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Especialista faz apelo: "Se ficarem 14 dias em casa, ficamos perto de acabar com a pandemia"

24 mar, 2020 - 15:46 • Joana Bourgard (fotografias e texto)

O alerta é deixado por Fernando Maltez, diretor do Serviço Infecciologia do Hospital Curry Cabral. O médico considera que de início houve "alguma adesão" dos portugueses às medidas preventivas, mas será preciso cumprir melhor o isolamento para evitar um crescimento semelhante a Itália ou Espanha. A Renascença esteve esta terça-feira no Hospital Curry Cabral onde todos os dias se fazem 200 testes de rastreio ao Covid-19.

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O diretor do Serviço Infecciologia do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, considera que antes do estado de emergência havia "alguma adesão" por parte dos portugueses às medidas preventivas de isolamento, mas depois da declaração das medidas de exceção o voluntarismo dá alguns sinais de estar a esmorecer.

A Renascença visitou o Hospital Curry Cabral que neste momento acompanha 110 pacientes com Covid-19, dos quais 35 estão ou estiveram internados. Os restantes doentes com sintomas mais leves estão a ser acompanhados à distância, nos seus domicílios. O hospital já registou dois doentes curados e uma morte.

"Se as pessoas se compenetrarem em ficar 14 dias sozinhas em casa e não vierem para a rua, nós acabamos com a pandemia ou ficamos muito perto de acabar com a pandemia", é o alerta deixado por Fernando Maltez.

Há uma semana, antes de ser decretado o estado de emergência, Fernando Maltez alertou para a possibilidade de um crescimento exponencial "para uma curva idêntica da de Itália ou Espanha".

Itália é o país com mais mortos provocados pelo novo coronavírus, seguido da China que contabiliza desde o início do surto, e até ao momento, 3.270 mortes. A Espanha, o segundo país onde a situação é mais preocupante na Europa, já somou 2.182 mortes por causa do vírus pandémico.

"A única maneira de impedir que isso acontecesse, de travar essa linha ascendente, era se nos empenhássemos todos religiosamente dentro daquilo que temos à nossa mão, que é o isolamento social ou distanciamento social. Quarentena, não irmos para a rua, não andarmos em multidões, não frequentarmos locais muito povoados", explica o médico e professor especialista em doenças infeciosas ao referir-se às suas declarações antes de ser decretado o estado de emergência.

Questionado sobre a eficácia das medidas entretanto impostas, considera que "antes do estado de emergência, parecia haver alguma adesão a essas medidas, de uma forma voluntária. Vejo que agora, pelo menos em algumas zonas do país, esse voluntarismo das pessoas parece estar, pontualmente pelo menos, a não se verificar. Basta ver o que aconteceu na Póvoa do Varzim".

Fernando Maltez alerta para a extrema importância do isolamento social e para o facto de não haver vacinas disponíveis nem terapêuticas eficazes. "O único recurso que temos são estas medidas de natureza social e temos que as cumprir o melhor possível". "Se as pessoas se compenetrarem que podem ficar 14 dias sozinhas em casa e não virem para a rua, nós acabamos com a pandemia ou ficamos muito perto de acabar com a pandemia."

Segunda pandemia desde o início do século

"Nem esperava passar por uma pandemia e já estou a passar a segunda", confessa Fernando Maltez. "Pandemias destas só acontecem duas ou três por século e nós já estamos a viver a segunda no século XXI."

"Vão morrer pessoas, muitas vão adoecer. Do ponto de vista económico e do ponto de vista social, isto determina grandes alterações. Há pessoas que vão ficar sem empregos, pessoas que vão ficar economicamente mais debilitadas. Isto tem grandes repercussões", alerta para os tempos actuais que considera "históricos".

Camas e material não faltam no Hospital Curry Cabral

Com capacidade de estender o atendimento aos pacientes com o novo coronavírus a outros pavilhões do hospital, ou de montar tendas de campanha no local onde é atualmente o parque de estacionamento, o médico diz ter camas e equipamentos suficientes "a curto e a médio prazo".

"Para já, temos previsto uma capacidade de 300 camas. Já temos vários serviços libertados para poderem receber doentes com coronavírus. Se for preciso, ainda nos podemos estender para além do hospital porque tivemos uma oferta da Cruz de Malta que nos disponibiliza 26 tendas de campanha onde podemos albergar à volta de 200 doentes", explica.

Quanto à falta de médicos, enfermeiros e técnicos de saúde, Fernando Maltez revela alguma preocupação, mas assegura que por enquanto há suficientes. "Neste momento a nossa equipa já conta com colegas da medicina interna e até de alguns colegas de cirurgia que nos estão a ajudar e vamos mobilizar internos."

Fernando Maltez espera que a pandemia "passe o mais rapidamente possível e que cause o mínimo de danos possível", mas pede a todos os portugueses que tenham estoicismo, "Estas semanas que vão ser muito difíceis, muito diferentes de tudo aquilo que vivermos até agora. Mas temos que ser estóicos, temos que ter capacidade de resistência".

Comentários
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  • Nuno
    29 mar, 2020 Maia 11:30
    2 2=4 e o la Palisse nao diria melhor!
  • Virgínia Neto
    27 mar, 2020 PORTO 09:47
    É ótimo poder receber estas informações E indicações claras e seguras.Foi muito bom e oportuno.Bem haja.Continue
  • Rogério
    26 mar, 2020 Brasil 13:55
    Não resolverá de nada!
  • Andre Mario
    26 mar, 2020 Barreiro 12:53
    Paragem não acho ser a solução o vírus já está espalhado por todo o lado, trancar em casa nada vai mudar, quem vai sofrer com o vírus irá sofrer com ele barricado ou na rua, deveriam era trancar e cuidar dos idosos esses sim deveriam ser isolados a 100%, testar todos os idosos e respectivos cuidadores e isolar a 100%, a maioria terá o vírus e nem vai dar conta ou sentir nada de mais o risco é idosos e pessoas com problemas de saúde, sem vacina o vírus não deve desaparecer nem que já teve está imune de o ganhar outra x mas como especialistas já disseram apenas os debelitados iram sentir ou sofrer riscos de vida, ele se espalha tão rápido que trancado ou não ele já lá está, parar a economia só vai agravar o futuro
  • Maria Ângela Freitas
    26 mar, 2020 Lisboa 10:37
    Tantos alertas, mas há actividades como a construção civil que mantêm laboração, com ajuntamento de funcionários e entregas de fornecedores, WC sem qualquer desinfecção.....e a Polícia e proteção civil, que só lêem o que lhes convém nada fazem.....14 dias em casa, para todos, menos os que prestam serviços essenciais e imprescindíveis!!!!!!
  • Alfredo M.PintoJr
    26 mar, 2020 Brasil 09:46
    Sou português e moro no Brasil e quero dar parabéns pelo artigo.
  • Conceição alves
    25 mar, 2020 Coimbra 23:11
    Tenho muito medo sou uma sobrevivente dos queimados de pedrogao fizera-me duas aspirações ao pulmão fiquei débil com poucas defendas estou a tomar monocid e flumucil acham que é suficiente para estar bem tenho demasiado medo obrigada. Por tudo o que estão a fazer por todos os portugueses pondo também a vossa vida em risco obrigada
  • Adelino Pereira
    25 mar, 2020 21:51
    Quero ter acesso a toda a informacao.
  • Rita Santo
    25 mar, 2020 Lisboa 19:16
    Queremos voltar a trabalhar, contribuir para o sucesso deste país e para o nosso pessoal. Vamos seguir esta lógica de lockdown vertical. Vida continua! Caso contrário em algumas semanas iremos ter mais danos por desemprego, problemas de segurança, doenças mentais, suicídio, etc. Não podemos adotar uma solução que não é possível há existencialidade humana, nesse sentido não é uma solução. https://www.nytimes.com/2020/03/20/opinion/coronavirus-pandemic-social-distancing.html
  • Valdemar
    25 mar, 2020 Lisboa 19:05
    Quando querem que as pessoas fiquem em casa e trabalhem também, é difícil atingir objectivos. As pessoas andam pouco na rua, mas a maioria estão a trabalhar, a atender pessoas, junto de colegas de trabalho e também a receber motoristas, muitos vindos de Espanha. Os contactos são inevitáveis. Assim não vamos lá, ou querem economia ou querem salvar pessoas. Uma ou outra a economia vai à vida, pelo que seria desejável fechar quase tudo e proibir as pessoas de andarem na rua, mas a sério...!!