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Germano Almeida: “Personagens, na maior parte das vezes, tomam conta do livro”

26 mar, 2020 - 17:06 • Maria João Costa

“O Último Mugido” é o livro que Germano Almeida estava a escrever quando recebeu o Prémio Camões. É o segundo livro sobre o escritor Miguel Lopes Macieira.

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Já conhecíamos a personagem Miguel Lopes Macieira do livro “O Fiel Defunto” do cabo-verdiano Germano Almeida. Ele era um escritor que foi assassinado no dia do lançamento do seu livro. Agora, regressa para uma segunda aventura. “O Último Mugido” é o segundo romance em que o autor, vencedor do Prémio Camões, coloca no epicentro da ação Miguel Macieira.

Em entrevista à Renascença, o autor revela que este novo livro é “em certa medida, a continuação de «O Fiel Defunto»”, mas confessa: “Não sei é se consegui traduzir exatamente aquilo que inicialmente tinha na cabeça. Os personagens na maior parte das vezes tomam conta do livro.”

Em causa está uma das protagonistas. “Reconheço que o livro acabou por ser conduzido muito pela viúva do Macieira. Não creio que inicialmente eu tivesse tido essa intenção, mas ela tomou o protagonismo e foi andando por aí fora, até ao fim”, admite Germano Almeida.

“O Último Mugido”, editado pela Caminho, é o livro que Germano Almeida estava a escrever em 2018 quando o telefone tocou em Cabo-Verde e do outro lado da linha chegava a notícia de que ele era o vencedor do Prémio Camões – a mais importante distinção da língua portuguesa.

A escrita ficou em suspenso, admitia então Germano Almeida, mas as personagens continuavam consigo. “Costumo dizer que os personagens não me saíram da cabeça. Então resolvi escrever sobre eles. A verdade é que quando a gente começa a escrever, começa sem intensão. Não tem a ideia de dizer «vou fazer um livro». O livro acaba por surgir. Do mesmo modo aconteceu com o primeiro livro. Comecei a escrever aquilo como brincadeira. Depois foi crescendo e acabou por dar um livro.”

Questionado sobre o humor fino que usa na sua escrita e se diverte a escrever, Germano Almeida é afirmativo: “Sempre! Aliás acho que sou a primeira pessoa sempre a divertir-se com aquilo que escrevo. Se os outros se divertem, fico muito contente. Mas eu sou o principal, porque diverte-me criar situações que são efabulações da realidade, mas que são verosímeis”

O escritor que nos explica sobre a sua arte que é “sobretudo um trabalho divertido” escreve no livro “O Último Mugido” que “os escritores são todos uns fiteiros”. Confrontamo-lo com esta sua frase. Ao que nos responde: “Os escritores não gostam de ouvir essas coisas, mas acho que são uns fiteiros em certa medida. Não vou armar-me em “carapau de corrida”, mas a verdade é que somos iguais aos outros. Não há diferença entre nós”.

Germano Almeida revela assim os bastidores da sua escrita. Neste livro “O Último Mugido” há um retrato mordaz da sociedade cabo-verdiana. O autor, diz que já tinha ensaiado isso antes, em livros como “O Meu Poeta” onde explica que tentou “descrever a sociedade de regime de partido único. Neste momento, passados alguns anos sobre o regime pluripartidário”, Germano Almeida, quis atualizar essa visão de um “sistema com alguns partidos”, mas pega nas palavras de uma personagem por si criada para dizer «não diferem muito uns dos outros”.

Retrata ministros, presidentes de câmara, mas também de pessoas da sociedade cabo-verdiana. “Somos um pequeno universo. Não daria para dar um retrato da sociedade cabo-verdiana, sobretudo da sociedade são vicentina sem apanhar esses diferentes extratos sociais” explica o autor de escrita fina e humorada.

Um escritor está em todos os seus livros

No livro agora publicado, Germano Almeida, escreve numa das páginas que “o conjunto dos livros de um escritor corresponde à totalidade da sua biografia”. Será que é assim, também no seu caso?

Germano responde de forma categórica: “Eu acho que em todos os livros que eu já publiquei!” e conta-nos um episódio para o explicar. “Lembro-me de um fulano por quem não tinha grande respeito intelectual, confesso. Ele leu “O Meu Poeta” e disse-me «tu estás em todas os personagens daquele livro» e eu disse, afinal aquele fulano é menos burro do que eu pensava! Porque é verdade, nós pomo-nos nos personagens ou pela negativa, ou pela positiva, estamos sempre neles!”

Germano Almeida conclui que “já não há muitas coisas para inventar”, por isso, diz: “Quando escrevemos, mesmo aquilo que pensamos que é ficção, de algum lado está a vir. Das nossas experiências, vivências, leituras, das pessoas com quem falamos. É sempre a nossa vida!”

E será que esta saga da história do escritor Miguel Macieira acaba por aqui? Será que corre o risco de se tornar uma trilogia? Germano Almeida confessa que ainda não sabe, mas tem andando a pensar que “talvez seja interessante dar o ponto de vista do assassino. Até agora ele não disse nada”.

O autor do assassinato do escritor Miguel Macieira poderá dar origem a um monólogo, pensa o autor Germano Almeida que acrescenta: “Seria um monólogo a dizer, «ok, vocês já falaram, escreveram e disseram muito, mas eu tenho a minha perspetiva e as minhas razões que me levaram ao assassinato».” Vamos ver se haverá um terceiro livro sobre Macieira.

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