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Dez anos depois, na Síria luta-se por autoestradas

19 mar, 2020 - 00:40 • Filipe d'Avillez

Com a guerra civil da Síria a entrar no décimo ano o território rebelde é cada vez menor. Turquia e Rússia chegaram a acordo para patrulhar a última autoestrada ainda na posse dos inimigos de Assad, mas estes não estão contentes.

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Grupos rebeldes na região de Idlib, na Síria, estão a tentar evitar que a Rússia e a Turquia consigam levar a cabo patrulhas conjuntas na autoestrada M4, a única via estratégica que continua em território rebelde.

Ao longo das últimas semanas as forças do regime, leais a Bashar al-Assad, conseguiram consolidar a conquista da pequena cidade de Saraqib, o que permitiu controlar a autoestrada M5 que liga Alepo a Damasco, passando por Homs. A reabertura da via é fundamental para o desenvolvimento do país.

Essa vitória, ganha após duras batalhas contra os rebeldes, deixou apenas uma autoestrada fora das mãos de Assad. A M4 liga Saraqib à cidade costeira de Latakia e a sua recuperação permitiria ao regime normalizar em larga medida a vida social e económica do país, isolando ainda mais Idlib.

O acordo alcançado entre a Turquia, que apoia os rebeldes, e a Rússia, que apoia o regime, prevê uma faixa desmilitarizada de seis quilómetros de cada lado da estrada que atravessa a zona rebelde de este para oeste, e patrulhas conjuntas entre as forças dos dois países para garantir a sua segurança. Toda a zona a sul da autoestrada, que equivale a cerca de um terço do território rebelde de Idlib, ficaria sob controlo russo, o que equivale a dizer que ficaria nas mãos do regime. Apesar de a Turquia se ter comprometido nesse sentido, rapidamente a oposição síria manifestou o seu desacordo.

Os protestos inviabilizaram uma primeira patrulha, marcada para domingo e na terça-feira um grupo rebelde bloqueou a M4 com pilhas de terra, pedras e sucata.

Num vídeo publicado nas redes sociais um grupo de militantes deixa ameaças aos militares russos e promete que não desistirá enquanto não impuser a lei islâmica em Damasco.

“Estamos aqui, os mujahideen, na autoestrada M4 para dizer aos turcos e aos russos ateus que aguardamos a chegada dos russos. Se chegarem, ceifaremos as suas cabeças. Estamos aqui à vossa espera e não esperem de nós nada para além da colheita de cabeças. A nossa guerra convosco não é por autoestradas, é para colher cabeças em Damasco. A nossa guerra é para abater o tirano Bashar, de Damasco, e para implementar a lei Sharia em Damasco”, afirma o líder, apoiado por uma dúzia de homens armados e encapuzados.

Os rebeldes afirmam que esta é uma cedência desnecessária e muito prejudicial ao regime, em troca de um cessar-fogo que nunca chegou a ser respeitado e que é insustentável a longo prazo. Não obstante a resistência da Turquia, a Síria não dá qualquer indício de querer abdicar de reconquistar Idlib e a Rússia não dá qualquer indício de deixar de apoiar Assad.

A divisão entre os rebeldes a propósito do apoio turco é preocupante para Ancara, mas é também um sinal da falta de coordenação entre os opositores ao regime de Assad. Os grupos atualmente presentes em Idlib não têm qualquer liderança unida e em muitos casos são sobreviventes de milícias que foram sendo retiradas, ao abrigo de acordos mediados pela Turquia, de outros pontos da Síria.

O tom jihadista da vasta maioria dos rebeldes é indisfarçável e ilustra bem como mudou o cenário desde o começo dos protestos contra o regime, há mais de nove anos, quando parecia que a oposição a Bashar al-Assad seria de natureza democrática.

Enquanto os combates na região de Idlib continuam, dois incidentes desta quarta-feira mostram que nem no seu território os líderes da oposição estão em segurança. Abu Ahmad, líder de todas as forças rebeldes na zona montanhosa de Jabal Zawiyah, e um dos maiores opositores da ideia de entregar a região aos russos, foi assassinado quando o seu veículo foi atingido por um engenho explosivo. Outro líder rebelde também foi vítima de um atentado mas sobreviveu. Suhail Mohammed Hamoud, conhecido pelo seu nome de guerra Abu Tow, por causa da sua perícia em operar mísseis antitanque Tow, ficou ferido num pé.

Não se sabe se os atentados foram levados a cabo por agentes leais ao regime infiltrados no território, ou por rebeldes de outras fações.

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