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Dúvidas sobre o novo coronavírus? Especialistas esclarecem na Renascença

17 mar, 2020 - 15:26 • Daniela Espírito Santo , Miguel Coelho , Sérgio Costa

Especialistas em saúde pública e epidemiologia respondem em direto às dúvidas dos ouvintes da Renascença. Confira as respostas.

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Durante esta terça-feira, a Renascença respondeu às suas dúvidas com a ajuda do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), em direto na emissão, e nas redes sociais.

Teresa Leão, investigadora do ISPUP e médica de saúde pública, respondeu às dúvidas que nos foram chegando na edição da tarde e na rede de fóruns Reddit, onde realizamos uma sessão "AMA" ("Ask Me Anything" ou "pergunte-nos o que quiser") durante a tarde (respostas completas no link ou mais abaixo, nesta página).

N'As Três da Manhã, Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e presidente do Coselho Nacional de Saúde, respondeu também a algumas das muitas dúvidas partilhadas pelos ouvintes da Renascença, enviadas pelas redes sociais e pelo WhatsApp.

Confira as perguntas selecionadas e as respetivas respostas.

Vitor Mantas - As roupas que usamos nos transportes públicos são potencialmente transmissoras?

Henrique Barros - Uma informação geral que ajuda a responder a muitas dessas questões é que grande parte da informação não está obtida. Temos de funcionar com o nosso raciocínio, a nossa capacidade de pensar. O que sabemos é que não podemos levar as mãos à cara, à boca, ao nariz, aos olhos, etc. É possível que, no limite, o vírus possa estar na roupa mas, tanto quanto sabemos, com a quantidade do agente em objetos como a roupa, por exemplo, é quase de certeza, impossível ter um papel na transmissão. De todo o modo, a precaução diz-nos para que evitemos, sobretudo, levar as mãos à cara.

Lavar as mãos e não levar as mãos à cara. Se fizermos isso estamos claramente protegidos.

Rosimeire Sathler - Mesmo estando em casa é preciso lavar as mãos sempre?

Henrique Barros - Mesmo estando em casa, é preciso ter a higiene das mãos, sobretudo porque não estamos sozinhos em casa. Há pessoas que entram, há objetos que chegam... Sabemos que os vírus podem permanecer algumas horas em superfícies, mas não andamos a respirar as superfícies. Se tivermos preocupação com as mãos estamos seguramente protegidos.

Olga Dias - Fala-se muito no lavar das mãos, mas não haverá outras regras de higiene a lembrar como, por exemplo, se podemos beber água pela garrafa?

Henrique Barros - Isso é um mau princípio sempre. Devemos beber os líquidos a partir de recipientes que estejam limpos. Quando pegamos numa garrafa ou, por exemplo, numa daquelas latas de conservas, devemos ter o cuidado de as limpar. Se as limparmos, é como um copo que está lavado, mas normalmente não é isso que acontece, por isso devemos evitar porque aí estamos objetivamente a tocar nas nossas mucosas.

Lidia Gomes - Se alguém tiver uma constipação normal... é preciso avisar?

Henrique Barros - Por favor, esqueçam a ideia e o conceito de constipação normal. Nós não sabemos o que é uma constipação normal. O que nós temos é que saber avaliar e valorizar sintomas. As pessoas que tenham tosse, febre, sobretudo sensação de falta de ar, dificuldade de respirar, mas também outros sintomas, como dores de cabeça persistentes, diferentes das cefaleias, que aparecem de uma maneira diferente... Pessoas que tenham dores musculares fortes, um cansaço inexplicável… Estes sintomas devem ser valorizados. O que é que quer dizer serem valorizados? Não devemos fazer de nós próprios uma espécie de médicos. Devemos estar atentos aos sintomas e não correr para a farmácia, centro de saúde ou, sobretudo, para o hospital. Devemos, tranquilamente, ligar para o SNS24 e, por favor. compreendam que todos nós, portugueses, estamos preocupados. Que neste período do ano estes sintomas eram e são muito banais e podem não ser todos relacionados com o coronavírus. É preciso dar o tempo suficiente para falar com alguém que faça essa triagem e que ajude a orientar e não é preciso estar ansiosamente a ligar minuto a minuto. Se tivermos essa disciplina, os serviços de resposta do outro lado vão funcionar muito melhor, vamos ser melhor orientados e, seguramente, isso vai contribuir fortemente para que a infeção não progrida à velocidade que tentamos a todo o custo impedir.

Mariana - Desde ontem que tento contactar a SNS24, sem sucesso. Tenho 48 anos, o meu filho 12 e a minha avó 89. Vivemos os três cá em casa e estamos com estado gripal, com alguma tosse e dores de gargante, mas não temos febre. Decidi não ir trabalhar e não saímos de casa desde domingo. Devo tomar outra medida?

Henrique Barros - A medida é ligar para o SNS 24, particularmente por causa dessa senhora de 89 anos. As pessoas jovens, os adultos jovens e, sobretudo, pessoas abaixo dos 60 anos de idade irão passar por esta infeção como passam habitualmente por outras infeções respiratórias ao longo do ano. É incómodo, tem sintomas, mas não deixa sequelas.

Leonor Santos - Qual é o tempo médio de recuperação de um infetado com Covid-19, numa situação ligeira/moderada?

Henrique Barros - À volta de sete dias. Ao fim de sete dias, as pessoas, em princípio, podem voltar a fazer a sua vida normal, sem sintomas. Mas gostava de sublinhar um aspecto muito importante: como estamos a enfrentar uma infeção, um vírus, um agente novo, é mais prudente tentar alargar este tempo para as duas semanas. Desde o início dos sintomas e o momento em que podemos retomar a nossa vida normal devem passar pelo menos duas semanas. Nas formas ligeiras, que é a imensa maioria, provavelmente serão muito mais de 80% dos casos, podemos ficar em casa. Mais do que podemos, devemos, temos obrigação por nós, pela nossa saúde mas, sobretudo, perante os outros. Particularmente, se queremos evitar que a infeção se transmita às pessoas mais vulneráveis, que são, além das pessoas mais velhas, as pessoas que vivem com doenças crónicas, as pessoas que têm problemas cardiovasculares, doenças de coração, pessoas que tem diabetes ou pessoas que têm doenças respiratórias crónicas.

André Rodrigues - Tenho lúpus discoide. Sendo uma doença crónica serei considerado uma pessoa de alto risco? Os cuidados a ter são iguais?

Henrique Barros - O lupus é uma doença que mexe com a imunidade de uma forma crónica. Há formas simples, há formas mais complexas mas, independentemente disso, tem de se resguardar e, particularmente, estar mais atento às medidas de prevenção. Gostava de as sublinhar, pois são com essas que temos de viver e que nos vão fazer sobreviver: Higiene das mãos, higiene das superfícies, não tossir e não espirrar para as outras pessoas e, tendo sintomas, ficar em casa.

Mariana Santos - As grávidas devem ter cuidados extra para além dos já amplamente divulgados? Caso contraiam a doença terão mais probabilidade de necessitar de internamento pelos sintomas mais agravados, eventualmente?

Henrique Barros - Têm de ter os mesmos cuidados. Agora, uma grávida é uma pessoa particularmente em risco. A gravidez associa-se a uma alteração da imunidade, particularmente da chamada imunidade celular. Ao mesmo tempo, o próprio aumento do volume abdominal modifica a dinâmica e a fisiologia respiratória. Portanto, uma grávida infetada pode ter um quadro clínico mais severo e que necessita de mais cuidados. Agora, há duas coisas muito importantes que já sabemos e, provavelmente, não irão modificar-se: a infeção não se transmite ao bebé dentro do útero e a mãe pode amamentar, ou diretamente ou fazendo a extração do leite. As condições que depois existem em relação aos bebés são as mesmas e é preciso é protegê-lo da mesma maneira que nos protegemos a nós, adultos e crianças.

Confira também as perguntas e respostas da sessão AMA da Renascença e ISPUP no Reddit.

Podemos ou não tomar ibuprofeno na presença de sintomas similares ao coronavírus?

Em relação ao chamado Brufen, aquilo que iniciou todo este ruído foi uma carta enviada a um grande jornal e esta carta diz que, de facto, existem alguns medicamentos que podem estar associados a um maior risco, maiores consequências pela doença. No entanto, o problema deste estudo ou carta é que a evidência que eles mostram não é, de facto, muito fidedigna ou, pelo menos, não é muito consistente. As análises que deviam ser sido feitas aos dados não estão lá demonstradas e, portanto, de facto, não há evidência que mostre que faz mal, no final de contas. No entanto, aquilo que a OMS faz é dar-nos alguma nota de precaução. E a nota de precaução é em relação a tudo. Se podemos tomar paracetamol em vez do ibuprofeno, seria a melhor opção.

E o que fazer caso o doente já esteja a tomar por indicação clínica?

O ibuprofeno habitualmente não se toma regularmente, toma-se apenas quando há uma inflamação, uma situação muito pontual. Se essa pessoa estiver a tomar por uma inflamacao e vier a ter sintomas respiratórios, poderá ponderar parar de tomar e até tomar um paracetamol para reduzir a dor, em vez de reduzir a inflamacao e tentar também fazwer alguns exercicios que reduzam a própria inflamacao, da articulacap, por exemplo, existente.

A Maria de Fátima Lopes enviou uma pergunta por WhatsApp. A que temperatura é que devemos lavar a roupa atendendo que a maioria das roupas hoje em dia só pode ser lavada a 30 graus. 30 graus é suficiente para lavar a roupa e eliminar o vírus? No caso de não lavar logo a roupa, quantos dias deve ficar ao ar para garantir que o vírus já morreu? As compras que vem do supermercado devem ser desinfetadas ou quantos dias é que posso deixar os sacos num sítio sem os arrumar até que não corra o risco de ser contagiada?

A Maria de Fátima Lopes tem preocupações bastante válidas. Em relação à roupa, as primeiras indicações são: chegamos a casa, tiramos o nosso casaco, descalçamo-nos, pomos as nossas pantufas ou chinelos, a nossa roupa de casa. Para lavar a roupa, à partida, a lavagem de roupa a uma temperatura normal, os 30 ou 40 graus, será suficiente para eliminar o vírus porque ele não é assim tão resistente em superfícies que estão lavadas. Ele é resistente em superfícies lisas e em situações de temperatura e humidade ideais. Lavando a roupa, à partida, conseguimos eliminá-lo. No entanto, se ela conseguir lavar no limite máximo do indicado, melhor ainda. E se andar com algodão, pode lavar a cem graus, que ele consegue aguentar. Na realidade, a nossa roupa não estará, à partida, tão contaminada quanto isso. Não estamos constantemente a levar com espirros no Metro, por isso pode estar relativamente tranquila. O saco das compras é o mesmo ponto. O risco de termos vírus vivos nas superfícies do sacos é relativamente baixo. Podemos ter alguns, mas não tantos. O que é importante é as pessoas perceberem que, chegando a casa, lavam as mãos, arrumam as compras, lavam as mãos, antes de preparar os alimentos, lavam as mãos... Lavar 20 segundos, com água e sabonete líquido, esfregando muito bem... É isso que temos de fazer. Lavar as mãos.

Rosa Vieira quer saber sobre congelação de produtos. O frio mata o vírus?

Boa pergunta, Rosa. Não fazemos a mínima ideia. O que temos como informação até agora? Sabemos que os alimentos não parecem transportar o vírus em si, não parece existir contaminação através de alimentos ou contágio através da ingestão de alimentos. Portanto, devemos lavar muito bem a fruta e os legumes e cozinhar muito bem o resto dos alimentos que vão ser ingeridos. As carnes, principalmente, até para prevenir outro tipo de infeções, como bacterianas. Temos de manter o mesmo tipo de cuidados que temos tido com os alimentos. E claro, novamente... lavar as mãos.

André Mota fala sobre o facto de estar a ser desenvolvida uma vacina contra o coronavírus. Quem a tomar ficará, à partida, com defesas contra a doença... Mas como ficará quem não pode tomar vacinas por ter doenças auto-imunes?

AInda não sabemos nada sobre esta vacina. Se for uma vacina viva, as pessoas com imunodeficiências poderão não poder tomar essa vacina. Não sabemos se será uma vacina inativada, e essas pessoas já poderão tomar essa vacina mas, realmente, a resposta imunitária é um bocadinho mais fraca. As pessoas que são imunodeprimidas, as suas células não conseguem responder tão bem à vacina. Neste momento, André, não haverá ainda informação que consiga suportar a minha resposta, nem qualquer outro clínico ou cientista saberá. Temos de esperar um pouco. Até lá, tem de ter especial cuidado, não estar em zonas com muitas pessoas, cuidado com a etiqueta respiratória e faça com que as pessoas que estejam à sua volta também cumpram as regras. E, de novo, para ser chata, lavem as mãos.

Ana Paula Fonseca enviou uma pergunta pelo WhatsApp da Renascença. "Eu sei que as máscaras e as luvas são descartáveis, mas não há para descartar. Portanto, queria saber se posso reutilizar as luvas chegando a casa e lavando-as como lavo as mãos. As máscaras, posso pô-las em lixívia ou água a ferver?".

A resposta à Ana Paula Fonseca é: não precisa de usar luvas. Pode andar com as suas mãos despidas, não precisa de as utilizar. Basta lavar as mãos. Quanto às máscaras, são indicadas para profissionais de saúde e para quem tem doenças respiratórias já. A utilização da máscara faz com que a Ana Paula, ao colocar a máscara no rosco, ao mexer na máscara durante o dia, possa levar a mão que esteja suja com o vírus às suas mucosas dos olhos, do nariz ou da boca e aumentar o risco de doença. A minha recomendação é: não reutilize as luvas, não reutilize as máscaras. Simplesmente, não use se não for necessário.

E ainda há outro risco: temos visto que há um problema de stock de máscaras, mesmo para fornecimento de hospitais. Se pensarmos que, cada um de nós, está a comprar uma máscara que seria necessária para um infecciologista que irá tomar conta de nós, ou do meu avô ou do meu pai, e que não tem naquele momento... percebemos que temos um impacto na prestação de cuidados e no futuro e na gravidade da doença em algumas pessoas. Se tiver de usar máscara, não a reutilize, nem sequer a lave, nem sequer a ponha em água a ferver, pois vai estragar a máscara. Aquilo que vemos noutros países, de pessoas a usarem máscaras, pode ser por falta de literacia ou cuidado, pode ser por existir muito stock naquele país, mas pode ser, também, ser por haver muitas pessoas que estão com sintomas respiratórios. Por exemplo, na China, houve muitas pessoas que tiveram a doença e, para proteger os outros, usavam a máscara. Neste preciso momento, só as pessoas que têm a doença é que devem usar a máscara e só os profissionais de saúde é que devem usar a máscara.

Uma pergunta de Rosário Gomes, que teve cancro da tiróide e foi-lhe extraída essa glândula. Essa ouvinte pergunta se quem vive sem a tiróide está mais vulnerável a uma forma several de Covid-19. Esta ouvinte tem 72 anos de idade.

A Rosário é aquele grupo da população que me preocupa, não pela tiróide ou falta dela, mas pela sua idade. A Rosário tem de ter especial atenção porque, pela sua idade, pode ter mais risco de ter uma forma mais grave da doença. Tem de ter cuidado com as pessoas com quem lida, especialmente se tiverem sintomas respiratórios. Deve ter cuidado com a higiene respiratória, não estar em zonas com muita gente, não estar na fila do supermercado próximo de muitas pessoas.

Qualquer pessoa que tenha tido um problema de saúde severo.... é um factor que aumenta o risco de contrari a doença.

Aquilo que temos em termos de informação é que há algumas doenças crónicas que podem estar associadas a um pior resultado. As pessoas que têm receio que a sua doença crónica possa ser um factor de risco têm de pensar que, aquilo que a população geral está a fazer é aquilo que tem de fazer com redobrada atenção. Se calhar tem de ter cuidado e não ir a um café onde esteja muita gente, ou até evitar ir a cafes e estar mais ao ar livre. Ou então, dependendo do que o governo disser em breve, ficar em casa sossegado.

Poderemos ser confrontados com estado de emergência. É necessário?

É dificil responder rapidamente a esta questão tão complexa. Aquilo que a população tem de perceber é que, independentemente do estado de emergência ou não, as pessoas têm de ter cuidado, não estar com demasiada gente, isolar-se um pouco mais. Em termos físicos, em termos psicológicos. Em termos do contacto com as outras pessoas, liguem, falem com as pessoas que estão isoladas, falem com os avós sozinhos em casa, não façam com que a saúde mental fique afetada pelo facto de estarmos mais metidos em casa. Isso é muito importante para que depois possamos recuperar de forma mais saudável desta crise.

A pergunta de José Santos. Queria saber se existe algum risco acrescido para os fumadores em contrair o coronavírus.

Deixem de fumar. Esta é a resposta fácil e a mais dificil para as pessoas ouvirem. O fumador não tem necessariamente mais risco de adquirir a doença, mas ter um pior resultado em saúde. Assim como pessoas que sejam mais obesas, que têm menor capacidade física de lutar contra uma infeção. Deixem de fumar, pois é um grande fator de risco não só para a covid-19, mas até por que pode morrer mais cedo por causa de outras doenças mais comuns.

É um fator de risco para qualquer doença mais grave. Mesmos fumadores ocasionais, é melhor deixarem mesmo de fumar.

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