhar.

Em declarações citadas numa nota divulgada pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre, a mãe de Huma diz que o tribunal está simplesmente à espera que a jovem faça 18 anos, o que segundo o relatório médico seria daqui a dois meses, para poder dar o caso como encerrado. No entanto, ainda que Huma tenha 17 e não 14 anos, o seu casamento continua a ser ilegal, para não falar no seu rapto.

O caso ainda não chegou ao fim, havendo nova audiência marcada para o dia 16 de abril, mas a família de Huma tem cada vez menos esperança de voltar a ver a rapariga.

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