|

 Casos Ativos

 Internados

 Recuperados

 Mortes

A+ / A-

"Da Capa à Contracapa"

A nossa nova vida digital. "As relações online matam a fome mas não alimentam"

29 mar, 2020 - 19:28 • José Pedro Frazão

A psicóloga social Maria Luísa Lima, uma das referências na área em Portugal, alerta que o medo dos outros por poderem trazer infeção e o fechamento naqueles que já conhecemos pode ser problemático.

A+ / A-

O distanciamento social, o isolamento, a quarentena preventiva ou mandatória fazem agora parte da rotina de milhões de pessoas. Num primeiro olhar para o impacto social e psicológico da pandemia, a psicóloga social Maria Luísa Lima encontra sinais positivos na forma como os portugueses entenderam a natureza da ameaça logo após as corridas iniciais aos supermercados.

"Isto é um dilema social. Se toda a gente for apenas pelos seus interesses e encher a sua casa, não temos que chegue para todos. Mas se formos enchendo todas as semanas isto vai dar para todos. Mas isso exige deixar de se pensar unicamente em si para começarmos a pensar num coletivo. Isto é muito importante, passar da ameaça individual à coletiva. Sentimos que é uma resposta que tem que ser solidária e levar em conta não só a nossa posição, mas a posição dos outros", analisa a professora catedrática do ISCTE, que debateu o tema com o antigo ministro da Educação Marçal Grilo, no programa "Da Capa à Contracapa", da Renascença, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Apesar de tudo, o medo do outro espreita.

"O medo das pessoas a que nós estamos a dois metros na fila do supermercado ou que nos afastamos quando a pessoa no supermercado está a tirar maçãs ao pé de nós, que estamos a tirar pêssegos ou laranjas", exemplifica Maria Luísa Lima a propósito de um receio que se vai instalando de alguma forma nas novas rotinas.

"Este medo dos outros que estamos a sentir agora, porque os outros podem ser portadores de coisas que nos podem infetar, e este fechamento que podemos fazemos naqueles que já conhecemos nos que são a nossa rede anterior, isso pode ser problemático", afirma a também consultora da Fundação Francisco Manuel dos Santos para os estudos na área social.

Somos online o que somos fora da rede

A especialista convidada do "Da Capa à Contracapa" acredita que as pessoas estão a manter online o padrão que já tinham antes. A transição das relações para o mundo digital não deverá trazer grandes mudanças nem alargamento de redes de amizade no plano mais íntimo, acredita Luísa Lima.

"É possível manter relações online. Criar relações do nada, sérias e íntimas, parece-me muito mais complicado. Não conheço investigação sobre isso. Numa relação onde já existe essa confiança criada e que estamos a continuá-la por meios virtuais e esperamos voltar a abraçar e a estarmos juntos outra vez, conseguimos manter relações. Agora construir relações do nada parece-me complicado", afirma a psicóloga social, autora do livro "Nós e os outros: o poder dos laços sociais", editado pela mesma Fundação.

Maria Luísa Lima escolhe uma metáfora particular para demonstrar que os diálogos virtuais não alimentam por completo toda a necessidade de afeto das pessoas.

"As nossas relações online estão para as relações face a face como os snacks estão para uma refeição a sério. Parece que tiram a fome mas não nos alimentam verdadeiramente. Tenho investigação que mostra que os amigos do Facebook não são como os amigos reais. E há muita investigação nesta área que também mostra isto. Nesta altura quem tinha boas redes de relações sociais, com netos e amigos e pessoas com quem estava e tocava e dava abraços e beijinhos está a utilizar mais as redes sociais. São snacks mas é o que temos que aproveitar neste momento e faz-nos sentir muito bem estar mais com essas pessoas", explica a investigadora convidada do "Da Capa à Contracapa".

As diferenças de comportamentos entre Sul e Norte da Europa no domínio dos afetos estendem-se pelo mundo digital, defende esta psicóloga social.

"Temos mais saudades dos abraços e dos beijinhos que os outros. Mas também temos com certeza mais frequência de interação virtual do que os outros. Estou convencida que os netos na Holanda já falavam menos aos seus avós do que falam no Sul da Europa. E também falarão muito menos nesta situação do que falavam há um ano. Acho que estamos a manter online o padrão que já tínhamos antes. E claro que os avós e os netos sofrem mais por não estarem uns com os outros", remata esta psicóloga social.

Pode ouvir o "Da Capa à Contracapa" aos sábados, às 9h30, ou sempre que quiser em rr.sapo.pt ou em podcast nas plataformas digitais habituais.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.